[Resenha] Uma Vida Chinesa – I. O Tempo do Pai

Parte da composição artística é feita com base na experiência pessoal. Ações modificadoras que utilizam uma narrativa como registro eterno. Em maior ou menor grau, há sempre um relato que atravessa as páginas ficcionais. Nenhum autor está alheio ao seu tempo ou livre de inserir partículas de si em sua obra. Bem como há uma vertente que explicitamente transforma o objeto artístico em uma forma de reconstruir o passado, procurando ressignificá-lo através da arte.

Lançado pela WMF Martins Fontes, Minha Vida Chinesa é uma história em três partes escritas por Li Kunwu e Philippe Ôtié, retratando o período em que Kunwu viveu na China. Cada uma das partes da HQ abarca um período do país, tendo como ponto de partida inicial a liderança de Mao-Tse Tung, uma das primeiras grandes transformações da China nos últimos séculos.

O primeiro volume, lançado originalmente em 2009 e no Brasil em 2015, intitula-se O tempo do Pai. Partindo desde a fundação da família para narrar os primeiros anos de vida do autor como um observador da revolução comunista na china. Uma análise influênciada pelo pai da personagem, um dos secretários a serviço do Partido Comunista Chinês. Diante desse cenário, é com certo amargor que Kunwu narra os feitos da época.

A partir da revolução, a China sempre foi vista de maneira dúbia. As análises sobre Mao no poder apresentam, muitas vezes, fatos tendenciosos. E, ainda hoje, parte do material de grandes estudiosos sobre o tema ainda não chegaram em nossa língua. Para se compreender a fundo as modificações da China no período, são necessários explorar textos em outras línguas, a procura de autores diversos e vozes distintas capazes de pontuar o que foi bom e ruim nesse período. De qualquer maneira, o narrador demonstra incômodo sobre o que viveu, como se houvesse uma diferença clara da China de Mao vista de fora, daquela vivida cotidianamente.

A contextualização da história é pautada sob o ponto de vista do autor. A evolução do comunismo chinês é vista como uma ação paradoxal em que havia muita utopia em contraposição a uma miséria crescente. Desde o início da narrativa, permeando a evolução a partir de 1955, há paradoxos explícitos entre uma ênfase publicitária, da potência do comunismo como regime para melhorar a nação, enquanto a vida do personagem e sua família demonstra um cenário mais delicado em que o campo e a cidade se imaginavam mais equilibrados do que estariam de fato, todos vivendo em um ambiente desigual.

A ideologia maoísta é inferida como uma doutrinação inserida em diversos aspectos da sociedade. Havia preceitos puros, evidenciando a transformação da população como ativa na força de trabalho, sempre recordando-os que todos possuem igualdade, preservando uma auto-consciência sempre retomada pelos simpatizantes ao movimento. Porém, conforme o sistema agrega nova parte da população para defender seus ideais, a utopia do socialismo é aquebrantada por pequenos interesses próprios.

Evidente que o leitor mais atento irá pressupor que tal fato não aconteceu na China como um todo. Porém, pela visão de Kunwu, o benefício próprio da população era claro e tal fator foi utilizado para subjugar aqueles que não eram considerados bem inseridos na sociedade. O que o Partido Comunista Chinês fez, de fato, foi manter uma ideologia ativa dentro do país para que o projeto comunista nunca fosse destruído. Figuras que lutaram na guerra contra o Japão se tornavam símbolos heroicos e havia ações para que cada adolescente e criança nunca esquecesse de tais fatos. O poder estava também destinado ao povo, convidado a participar ativamente, tanto em pequenas modificações de cada local quanto a se tornar parte do grupo militar, tornando-se um soldado do partido.

A crítica diante do comunismo se torna mais forte quando a China desenvolve o projeto da grande revolução cultural proletária. Foi neste período que o famoso livro vermelho de Mao foi lançado. Contendo canções, temas e bases que definiam quais procedimentos a população devia adotar. Em geral, qualquer cultura considerada burguesa deveria ser substituída pela cultura proletária, para que a população tivesse identificação imediata. Os totens da velha China são substituídos por Mao e a revolução vermelha.

A revolução cultural ainda é considerada um ponto difícil na trajetória de Mao na China. A imposição destruidora da velha China, destruindo qualquer conceito burguês, causou rupturas profundas entre a população. Na HQ fica evidente que havia um processo extremo de culpabilidade a qualquer chines que parecesse não seguir os preceitos comunista. Os autores expressam incômodo com tais fatos, principalmente porque a própria família de Kunwu foi vítima de denúncias e difamações. Mesmo um funcionário exemplar como seu pai, tornou-se alvo de investigações, produzidas a partir de denuncias da própria população.

Uma Vida Chinesa não intenta ser uma aula de história. Mas apresentar, sempre que possível, o testemunho de um personagem que viveu dentro da China durante tais transformações. As cenas contextualizadas são explicadas na própria narrativa, sendo possível compreender os fatos sem a necessidade de outros textos, ainda que para o enriquecimento da compreensão da época, seja favorável procurar outras fontes. Afinal, trata-se de um relato pessoal, uma visão única sobre um grande grupo heterogêneo e um grande momento do país.

Os traços de Kunwun realizados em nanquim são peculiares. A estética da obra segue o estilo tradicional das graphic novels, composta nas cores preto e branco. Porém, os traços possuem pequenas modificações de uma retratação tradicional, como se tudo fosse reinterpretado pelo autor para produzir ainda mais enfase. As expressões são bem delineadas e, muitas vezes, distorcidas, gerando personagens com forte expressão física.

Ao decidir produzir um relato confessional e pessoal de uma vivência, a obra evita a normatização histórica, sem medo de inserir um ponto de vista diante dos fatos observados. Um material rico que funciona como um bom exemplo de uma história diante da História e um ponto de partida para aqueles que desejam estudar o tema, em um formato sempre convidativo como os das HQs.

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