Crítica | Rambo II: A Missão

Pois bem. Em  Rambo Programado Para Matar, o veterano John Rambo era um homem atormentado pelos horrores que viveu no Vietnã que se rebelava contra uma o xerife preconceituoso de uma cidadezinha interiorana dos Estados Unidos. O filme baseado no livro de David Morrell era excelente em vários aspectos, carregava uma crítica à Guerra do Vietnã e ao tratamento dado aos seus ex combatentes. Porém, em uma virada inesperada, Rambo acabou adotado por Ronald Reagan e acabou se tornando um símbolo de seu período como presidente da nação mais bélica do planeta. O ex-boina verde passou a ser um símbolo do conservadorismo dos militantes do Partido Republicano.

O ano era 1985 e a Guerra Fria estava no fim. A União Soviética estava enfraquecida e os EUA se consolidando como potência mundial. Porém, havia a mancha da derrota da Guerra do Vietnã. É nessa esteira que o Coronel Trautman (vivido por Richard Crenna) tira Rambo da prisão para uma última missão: resgatar soldados americanos ainda feitos prisioneiros pelo exército vietnamita. Supervisionada pelo burocrata Marshall Murdock, a missão é praticamente suicida, mas os traumas de Rambo, a possibilidade de se livrar da pena a que fora condenado depois dos eventos do primeiro filme o fazem aceitar e uma espécie de revanche simbólica (talvez este o maior motivo) contra o Vietnã fazem Rambo aceitar a missão. O que sucede depois disso é uma colagem de cenas de ação inventivas e icônicas, além de algum drama e uma ou outra reviravolta .

Baseado em uma história de Kevin Jarre, o roteiro do filme foi escrito por James Cameron e Sylvester Stallone. Infelizmente, a diferença é gritante para o primeiro filme. Há uma indigência muito grande no script, reduzindo a complexidade do personagem e o tornando em uma unidimensional máquina de matar. Há uma clara xenofobia no texto, com os não americanos sendo tratados como sádicos, selvagens e inferiores. Fora que a ideia de prisioneiros de guerra sendo mantidos até 10 anos depois do fim do combate sem nenhum proposito maior por trás não faz o menor sentido. Resumindo em poucas palavras, o roteiro é apenas pretexto para mostrar Stallone destruindo tudo em sequências de ação muitíssimo bem orquestradas.

George Pan Cosmatos, que também dirigiu Stallone Cobra, conduz de forma primorosa algumas sequências de ação, com destaque especial para aquelas em que Rambo usa o arco e flecha e o helicóptero. Porém, a minha preferida é aquela que Rambo se camufla na floresta e vai abatendo o pelotão de soldados um a um das formas mais inventivas possíveis. A cena da lama é maravilhosa. Cosmatos até consegue extrair uma dinâmica interessante entre o ex boina verde e Co Bao, seu contato vietnamita. A moça passa longe de indefesa e salva John em alguns momentos, inclusive trazendo de volta um pouco da sua humanidade esquecida em grande parte do roteiro. São os melhores momentos dramáticos de Stallone no filme, visto que o ator desfila sua canastrice de forma espetacular na tela, enquanto Crenna (coronel Trautman) e Charles Napier (o burocrata Murdock) se dedicam basicamente a discutir e suar abundantemente durante quase todo o filme. Julia Nickson se vira bem enquanto está em cena e o eterno vilão Steven Berkoff faz aquilo sabe melhor: ser um odioso vilão sádico.

Quando esquecemos o caráter panfletário, Rambo II se mostra como um grande filme de ação e ótimo exemplar do cinema brucutu que tomou de assalto os anos 80. Porém, ao ligarmos o senso crítico e prestarmos atenção na história, a trama do filme acaba se tornando difícil de engolir. Sendo assim, é melhor desligar o senso crítico e apreciar todas as grandes sequências de ação do filme que ainda possui uma grandiosa trilha sonora do mestre Jerry Goldsmith.

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