Review | Brinquedos Que Marcam Época – 1ª Temporada

Em 2017, na Netflix surgiu um engraçado documentário sobre memorabilia, chamado Brinquedos Que Marcam Época em quatro partes, chamada originalmente Toy That Made Us. O formato dele é bastante curioso, girando em torno de 40 a 50 minutos, e sempre tem início com uma reconstituição dramatizada, mostrando como o tal brinquedo que é o tema do episódio foi criado.

O primeiro deles é sobre Star Wars, e mostra o pioneiro Jim Sweringen na reconstituição típica do programa. Este talvez seja o mais mágico dos inícios dos capítulos – e é logo no piloto – onde o designer de brinquedos vê modelos gigantes das naves nos estúdios onde se grava Uma Nova Esperança. A parceria que começa dele com George Lucas é interessante, já que a sextologia rendeu em torno de 7 bilhões de bilheteria, enquanto os brinquedos geraram o dobro do valor.

O documentário detalha bem a pré-venda de bonecos, que ainda não estavam prontos na estréia do filme em 1977, em bancas e lojas de brinquedos. Outra história curioso envolve o Boba Fett que soltava míssil, lançado depois da estreia de O Império Contra-Ataca, em uma promoção de Correios. Introduzido no Especial de Natal, ele era estiloso e deixava os colecionadores loucos por ter se tornado difícil adquiri-lo, e boa parte da mitologia em volta dele vem daí, ser um boneco raro. Lucas não quis dar entrevistas, daí o foco maior morar mesmo nos detalhes da Kenner, que foi adquirida pela Hasbro, e as dificuldades que a empresa teve no hiato entre trilogias e a perda da exclusividade de brinquedos, além de falar de como A Ameaça Fantasma fez os itens encalharem, em mais uma prova do quanto eram péssimas as prequels.

Depois de falar bastante sobre a Hasbro, a bola da vez na discussão é a Mattel, e o tema do segundo capítulo é a  princesa da empresa: Barbie. O começo mostra a parceria entre Ruth Randler e Jack Ryan, em um momento engraçado onde o homem mostra uma boneca nua, com mamilos, raspando essa parte do corpo para tornar o seu brinquedo modelo, que faria sucesso. O detalhe sobre como era difícil fazer brinquedos para meninas era interessante, já que enquanto meninos brincavam com objetos que estimulavam a imaginação, e meninas com papelão recordado. As crises de vendas da boneca são muito bem explicadas, em especial pelos problemas de representatividade e a perda de apelo entre as mais jovens com o decorrer do tempo.

O terceiro episódio explora o brinquedo que deu origem ao desenho, e pela primeira vez, com uma fórmula estranha, exibindo músculos, pernas torneadas e muita cor secundária. He-Man, segundo os próprios criadores dos bonecos era inspirado no bárbaro que Frank Frazetta desenhava em suas artes de Conan. Parte da riqueza do documentário passa por explorar os defeitos dos brinquedos, e os erros de escala no caso Masters of Universe se tornaram um charme, seja na porta do Castelo de Greyskull – que originalmente era não só cenário mas também a caixa dos bonecos, assim como o Tigre Pacato/Gato Guerreiro, tirado de outro brinquedo e repintado.

Se faltam documentários ou featurettes sobre He-Man, este episódio serve perfeitamente a este propósito, pois fala sobre os quadrinhos que vinham com os brinquedos e que são completamente diferentes das animações – aliás, os criadores detestavam os produtores do programa, e isso é reiterado várias vezes – pois anulou-se qualquer clima sombrio para mostrar um príncipe engraçado, repleto de personagens que serviam de alívio cômico e lições de moral.

He-Man fez sucesso entre outros fatores pelo tamanho de 14 cm dos bonecos, pois seus concorrentes tinham 10, entre eles, o objeto do último episódio. G.I. Joe começa em um estranho discurso do presidente dos EUA, Ronald Reagan, falando sobre os esforços de guerra do país. A Kenner massacrava a Mattel na época de Star Wars, e a empresa resolveu apostar no assunto popular do momento: guerra.

Aqui no Brasil os bonecos variavam de nome. A fase dos maiores, que usavam tecido na roupa eram chamados de Falcon, e os menores, Comandos Em Ação, mas em ambos havia uma variedade gigante, não só de soldados, mas também mergulhadores, cowboys, ninjas, enfermeiras. O termo action figure foi cunhado para os G.I. Joe, e faz mais sentido que as estátuas que decoram os quartos dos nerds atualmente.

A mensagem final de Brinquedos que Marcam Época é de que o colecionismo é dar substância e volume em algo que não existe na vida real, não é tão diferente de espectros religiosos, para muitos descrentes ao menos. Há um discurso bem emocionado de Sweringen no final do capítulo de Star Wars, onde ele diz que ele acha ter formado crianças que tornaram o mundo um lugar melhor, e isso é difícil de ser negado, pois seus brinquedos fizeram expandir a imaginação de muitas crianças, e isso não é pouca coisa.

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