[Resenha] Wasteland Scumfucks – Terra do Demônio

Em paralelo aos lançamentos de obras internacionais como A Arte de Voar de Antonio Altarriba e Do Inferno de Alan Moore, exemplos dentre tantos outros bons lançamentos, a Editora Veneta também investe em autores nacionais ampliando o mercado editorial de quadrinhos no país. Autores como Marcelo D’ Salete, Juscelino NecoMarcello Quintanilha, L. M. Melite, entre outros, estão presentes no catálogo da editora, demonstrando que o Brasil também produz obras significativas.

Lançando mais uma obra nacional, Wasteland Scumfucks – Terra do Demônio é o segundo trabalho de Yuri Morais. A obra segue um formato de uma aventura seriada, ainda que pela composição dos traços e a quantidade de quadros em cada página se assemelhe as tradicionais páginas de tiras dominicais, um dia em que algumas tiras de destaque ganhavam uma história completa em mais quadros.

Na trama, GG é um jovem ex-escravo que escapou de um terrível campo de trabalho forçado. Sobrevivendo em um deserto conhecido como Terra do Demônio, o personagem tenta sobreviver ao lado de Z, um robô com problemas no circuito e uma elfa chamada Sérgio. A trama atravessa algumas referências pop, procurando subverter alguns personagens típicos de aventuras tradicionais.

O humor é a tônica da história. Até mesmo na caracterização básica das personagens é possível observar as referências a um caldo de estilos diferentes. A obra, porém, parece trafegar de um ponto a outro da ação apenas apoiada na construção de absurdos, explicitados tanto pelos personagens quanto em situações apresentadas. Em cena, os personagens são semelhantes entre si, compartilham o mesmo tipo de humor corrosivo e cáustico, perdendo um pouco de particularidades que poderiam ser melhores exploradas.

A trama é formalmente dividida em duas histórias mas fazem parte de uma mesma narrativa sequencial. Focado demais em situações de confronto e absurdo, o enredo permanece em segundo plano. A ideia de explorar um novo mundo colonizado e personagens marginais parece mais um pano de fundo para produzir os diálogos ácidos do que uma base que complementa-os. Bem como o surgimento de artefatos desse universo, como uma espada mágica na segunda história, entram em cena quase sem explicação. Mesmo que seja perceptível ao leitor que se trata de uma história seriada, com direito a gancho no final, evitar explicações iniciais de como funciona o mundo em que as personagens vivem retira parte da compreensão da obra. Como os personagens, os leitores são levados de ação a ação sem saber, ao certo, se há uma razão para tudo.

Ainda que uma análise crítica se paute a partir das referências de leitura, sendo assim possível de gerar contraponto entre críticos diversos, há outro aspecto que deve ser analisado além da composição da HQ. A diagramação das letras da edição poderia ser modificada em edições futuras. A escolha de uma fonte fina e de pouco corpo causam, em algumas páginas, dificuldade para ler. Na contracapa, por exemplo, em que a fonte está em um fundo vermelho, é necessário esforço para ler as informações. Um detalhe técnico que o leitor percebe quando há incomodo. Nesse caso, em certos momentos, a imersão narrativa se perdia para que se tentasse compreender as letras miúdas.

Wasteland Scumfucks – Terra do Demônio segue uma boa tônica humorada, ainda que calcada em excesso em absurdos sem equilíbrio. Sem definir uma tônica narrativa coerente e personagens com personalidades semelhantes, a história não emplaca neste início.

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