Resenha | Virgem Depois dos 30

Na Terra do Sol Nascente um em cada quatro homens solteiros com mais de trinta anos jamais teve relações carnais, sexuais, ou sejam há mais de dois milhões de virgens nesses moldes no Japão, e Virgem Depois dos 30 é um mangá documentário (um formato tradicional, mas que não é muito conhecido no Brasil), o estudo de Atsuhiko Nakamura acompanhado trabalho visual do mangaká Bargain Sakuraichi analisa a história de oito pessoas, a maioria anônima, em  historias pesadas , carregadas de uma realidade melancólica e digna de pena.

O trabalho editorial deste primeiro mangá da Editora Pipoca e Nanquim é bem bonito, apesar de ter capa cartão, o trabalho é bonito neste ponto, e é fácil ler o quadrinho aberto, ao contrário das primeiros versões de mangás publicados no Brasil na década passada. Esta versão possui uma capa retirável, e impresso nessa parte ha desenhos que remetem as historias que serão contadas nos textos do documentário, com referências ao inferno ocidental, a diabos e demônios japoneses também.

O começo do “drama”cita Assim Falou Zaratrusta, com as palavras de Friedrich Nietzsche Em alguns, a castidade é uma virtude, mas, em muitos outros, é quase um vício, e essa realmente é a síntese da maioria dos casos. O primeiro serve bem nesse exemplo, fala sobre o serviço de cuidado de idosos, onde a maioria dos celibatários trabalham. A revista não demora a mostrar a infantilização desses adultos e o quanto isso ocorre graças ao ato de serem excluídos de algo tão básico quanto a vazão ao tesão e a libido. Os homens pioram ao idealizar mulheres, acreditando que uma princesa de conto de fadas o aceitará com todos os defeitos que tem e com a total dificuldade de socializar.

A maneira como Nakamura apresenta os conceitos orientais pouco conhecidos impressiona por sua fluidez, a maioria desses virgens são chamados de solteiros parasitas, se aproveitam do amor incondicional de algum dos seus pais para que esses os sirvam, ou com dinheiro ou com cuidados básicos. Para contratantes é difícil empregar os virgens, no caso do primeiro, o sujeito tem problemas sérios com ortografia de palavras simples e com aprendizado,além de se enxergar  sempre a frente dos outros, é orgulhoso e humilha as pessoas sempre que pode, mesmo que não faça sentido.

Em comum, os homens estudados tem a questão de ter sofrido bullying quando novos. A maioria entra em modo de defesa, daí se origina suas capacidades de aprendizado falho. Mesmo os que tem ensino superior também são traumatizados com isso. Outro ponto comum é a rejeição das primeira mulheres que os mesmos flertaram. É comum também auto mutilação e até tentativas de suicídio, alguns se apegam a fantasias de mulheres que conhecem, outros em mulheres que não são de carne e osso, e outros tantos tem na religião um dos motivos para auto enganação sobre seu celibato.

Há também com esses virgens, a dificuldade de manter um emprego, boa parte deles vive de bicos, e tem sua vida social resumida a suas casas, pequenos cubículos onde destilam seu ódio na internet, em fóruns de extrema direita, que propagam xenofobia e um machismo exacerbado e injustificado, onde culpam as mulheres por não enxergar neles possíveis parceiros sexuais e para a vida. O gasto que eles fazem de seu tempo livre chega a assustar, e o gibi consegue equilibrar bem o didatismo com uma linguagem mais franca e direta.

Há fortes críticas aos celibatários que fazem parte da comunidade, até mais que aos incels, e mais assustador até do que os fanáticos que só pensam em mulheres animadas, são os que são fãs da idols, uma categoria que por si só é estranha, e explorada em diversas obras, como o longa animado Perfect Blue, de Satoshi Kon. Os otakus em estágios “mais avançados” sentem repulsa fisiológica a mulheres de verdade, chegam a vomitar se veem mulheres de perto, por conta de poros, suor, espinhas e imperfeições pequenas. Boa parte deles moram em quartos minúsculos, em um lugar onde outros otakus também residem, em pequenos cubos, trabalhando em sub empregos que só existem para sustentar seus vícios em animes ou nas tais cantoras.

O caso de Ichito Suzuka, um ator pornô cuja historia é muito trise resume bem os causos do estudo. Ele é o único cujo nome é dito sem pseudônimos, e sua jornada é deplorável. Há outras historias de gente sexualmente ativa, e até de pessoas que claramente mentem para si mesmos sobre sua sexualidade só para se sentir aceito, e é preciso ter paciência e atenção ao ler a revista, pois ela causa incômodo e possíveis gatilhos especialmente para quem tem depressão. É triste ver isso, e acompanhar a burocracia com que alguns se tratam, chegando ao cumulo de vários deles fazerem tabelas de respostas femininas no Excel, para não perderem o progresso que fazem, como se o flerte fosse um jogo.

Segundo Nakamura, Bargain só sabia da aparência de Miyata e do ator Suzuka, o resto, ele só leu o livro Virgens de Meia Idade (publicação antiga do próprio Nakamura, pela editora Ganesha), e tirou suas conclusões. O último capítulo mostra o autor indo atrás dos entrevistados, ou trabalhando junto com eles (em especial, com o primeiro), fato que já era suspeito de quem lê sua obra, dada a riqueza de detalhes apresentada. Virgem Depois dos 30 dá uma visibilidade a pessoas em uma situação tão grave, ao passo que destaca o quanto a cuidadoria de idosos é sucateada e manuseada por problemáticos e tarados que até assediam senhoras.

Muito se comenta que a editora Pipoca e Nanquim teve muita coragem de publicar esta obra, e de fato isso é muito verdade, pois o momento do Brasil evoca muito as questões dos Incel e outros celibatários e o mangá ainda foi lançado no mesmo ano do atentado de Suzano, então não teria momento mais oportuno para se abrir esse tipo de ferida, seja em qualquer configuração de sociedade, é preciso se refletir e discutir sobre isso, indiscutivelmente.

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