Review | Believe – 1ª Temporada

believe-posterBelieve é um seriado criado pelo vencedor do Oscar 2014, Alfonso Cuarón, junto a Mark Friedman e com direção executiva de J. J. Abrams. A trama acompanha Bo Adams (Johnny Sequoyah), uma menina com habilidades de difícil compreensão, entendimento e controle, como levitação, controle da natureza e premonição. Um grupo de pessoas interessadas nesses poderes persegue a menina, protegida até completar dez anos de idade. O único capaz de defendê-la é William Tate (Jake McLaughlin), um homem que está preso por um crime que não cometeu. Relutante, ele aceita o pedido dos que criaram a menina, para acompanhá-la e protegê-la dos que a caçam, contando com a ajuda do grupo liderado por Milton Winter (Delroy Lindo) e auxiliado por Channing (Jamie Chung).

No piloto, a câmera de Cuarón é muito diversa da costumeira produção de seriados televisivos, e a impressão de cinema na tela pequena é a sua melhor definição. A linguagem faz toda a diferença: não há muita preocupação em explicar todos os pormenores; a história começa a partir do mistério episódico; não há tantas restrições à violência; a fotografia é soturna; e a câmera objeta ângulos de difícil execução para os padrões do seu canal de exibição, a NBC. A trama contém muito de espionagem e o velho jogo de gato e rato, onde um grupo caça e o outro tenta proteger a pequena menina dos olhos.

A ligação entre Tate e Bo contém algo de misterioso até para os pares, e é muito curioso como ambos vão se lapidando. A garota, apesar da perseguição costumeira que sofre, se vê capaz de sonhar e de fantasiar como uma menina de sua idade, longe da ganância de “dominação global” de seus antagonistas. Até a puerilidade das motivações dos antagonistas é justificada, registrada, no início, através dos olhos da infante. No segundo episódio, Origins, a agente do FBI Elizabeth Ferrel (Trieste Kelly Dunn) é introduzida. A investigadora policial é encarregada no caso de “sequestro” e percebe que Bo é fruto de experimentos impostos pelas forças governamentais americanas. A personagem é inserida presenciando a ação de um dos outros experimentos paranormais em humanos. Um de seus superiores é Roman Skouras (Kyle MacLachlan), um dos elementos que tenta cooptar Bo – o que abre uma enorme gama de discussões a respeito do maniqueísmo presente nas ações dos opositores de Milton, inclusive sobre as intenções dele.

Com o desenrolar dos fatos, é evidenciado que a disputa entre Roman e Milton não é tão maniqueísta quanto o grupo de proteção quer demonstrar no começo. Os dois rivais sentam-se calmamente em um café e quase não fazem menção a sua rivalidade pessoal, somente discutem a importância da menina e a possível exploração de suas habilidades únicas. O idealismo de mudar o mundo era compartilhado por ambos quando ainda trabalhavam juntos no caso de Nina Adams (Ella Rae Peck), a ex-vidente que teria dado à luz a Bo e que, desde antes de sua morte – consequência do uso excessivo de seus poderes paranormais -, precisava deixar a herdeira aos cuidados de terceiros.

Os poderes de Bo se manifestam de modo parecido com o que ocorria com Nina, materializando-se de modo mais visível quando a menina está sob pressão ou sofrendo de ansiedade. Por isso o jogo de gato e rato a faz estar mais propensa em utilizar suas habilidades de modo pouco seguro – algo que claramente incomoda os dois lados interessados. O desenrolar da perseguição é prolongado demasiadamente, de modo a tornar algumas sequências um tanto enfadonho e desnecessário.

A Orchestra, organização encabeçada por Roman Skouras, acha-se no direito de reaver Bo, não por considerá-la um objeto de exploração, mas para tentar adequá-la, uma vez que foi o grupo que a ajudou a desenvolver seus poderes. Com o desenvolvimento da trama, Milton faz seu antigo parceiro perceber que não são a única organização com o intuito de capturar os indivíduos com habilidades sobre-humanas. O nível de paranoia dentro do grupo de Skouras aumenta de modo vertiginoso, fazendo com que o líder acredite que há sabotagem e vazamento de informações por parte de Zoe Boyle (Kerry Condon) para Winter.

Próximo do final, surge uma variação de Bo, Daniella Sullivan (Mia Vallet), uma versão mais velha e ressentida da menina que guarda consigo a vontade de destruir a criança, a Orchestra e tudo o que envolve os experimentos com os superdotados. A tentativa da perturbada mulher é apagar todo e qualquer rastro do que fizeram a ela, muito por causa de seu passado, que envolve o assassinato de seu irmão John em um evento acidental, demonstrando que seu destempero emocional é um fator perigoso para alguém desequilibrado emocionalmente possuir os poderes que as duas mulheres especiais carregam.

A ingenuidade de Daniella é equivalente a de sua contraparte juvenil, ainda que a mulher seja movida pelo ódio discriminado àqueles que a fizeram ser o que é. Sua sede por destruição faz com que Roman procure Milton para conseguir alcançar novamente a menina. Graças a informações vazadas pelo próprio mandante da Orchestra, Bo parte finalmente com Tate, que é a única pessoa em quem ela confia, retornando para aquele com quem tem laços sanguíneos. Se para Bo a confiança é que a move, Daniella relaciona sua mente e seus problemas à carência e até aos ciúmes de Bo, por esta ser a “preferida” de Skouras. Sua vontade de provar ser única torna-se uma obsessão. Uma das muitas mostras que ela faz de sua perturbada e torta noção da realidade torna-se mais flagrante diante da postura da menina, que tenciona ajudar a traumatizada antagonista motivada pelo contato com sua finada mãe.

O milagre que Bo Adams pratica envolve a motivação daqueles que a cercam. A inspiração de procurar o melhor dentro de si, apesar da premissa piegas analisada num primeiro momento, caracteriza-se por uma mensagem carregada de simbolismo, simples, mas, em momento algum, simplória. O pirotécnico embate final entre as duas criaturas poderosas carece de efeitos especiais mais aprimorados, fruto, claro, de um orçamento não tão pomposo quanto as de outras produções de Cuarón, no entanto condiz com a mensagem de renovação exposta através dos doze episódios da série. O preceito do seriado envolve um axioma muito otimista, utilizando-se da vitória sobre o lugar-comum e os obstáculos seculares como modo de lidar com a perda. O que Friedman e Cuarón entregam é uma produção de cunho emocional belo e fantasioso, que, apesar de todas as dificuldades, se mostra competente ao que propõe, ficando um pouquinho acima da linha de mediocridade.