Big Little Lies | Uma narrativa construída com música

A nova série da HBO, Big Little Lies, conseguiu notoriedade do público e crítica tanto pelo seu elenco, quanto narrativa e locações reais. mas mesmo assim ainda existe uma marca registrada que podemos perceber ao longo da minissérie que merece reconhecimento: sua música. A supervisora musical Sue Jacobs e o diretor Jean-Marc Vallée escolheram a dedo a trilha-sonora da série com a intenção de colocar em paralelo belas músicas com a ensolarada baia de Monterey, mesclada a sua sombria narrativa, que definitivamente mexe com o tom da série a todo momento (Sem contar que as crianças da série tem um gosto musical absurdo). Na última terça, o site Vulture conversou com Jacobs sobre como ela e sua equipe moldaram a tensão da identidade musical da série, porque a trilha sonora ressoa aos espectadores e a genialidade de Vallée.

Pergunta: Fale um pouco do processo criativo com Jean-Marc Vallée.

Resposta: Eu gosto de dizer que eu sou a Ginger Rogers e ele é o Fred Astaire. A primeira vez que trabalhamos juntos foi em Livre, e eu não o conhecia mesmo. Eu cheguei a assistir Crazy, e depois de ver eu sinceramente não entendi porque ele me queria como supervisora porque ele parecia saber entender mais do meu trabalho do que eu mesma. Ele é o tipo de diretor que realmente entende e sabe o que quer em termos de música e da colaboração dela para com o filme. Quando eu trabalhei com ele por um tempo, eu havia percebido que nossos gostos musicais são meio parecidos e nós conseguimos nos comunicar muito bem. Ele pode selecionar a música que for, certa vez ele me deu uma lista e eu falei ‘Não, eu usei essa em Trapaça e usei essa outra em O Lado Bom da Vida‘.

Ele sabe que ele não quer um compositor. Ele gosta de trabalhar comigo dessa forma, me jogar um monte de playlists e eu jogo outras de volta. Ele também sabe quando ele precisa de algo sério ou romântico, porque ele está contando a sua história através de música e controla a narrativa dessa forma. É uma troca incrível de colaboração, eu me sinto legitimamente apaixonada de poder trabalhar com ele e poder dar suporte a visão de alguém. Assim com o Pollock usava tinta, Jean-Marc usa música. Antes de começar as filmagem, ele pensa que personagens serão o catalizador daquela trilha. Em Big Little Lies, que não estava no roteiro, aquela garota sempre tem um ipod em mãos. Esse é um pequeno exemplo que você consegue ver em muitos dos trabalhos dele. É isso que ele usa, esse dispositivo para justificar a trilha. Muitos executivos falariam ‘você devia pegar um compositor’. Mas ele gosta de trabalhar desse jeito e eu também.

Pergunta: Poxa, parece que vocês tem um grande entendimento do trabalho de cada um.

Resposta: Nós realmente nos divertimos. O que eu aprendi quando eu comecei a trabalhar com ele é que você está sempre com o pé no chão e trabalhando com o seu orçamento. Um exemplo que posso falar é que no meio da produção eu estava mais ou menos assim ‘Ah não, ele escolheu essa música super cara do Elvis de abertura’, mas aí depois você percebe que é mais profundo que isso. Jean-Marc começou como DJ, e eu acho que você está vendo um artista combinar essas sensibilidades. Ele sempre soube desde o começo de Big Little Lies que ele não queria compositor. É engraçado.

Pergunta: Como você definiu a identidade musical da série, e como vocês trabalharam juntos pra criá-la?

Resposta: É tudo sobre tensão, tudo o que escolhemos na trilha é uma contrapartida quanto a isso. Big Little Lies é sombria e tem uma história muito pesada fazendo parte da trilha, apesar de que na superfície tudo pareça muito bonito. A maneira como a câmera se move e a maneira como a música se molda através dela é nada mais além de usar a própria música como recurso narrativo. É por isso que a Chloe (a menina com ipod) está sempre carregando aquelas músicas. O que eu faço é dar suporte ao pensamento do Marc através dessa trilha na história. É realmente usar a trilha como fonte de algo e que muitas vezes não é como ela é utilizada, e principalmente por isso a trilha deve estar chamando tanta atenção. Nós até recebemos uma oferta de lançar um disco com a trilha, que não é nada comum até mesmo em séries longas.

Pergunta: Porque você acha que a trilha ressoa tanto assim na audiência?

Resposta: É porque está conectando sentimentos ali em cada cena de maneira que chegue do outro lado. Eles estão sentindo aquela música através dos personagens. Em uma das cenas a personagem da Reese Witherspoon fala ‘Essa música é tão bonita’, e de repente as pessoas ouvem essa música de maneiras tão diferentes. É uma voz interna, sabe!?

Pergunta: Outra coisa que ficamos impressionados é com a sofisticação do gosto musical das crianças dessa série. Como foi decidido colocar David Bowie, Leon Bridges, e Alabama Shakes?

Resposta: Esses personagens estão ali como uma meio pra se chegar até a música. É assim que você tem que pensar sobre isso, aqui é um diretor que não quer usar trilha original.

Pergunta: Vocês tentaram identificar cada uma das personagens com um tipo de música diferente? A sensação que sentimos muitas vezes é essa.

Resposta: De certa maneira, sim. A personagem que o Marc mais se aproximou nesse sentido é a Jane (Shailene Woodley). Ela é a que passou por um trauma, e realmente conseguimos passar essa sensação pela trilha, que são músicas que ela está ouvindo. Usamos a September Song da Agnes Obel algumas vezes durantes os episódios.

Big Little Lies está no ar na HBO todo domingo as 22:00.