Resenha | Tungstênio

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Marcello Quintanilha é um dos grandes quadrinistas brasileiros da atualidade. Em 2009, recebeu o prêmio HQ Mix de melhor desenhista nacional por Sábado dos Meus Amores, publicado em 2009 pela Editora Conrad. Conhecido pelo traço elegante e o trabalho riquíssimo na construção de seus personagens, novamente o autor entrega um dos grandes álbuns de quadrinhos publicado em 2014.

Tungstênio, metal pesado resistente a grandes temperaturas e conhecido pela sua capacidade de aumentar a resistência de ligas metálicas, se tornou uma matéria-prima fundamental para o desenvolvimento da indústria bélica.

Assim como o elemento químico que dá nome à obra de Quintanilha, Tungstênio possui uma trama pesada, que relata pequenos momentos da vida de quatro personagens, todos retratados de maneira crua e desvendada de maniqueísmo, com as particularidades existentes em cada um de nós, sem julgamentos.

A trama gira em torno desses personagens: um sargento aposentado, um traficante, um policial durão e a sua esposa: todos pululam ao redor de um crime ambiental envolvendo pescadores que utilizam explosivos na orla de Salvador. Este crime servirá como fio condutor para o desenvolvimento da narrativa de maneira gradual, de modo que pouco a pouco a tensão aumenta e prepara terreno para o embate entre eles em sua derradeira conclusão.

Importante frisar que a narrativa gráfica de Quintanilha é fluida e primorosa, e utiliza enquadramentos dinâmicos sob diversos pontos de vista, além de expressões faciais riquíssimas que nos levam a compreender os pensamentos da personagem sem a necessidade de estabelecer um único balão de diálogo. Além disso, o autor demonstra pleno domínio do seu traço no desenvolvimento dessas histórias para que realize transições em momentos chave da narrativa, ditando o ritmo necessário para modular o rumo de cada núcleo de personagens.

Se o trabalho visual do autor é irretocável, o mesmo pode ser dito do roteiro. A construção de cada personagem é feita de maneira crível e paulatinamente, utilizando flashbacks para produzir melhor credibilidade nessa construção. O trabalho de roteiro não se perde nos quatro núcleos, como costuma acontecer em histórias com vários protagonistas, e não prejudica personagens em detrimento de outros, pelo contrário: todos têm um alto nível de complexidade e camadas. Ademais, o processo de caracterização e ambientação da história em Salvador se mostra extremamente natural, captando a alma do local e de seus habitantes.

No fim das contas, Tungstênio é um trabalho delicado de construção de personagem, e, sobretudo, um retrato da sociedade brasileira, com todas as suas idiossincrasias, injustiças e o senso comum latente tão comuns em nosso cotidiano.

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