Review | Cobra Kai – 1ª Temporada

O início de Cobra Kai, revival da cinessérie Karatê Kid, começa com a cena da luta final do filme clássico de 1984, com Johnny Lawrence vivido por um jovem William Zapka perdendo a final do campeonato de karatê para seu rival Daniel LaRusso, o Daniel-san. Logo depois, ele é mostrado de forma melancólica tendo que lidar com uma vida adulta fracassada, sem perspectiva de futuro e entregue ao alcoolismo. John se tornou um sujeito depressivo, e que só pratica a arte marcial que tanto amava quando necessário, basicamente quando o mesmo vê um caso de bullying, mostrando claramente que sua postura mudou, do primeiro filme para esse, ao menos em parte dela.

Enquanto curte sua fossa depressiva, Johnny assiste televisão e vê um dos comerciais de LaRusso, que agora tem uma concessionária de veículos. Em uma bebedeira, ele se envolve em um acidente com seu antigo carro, e obviamente que o destino leva o seu meio de transporte para a oficina do personagem de Ralph Macchio, fato que faz Johnny e Daniel se reencontrarem. A estrutura do primeiro episódio privilegia Johnny, enquanto o segundo começa com a mesma história, mas contada pelos olhos de Daniel. O seriado é complexo quando se exige isso dele, e mostra o quão complicada é a vida de seus personagens centrais, cada um com problemas familiares e pessoais pontuais.

A forma como Lawrence age lembra muito a do Sr. Miyagi, no sentido de surgir das sombras, como um defensor dos mais fracos em um momento e depois se tornar um sensei sem ter planejado isso. Ele resolve tentar reerguer a academia Cobra Kai, a seu modo, de maneira mais honesta do que tinha sido feito em Karatê Kid 3.

Concomitantemente a essa trajetória, também se mostra a geração posterior, com os filhos de cada um e um novo discípulo para Johnny, Miguel (Xolo Maridueña). Além disso, Lawrence tem sérios problemas para lidar com seu filho, o garoto problema Robby Keene (Tanner Buchanan), que aos poucos, começa a se relacionar com Samantha (Mary Mouser), filha de LaRusso. No começo, o arco com esses personagens é completamente desinteressante, mas a partir do momento em que Miguel reage ao bullying que vem sofrendo na escola, tudo passa a fazer um sentido maior.

A partir do momento em que o dojo Cobra Kai reabre, toda a postura de LaRusso também muda. É como se aquele lugar causasse nele uma espécie de necessidade de reviver os feitos do passado. Lawrence claramente não supera os hábitos antigos, e continua praticando uma espécie bullying com seus alunos. Sua falta de tato é mostrado no passado, quando ele não consegue lidar bem com a rejeição de sua ex em Karate Kid, assim como não supera a rejeição que ele sofreu de seu padrasto, que o tratava mal e fazia questão de humilhá-lo. O seriado dá motivos para ele agir dessa forma, mas está longe de tratá-lo como um pobre coitado.

A busca de Johnny pela redenção, desde o ressurgimento do Cobra Kai até a percepção de que xingar seus alunos não é o melhor método de aprendizagem é gradual. Ele claramente não teve uma figura de exemplo admirável como teve Daniel. Por sua vez, LaRusso ensina o filho de Lawrence com os mesmos métodos que o velho Miyagi lhe ensinava, fazendo ele limpar os carros que estão a frente da loja para lhe dar uma lição. Essas lições de humildade deveriam pavimentar o caminho dessa nova geração, mas tanto Robby quanto Miguel agem muito por impulso, fazendo com que a máxima de que estes são apenas garotos e que adolescentes sempre serão impulsivos é real, por mais que ouçam o que a geração anterior viveu, eles praticarão suas próprias versões de erros de conduta.

Em troca de se resolver as coisas do passado, os dois antigos rivais estão prestes a fazer as pazes, conversando bastante sobre as diferenças que tiveram quando eram mais novos e achando semelhanças na trajetória posterior ao primeiro filme de ambos, com a diferença obvia de que um teve sucesso e outro fracassou de maneira retumbante.

Para variar o décimo e derradeiro episódio acontece em um torneio infantil. Para delírio dos fãs de Karatê Kid, Miguel começa a batalha pelo torneio desferindo o golpe da garça em seu adversário primário, copiando a manobra de LaRusso, dando a ideia de que qualquer que for o movimento ou técnica não é exclusividade de pessoa ou mestre, e sim de quem estiver pronto para aprender. Nesse torneio ainda, há lições de moral, por parte do antigo campeão Xander Stone (Talin Chat), que usa sua influência para pedir que as pessoas sejam mais tolerantes. Isso é como uma piscadela dos roteiristas para o público, entendendo que apesar dos filmes base conterem alguns problemas de concepção, essa ainda é uma historia de inclusão.

Toda a carga dramática e o tom de revisionismo de Cobra Kai faz dela muito mais inteligente e bem resolvida que os capítulos anteriores de sua saga. A ideia de legado é muito bem exemplificada, principalmente por não usar os filmes da trilogia (ou quadrilogia se considerar o longa com Hillary Swank) como muleta emocional, ao contrário, sua riqueza está na evolução desses conceitos e não se valer deles para ser importante.

O final traz um misto de alívio e apreensão, com um destino até óbvio para o torneio, mas uma chama acesa para uma segunda temporada, já anunciada oficialmente, onde algumas das origens poderão ser resgatadas apesar da improbabilidade delas acontecerem segundo o decorrer da temporada inicial como um todo. Cobra Kai é poderosa por dar vazão a uma complexidade de personagem ainda não vista dentro da franquia Karatê Kid e por ainda conseguir ressignificar bem os signos antes postos, colocando eles em uma perspectiva não antes vista mas bem verossímil e condizente com a trajetória anterior de seus personagens, trazendo ainda novas cores e bandeiras, que devem mais uma vez sofrer mudanças na segunda temporada, emulando então a vida, que também é assim.

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