Matthew McConaughey negocia retorno a True Detective

Rust Cohle - destaque

De acordo com entrevista ao The Rich Eisen Show, Matthew McConaughey cogita um retorno ao elenco de True Detective em uma vindoura terceira temporada. Devido ao sucesso do primeiro ano da série, a recepção da notícia foi positiva.

Criado por Nic Pizzolatto, o seriado foi pensado primeiramente como uma antologia policial. Uma espécie de coletânea de contos sobre o gênero, com um argumento inédito temporada após temporada. Porém, a recepção mista do segundo ano da série provavelmente causou uma reflexão sobre seu futuro e seu formato.

A segunda temporada não foi um problema. Não se considerarmos a história de maneira isolada, como uma trama policial contemporânea e urbana sobre a corrupção. Se comparada com a primeira, a conclusão será desigual. Pizzollato utilizou em sua primeira produção para a HBO uma combinação fortuita do gênero policial: selecionou um crime transgressor que causa repulsa. Ambientou a trama em um local naturalmente místico. Deu margem aos crimes serem ligados a uma seita. Fundamentou um personagem elíptico, interpretado com esmero por McConaughey. E o estrago estava feito. Nada seria suficientemente bom para um segundo ano, ainda mais uma trama linear sobre corrupção. O chefão do canal pode ter assumido parte da culpa ao pressionar o autor por prazos – sem dúvida, o segundo seria melhor executado se tivesse um roteiro levemente mais apurado -, porém, de qualquer maneira, estaria à sombra de Rusty Cohle.

Retornar com este personagem, talvez um símbolo que se tornou maior que a primeira temporada por si só, é um processo tão perigoso quanto. A expectativa do público será comparada de qualquer maneira. E quando o ator afirma que voltaria somente com o roteiro certo, resta a dúvida: o que seria certo diante de uma primeira temporada que, como dito anteriormente, foi pontual ao trabalhar elementos da narrativa policial com extrema qualidade?

A vantagem de uma sequência remete ao cânone literário de autores que criaram um bom detetive e uma série de livros a partir de suas investigações. Além de Sherlock Holmes e Hercule Poirot, penso em exemplos contemporâneos: os detetives Kenzie e Gennaro de Denis Lehane; Matthew Scudder de Lawrence Block (recentemente incorporado por Liam Neeson em Caçada Mortal); Key Scarpetta de Patricia Cornwell; Espinosa de Luiz Alfredo Garcia-Roza e os exemplos se seguiriam por um longo tempo, não fosse a brevidade do texto.

Ao dar sequência narrativa a um personagem apresentado anteriormente, há a vantagem de que o leitor já conhece-o previamente, evitando o desperdício de fundamentar novamente a personalidade do detetive. Com isso, há um ganho narrativo no enredo, com mais espaço para o caso em questão e novos dramas propostos. Como Rusty Cohle é um bom personagem, composto de nuances internas e também um bom detetive, uma nova história envolvendo-o poderia se situar em qualquer espaço temporal. Talvez no início da carreira, no meio das investigações da primeira temporada, após o trauma do Rei de Amarelo, tentando retomar a vida e sendo convencido por algum amigo das antigas a reassumir um caso por ser “aquele que mais se aproximou do assassino”. As possibilidades são muitas e a tradição policial citada demonstra isto.

Estamos apenas no campo dos boatos, porém, se as informações forem fundamentadas, é necessário termos em mente que nenhuma história será igual à primeira. O impacto inicial, a dúvida quanto ao desfecho, tudo advoga em favor da primeira narrativa. Uma futura história não pode se apegar à intriga primordial, sob risco de fracassar. Mas o retorno da personagem seria positivo e, se bem composto, confirmaria o talento narrativo de Pizzolatto e assolaria de uma vez o conceito de antologia da série. Que seja! Desenvolvendo uma boa trama policial, coesa e interessante, ninguém se importaria com o conceito da antologia. Resta saber se o novo Rusty Cohle conseguirá superar o outro Rusty Cohle, desmistificando-o sem trair a personagem, e nem desagradar ao público.

Rust Cohle