Resenha | Vagabundos no Espaço – Volume Um

O arquétipo do “vagabundo” permeia as mais diversas narrativas ao longo dos anos. Desde o Carlitos de Charlie Chaplin, o Recruta Zero de Mort Walker, o Zé Carioca de Walt Disney e muitos outros, o personagem malandro, esfarrapado, paradoxal e simultaneamente sorrateiro e inocente ocupa um importante lugar nas produções ficcionais. Ao gerar humor a partir do absurdo de sua atrapalhada condução de vida e tomada de decisões, tal tipo proporciona uma imediata relação de compreensão e aceitação.

O famoso Seu Madruga, de Don Ramón, é um exemplo claro desse tipo de personagem: defeituoso e inescapavelmente cativante. Mesmo sabendo dos defeitos que possui, é difícil não se afeiçoar por ele.

No primeiro volume de Vagabundos no Espaço, o quadrinista juiz-forano Raphael Salimena (autor de Linha do Trem) nos apresenta Zix, um atrapalhado vagabundo, envolvido do dia pra noite em um reality show espacial.

Tornando-se abruptamente Capitão de sua própria nave e enviado para os confins da galáxia, Zix se depara com conflitos que em muito fogem de sua competência. Junto de Sally, a Inteligência de bordo, Zix se vê às voltas com uma misteriosa falha nos sistemas de suporte da nave, em uma bem humorada sátira das aventuras do Astronauta da linha MSP. Inicialmente estranha, a narrativa rapidamente envolve o leitor em sua absurda trama.

A arte de Salimena aposta na expressividade de seus personagens, no inventivo design alienígena e na ambientação espacial bem extravagante, utilizando cores bem vivas e chamativas, de forma bem semelhante às lisérgicas paisagens e alienígenas de quadrinhos como Projeto Manhattan e Aâma.

O visual de Zix pode ser encarado tanto como uma homenagem ao cosmonauta de Maurício de Sousa quanto como sátira aos heróis espaciais norte-americanos, como Flash Gordon, só que com zero noção do que fazer. Seu rosto quadrado emula essa imponência tradicionalizada pelas produções norte-americanas, o que gera um interessante e cômico contraste, uma vez que Zix é completamente atrapalhado e ingenuamente idiota.

A história conta com interessantes viradas de roteiro, tornando a narrativa dinâmica e inventiva, apostando nas constantes mudanças de ambientação e de tom, sem perder o humor em momento algum, construindo personagens deliciosamente esquisitos.

Salimena conduz a trama equilibrando, com competente apuração textual, uma improvável mistura de sitcom com space opera, mesclando a agilidade e timming de diálogos cômicos e a dinâmica de interação entre personagens em um ambiente restrito, com as viagens e conflitos interestelares. O autor aborda, por trás da veia cômica, questionamentos interessantes sobre inteligência artificial, sociedade do espetáculo, civilizações hipertecnológicas e a pretensão do ser humano em se ver no controle de tudo e todos. Há, nas páginas do quadrinho, um ar de completo absurdo e nonsense que, de forma paradoxal, acaba por conferir coesão à narrativa ali proposta.

O autor termina esse primeiro volume deixando pontas soltas a serem fechadas posteriormente, partindo de um começo promissor e empolgante. Vagabundos no Espaço se mostra digno de figurar entre os mais interessantes quadrinhos brasileiros dos últimos tempos, fugindo da tradicional temática nacional em refletir sobre as mazelas do país, e apostando suas fichas no campo da ficção científica, desafiando fronteiras e expandindo as possibilidades para a produção quadrinistica brasileira.

Vagabundos no Espaço – Volume Um foi publicado pela Editora Draco, em capa cartão, e conta com 104 páginas excepcionalmente coloridas, em papel couché de 115g.

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