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Review | 24 Horas: Viva Um Novo Dia - 9ª Temporada

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24-live-another-day-posterApós quatro anos em hiato, o herói de ação dos anos 2000 retorna para mais uma jornada contra o tempo. Diferentemente das oito temporadas anteriores, 24 Horas: Viva um Novo Dia desenvolve-se em apenas 12 horas. Uma meia temporada se compararmos o número tradicional de episódios de séries do fall season americano.

Lançada em novembro de 2001, 24 Horas foi uma das primeiras séries da retomada americana, surgida numa época em que a qualidade cinematográfica parecia suprimida e a televisão indicava um novo formato narrativo a ser explorado. A série potencializou uma trama de ação e trouxe como recurso inédito – de fato, pouco explorado em produções anteriores – uma história realizada em tempo real. Em um momento em que poucos personagens de ação se destacavam – o retorno dos grandes da década de 80 é posterior –, Jack Bauer, personificado por Kiefer Sutherland, tornou-se referência contemporânea do gênero. A série fundamental em seu lançamento entregou, nos anos seguintes, narrativas-limite com muita ação, ganchos e com o jogo político envolvendo nações mundiais. Mesmo com algumas temporadas oscilantes, chegou ao fim em 2010 com um favorável saldo positivo.

Os quatros anos de Jack Bauer distantes das telas foram tempo suficiente para que a maioria das séries iniciadas na retomada chegassem ao fim. Na segunda fronte de lançamentos, nenhuma série conseguiu superar em qualidade e audiência produções como 24 Horas, Lost e House M.D, entre outras que hoje figuram no coletivo cultural, em parte devido a uma alta demanda de séries produzidas, diferentemente de anos atrás. Canais públicos e pagos investem agressivamente em novos argumentos, uma gama favorável para o público mas que, em uma média geral, não se sustenta em qualidade. Grandes e poucas séries excelentes para diversas medianas.

O retorno de 24 Horas às telas representa um cansaço de novas produções que não atingem o sucesso esperado. Ciente de que parte do público sente-se saudoso por séries de sucesso, uma nova temporada foi encomendada e, talvez como na retomada, seja a pioneira em ter uma sobrevida. Atualmente há boatos de outras retornando após um suposto final. Uma nova temporada de Heroes, uma releitura de Lost com novos personagens no mesmo universo e até mesmo o grande David Lynch retornando a Twin Peaks para, 23 anos depois, produzir um desfecho para a história.

O novo ano de Jack Bauer traz elementos que consagraram a série: uma estrutura de diversas narrativas acontecendo simultaneamente com foco na investigação e na ação. A escolha de produzir apenas 12 episódios é eficiente e evita erros de composição, como visto em temporadas passadas, nas quais a trama principal finalizava horas antes do desfecho derradeiro, e ganchos difíceis eram apresentados para segurar os últimos acontecimentos. 12 horas possibilita uma concisão inédita e melhor apuro estrutural. Como é também característico da série, a trama é apresentada em partes, revelando-se maior do que o imaginado no decorrer da narrativa.

Desta vez, a história se passa em Londres. Uma pista informa o paradeiro de Jack Bauer ao governo americano, e cabe ao centro de comando da CIA na Inglaterra investigá-la. Aos que não se recordam da situação da personagem até aqui, na oitava temporada Jack foi acusado, mais uma vez, de traição pelos Estados Unidos e é também procurado pelos russos por atentado contra seus governantes. Foragido por quatro anos, o ex-agente volta aos radares do governo para passar uma informação vital ao presidente: em sua estadia em Londres, há planos para um atentado contra sua vida.

Se a trama sempre foi fundamentada pela ação, a política é o fio condutor para tal elemento. Dialogando com fatos contemporâneos, a história critica a intervenção americana e inglesa no Oriente Médio, principalmente pelo uso de drones não tripulados como vigilantes do céu da região. No dia da visita do presidente americano à Inglaterra para assinar um tratado que aumenta a frota de drones, um destes aviões é invadido por um sistema alheio em razão de uma brecha na segurança e abate um esquadrão americano. Cabe a Bauer informar o presidente do futuro atentado e investigar o ato de terrorismo.

Antigos personagens conhecidos do público também retornam nesta temporada. Braço direito de Jack em anos anteriores, Chloe O´Brian novamente é responsável pelo suporte tático a Jack. Julgada e condenada por facilitar a fuga do herói, O´Brian tornou-se uma ativista de uma organização informal que divulga documentos sigilosos, como uma espécie de Wikileaks. Também retornam à cena Jack Heller, secretário de segurança que estreou na quarta temporada e, nesta, é presidente dos Estados Unidos, e sua filha, Audrey Raines, antiga namorada de Bauer, torturada por três anos por chineses em temporadas passadas. Como novidade, a atriz Yvonne Strahovski interpreta uma agente de campo da CIA.

Pela primeira vez, há um personagem que faz contraponto balanceado com Jack Bauer. Kate Morgan não é a parceira de uma breve missão e que será subestimada e morta por um gancho dramático. Mas um personagem forte, com o mesmo pensamento racional e tático de Bauer. Uma contraparte feminina bem composta por Strahovski em sua terceira série consecutiva de sucesso. A dupla age em diversos momentos da temporada, e a agente passa credibilidade e carisma suficiente para se tornar um papel fixo em temporadas futuras.

A ação centra-se na investigação de Bauer e Morgan. O tom dramático, e mais realista, está situado na política, tanto na visão dos grandes países como na dos terroristas, personagens normalmente descartáveis para a história mas que nunca são delineados de maneira plana, justificando as intenções por trás de atos extremos. A atriz Michelle Fairley – também presente em Game of Thrones – interpreta uma extremista a favor do atentado contra o presidente. Suas motivações vão além de uma guerra contra um país opressor, representando o quanto a intervenção americana é nociva aos próprios cidadãos dos países invadidos. Além da presença da atriz, que realiza uma interpretação entre a tristeza da perda e uma voracidade vingativa, tem destaque também o personagem de Tate Donovan – também visto em Hostages – como Mark Boudreau, chefe de Gabinete da Casa Branca e o homem mais próximo do presidente, aquele que suja as mãos para que as do governante supremo permaneçam imaculadas.

Nestes doze episódios, a ação feita de maneira ininterrupta é executada muito bem na trama dividida entre a descoberta inicial do atentado, a revelação por trás de personagens com interesses escusos e o desfecho de Jack Bauer dentro de sua própria história. Pela primeira vez, a série realiza um salto temporal no último episódio, avançando 12 horas após o desfecho do dia-limite. Uma maneira de amarrar pontas e entregar ao público o final de diversas personagens. Sempre mantendo, de qualquer maneira, um provável gancho para futuras temporadas.

Viva um Novo Dia é um retorno ao início da revolução das séries americanas e, além da nostalgia, confirma que Jack Bauer é um dos personagens mais significativos da ação contemporânea.

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Thiago Augusto Corrêa

Apreciador de cinema, literatura, quadrinhos e música. Formado em Letras, escritor e metido a sabichão.
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