Resenha | Toda Rê Bordosa

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Toda Rê Bordosa é uma compilação (quase) completa da, talvez mais famosa, e de carreira mais meteórica, personagem do quadrinho nacional, criada por Angeli na década de 80.

O primeiro ponto a se notar, é o excelente trabalho gráfico da edição. Além da impressão impecável, com as tiras recuperadas digitalmente através dos originais do autor. O álbum conta com uma capa dura, feita de um material parecido com papelão cinza, fazendo com que seja uma edição de luxo, mas ao mesmo tempo, já que o luxo não combina em nada com a Rê, traz um ar de despojamento, totalmente condizente com a velha junkie.

Falando um pouco do conteúdo e da personagem: Rê Bordosa, uma porra louca por vocação, leva a vida com objetivos claros, passar o dia na banheira, curando a ressaca ou sua bad, para a noite poder ter mais uma dose de vodka, sexo, cigarros, vodka, drogas, vodka, orgias, e mais uma vodkinha pra não perder o costume. Intercalados com alguns Whiskies e vinhos, de vez em quando.

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O sucesso da personagem nos anos 80 foi tanto, que o autor se viu obrigado a matar à matar a personagem, feito em duas versões, uma mais curta chamada: A Morte da Porralouca. Em que o próprio cartunista se insere nas histórias, demonstrando claramente que o sucesso não previsto de alguma forma o incomodava, e outra, mais longa chamada: A Verdadeira História da Morte de Rê Bordosa, em que ela se afoga, cai do prédio, é exorcizada, explode, mas o que a mata de verdade, é o Tedius Matrimonius. Para nos colocar o tamanho desse acontecimento na época, o álbum traz uma página da Folha de S. Paulo, do caderno Ilustrada, dedicada à noticia de sua morte, os motivos deixados claros pelo autor, e um pouco de seu desapego com a personagem.

Um ponto a se ressaltar, e talvez o mais interessante dessas histórias, ao consumirmos a obra compilada, é que se nos atermos superficialmente às historias da pin-up mais famosa dos anos 80, podemos erroneamente pensar que se tratam apenas de histórias de humor negro e ácido, que tocam as vezes em temas espinhosos como aborto, religião, etc. Porém, a obra de um cartunista tão marcada por sua crítica tanto política como social, como é o caso do Angeli, definitivamente não nos permite ficar apenas na superfície.

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Além das críticas mais claras, como a já citada igreja, ou o temível TFP, Tradição Família e Propriedade, e até mesmo a hipocrisia com relação ao aborto, praticado mensalmente pela Rê. Quando colocamos as tiras no contexto da época e a situação do país, podemos notar claras referências, a digamos, abertura do Brasil. Em que após o fim de um regime ditatorial, mesmo as pessoas podendo fazer o que quisessem com suas vidas, sem mais contar com a repressão da máquina governamental militar, ainda teríamos as amarras sociais semelhantes às desses tempos, calcadas por outras razões que não a ditadura explicitamente, mas que surtem um efeito parecido. Talvez seja esse o grande tema, salpicado aos poucos, por trás das tiras de Rê Bordosa. Se considerarmos então a série Vodka, de 2009 (também presente no álbum), que é uma reinterpretação, ou uma ode à junkie oitentista em tempos mais recentes, aí sim temos mais clareza para uma interpretação como essa, e pelo próprio autor, dá a impressão de que tais amarras, não só não regrediram, como evoluíram.

Toda Rê Bordosa, álbum lançado em 2012 pela Companhia das Letras, sob o selo Quadrinhos na Cia. é uma obra obrigatória para todo fã de quadrinhos, um projeto muito bem elaborado, que faz jus a história tanto da personagem, quanto seu autor.

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