Resenha | Um Brasileiro Chamado Zé Carioca

ze-carioca-vortex-culturalAs edições luxuosas de quadrinhos, com capa dura e impressão em couché, parecem ter mesmo caído no gosto do consumidor brasileiro. Além de uma vasta coleção quinzenal da Marvel e da DC Comics (pela Salvat e Eaglemoss, respectivamente), a Editora Abril tem lançado uma bem-sucedida série de encadernados com os personagens Disney. Embora não seja exatamente uma coleção com numeração ou sequência – na verdade, existem duas outras ramificações, com os Manuais Disney e O Pato Donald por Carl Barks, que seguem diferentes das demais – as edições em capa dura apresentam geralmente um bom material.

Um Brasileiro Chamado Zé Carioca é a primeira dessas edições com material 100% nacional. Lançado em novembro de 2015, esse volume traz a fase de transição do personagem para algo verdadeiramente brasileiro, pelas mãos de Ivan Saidenberg (roteiro) e Renato Canini (desenhos). Criado em 1942 para o filme Alô, Amigos – parte da política de boa vizinhança dos Estados Unidos com os países latinos – Joe Carioca estreou nas tirinhas americanas ainda antes da película estrear nos cinemas. A transformação de “Joe” em “Zé” passou ainda por Jorge Kato – que desenhou suas primeiras histórias brasileiras e frequentemente adaptava aventuras de outros personagens como Mickey ou Pato Donald, substituindo-os pelo papagaio – mas consagrou-se mesmo no traço de Canini. O desenhista gaúcho retratou o malandro de forma muito mais abrasileirada, livrando-se do terno e gravata e dando a ele um visual mais condizente com o calor tropical do Rio de Janeiro (muito antes da reformulação “radical” dos anos 90). O paulista Saidenberg, por sua vez, pesquisou a fundo os hábitos e costumes do povo carioca e inseriu-os em suas narrativas.

Assim, temos um Zé mais humano e brasileiro que nunca, que embora tenha fama de malandro está sempre arrumando um jeito de ganhar a vida. O Zé da dupla Saidenberg/Canini não é o preguiçoso que outros artistas costumam representar. Ele aparenta ser mais jovem e cheio de vida, com uma energia imensa para gastar com seus trambiques. Junto dele, seu inseparável amigo Nestor se torna a “voz da consciência”, mesmo não sendo levado muito a sério. A Vila Xurupita ainda não estava plenamente desenvolvida, mas o barraco do Zé no Morro do Papagaio é um retrato exageradamente cômico da vida nas favelas cariocas da década de 70.

Como contraponto, vemos também seus primos de outros estados brasileiros, cada um representando um estereótipo regional, tal como o próprio Zé Carioca. Ainda vemos as primeiras aparições do vizinho e amigo Pedrão, que ganharia mais importância nas histórias das décadas posteriores. A edição traz também a primeira história do alter-ego do Zé, o Morcego Verde, que da mesma forma que o Capitão Feio da turma da Mônica se transforma após ser soterrado pela sua coleção de gibis.

As histórias narram as mais diversas aventuras, desde coisas simples como uma feijoada até contos em outros mundos de fantasia, passando por futebol, carnaval e muito samba. Os personagens coadjuvantes por vezes fogem do padrão “ave ou cachorro”, e vemos Zé Carioca interagir com outros animais humanizados pouco usuais nos quadrinhos Disney, como sapos, cobras ou rinocerontes! Além dos trambiques, histórias de mistério também permeiam os 44 contos dessa edição.

O texto de Ivan Saidenberg é realmente muito engraçado, mesmo nas situações mais absurdas. Junto ao traço caricato, propositalmente desproporcional e fora dos padrões Disney de Renato Canini, temos uma excelente obra que merece muito um segundo volume!

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