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Resenha | Wolverine - Origem

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Wolverine - Origem

Personagem carismático, popular e recorrente no universo Marvel, a origem de Wolverine sempre foi lacunar. Motivo pelo qual muitas teorias foram desenvolvidas pelos leitores e diversas possibilidades narrativas foram trabalhadas por roteiristas, inserindo novos elementos na trajetória elíptica da personagem.

Em 2001, o editor- chefe Joe Quesada colocou em pauta editorial uma trama que iluminasse parte da origem da personagem. Mesmo com parte da equipe criativa sendo contrária, alegando uma possível destruição da mítica de Logan, Quesada seguiu em frente com o projeto e convidou Paul Jenkings como roteirista principal, auxiliando-o ao lado de Bill Jemas. Composta por seis edições, a série foi a mais vendida do ano e, na época, foi publicada pela Panini Comics em três volumes em formato maior do que o americano. Recentemente, a série foi lançada dentro da coleção Graphic Novel da Salvat.

Dono de um fator de cura que lhe impossibilita o envelhecimento normal, Logan origina de uma época que remete ao século XIX. Origem é narrada pela jovem órfã Rose, uma estrangeira acolhida na masão da rica família Howllett para fazer companhia a James, o adolescente de saúde frágil, filho único após a trágica morte do irmão. Simultaneamente, a narrativa enfoca um dos trabalhadores locais, o caseiro Logan e seu filho, Cão.

Grande parte do sucesso da trama se deve a narrativa de Jenkins. A credibilidade com a qual compõe sua personagem central valida a história da família e do jovem adolescente. A representação remete a típicas personagens do romance do século XIX cuja riqueza proporciona um conforto favorável e uma aparente estabilidade, mesmo quando internamente os conflitos familiares são intensos. A discrepância entre as classes sociais é também parte do conflito entre gerações devido ao patriarca Howllett tratar seus funcionários como parte de uma classe inferior, enquanto John Howllett Jr. trata-os de maneira igualitária. A briga familiar intensifica a problemática entre Logan e os Howlett.

A intriga leva o leitor a crer que o pequeno Cão será o mutante Wolverine. A inversão acontece quando percebemos que, na verdade, James Howlett é nosso herói, fruto de uma relação incestuosa com o caseiro, cujos traços são idênticos ao personagem em sua maturidade. A maneira como o autor trabalha esta revelação gera impacto sem uma solução forçada devido a um conflito tradicional e presente em muitas outras obras.

O traço de Andy Kubert promove maior imersão pela composição diferente da tradicional. O lápis foi preservado e a coloração feita a partir deles. Um traço mais pitoresco que produz uma ambientação diferente, como se a linguagem dos quadrinhos se adaptasse ao século passado. Como a trama foi escrita após muitos anos de histórias sobre a personagem, algumas inferências são propositadamente colocadas na trama, como o fato da órfã Rose ser ruiva, uma justificativa para a futura paixão por Jean Grey, explorada aqui como um reflexo desse primeiro amor juvenil.

A edição da Salvat conta com um texto do próprio Jenkins explicando que o roteiro de seis edições foi desenvolvido por ele com mais ênfase até a terceira edição, com Quesada / Jemas assumindo o desfecho. Tal divisão é nítida na narrativa, e a partir do meio a história ganha mais ação perdendo parte do seu estilo para entregar aos leitores momentos mais tradicionais da personagem com sua personalidade irritadiça e a violência inerente, ainda que a trama podia muito bem ser executada sem isso. De qualquer maneira, o vilão Cão, irmão de Logan, retorna como um plano de vingança devido a sua derrocada. Um ato que não perde a força da história mas parece mais uma intriga para criar mais um personagem em seu universo. Recentemente, Cão reapareceu em Wolverine e os X-Men de Jason Aaron.

Definir origens, inserindo uma trajetória anteriormente lacunar sempre é difícil devido à possível não aceitação do público. Porém, a história desenvolve um período interessante da vida de Logan que não destrói sua mística mas fundamenta-a em um período anterior a sua violência, fazendo a transição do garoto franzino e doente para o Selvagem que conhecemos.

Thiago Augusto Corrêa

Apreciador de cinema, literatura, quadrinhos e música. Formado em Letras, escritor e metido a sabichão.
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