[Review] Crisis in Six Scenes

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Muitos cineastas de renome migraram para a televisão norte-americana nas últimas décadas quando esse meio passou a ser considerado tão ou mais inovador do que o cinema comercial. Com os novos sistemas de exibição e o boom dos portais de streaming, as formas de consumo de seriados de televisão se transformaram drasticamente, e foi nessa esteira de mercado que a Amazon, produtora de séries como Transparent, convidou o veterano cineasta Woody Allen a realizar sua primeira empreitada no formato.

Crisis in Six Scenes se passa nos anos 1960 e segue o casal Sidney (interpretado pelo próprio diretor) e Kay Munsinger (Elaine May), enfocando os conflitos e transformações em suas vidas ocasionados pela visita inesperada de Lenny (Miley Cyrus), uma militante revolucionária de esquerda em fuga da polícia. A série se divide em 6 episódios de cerca de 23 minutos. Ao longo da narrativa, fica claro o profundo desconhecimento de Allen com relação ao modelo seriado: podemos afirmar que ele não só não domina essa linguagem, mas que possivelmente não construiu o hábito de assistir a séries, tamanha a inadequação do cineasta ao meio.

Vemos um Woody Allen constrangido, de sequências despropositadamente longas, com piadas repetidas à exaustão (algumas delas claramente emprestadas dos seus filmes). O ritmo cômico, que o diretor domina tão bem no cinema, é aqui vacilante e inseguro e por vezes tem-se a impressão de estar diante de um sitcom envelhecido prematuramente, de um modelo de comédia situacional perdido nos anos 1950/60, com piadas sublinhadas ad infinitum e diálogos repetitivos.

Por outro lado, a estrutura dos episódios é extremamente frágil: não se trata de células narrativas coesas, mas de um longa-metragem que parece ter sido mal cortado em pedaços, fato bastante repetido (e com razão) pela crítica norte-americana no lançamento da obra. Se Allen tenta criar ganchos entre os episódios, eles são fracos e esquemáticos, de forma que o diretor fica perdido entre o formato seriado e o stand-alone (estrutura de muitos shows do passado, em que um episódio constitui uma unidade dramática fechada em si mesma), sem atender bem a nenhum deles.

O charme alleniano se mantém, aqui e ali, e para os fãs a série é capaz de prender o interesse, a despeito da questionável atuação de Cyrus como a militante arraigada que questiona os valores burgueses do casal. De fato, à parte o prazer sempre renovado de vermos Allen em cena ou algumas piadas acertadas (em especial nos episódios finais), Crisis in Six Scenes não se sustenta de forma alguma. Se o cineasta desejar retornar ao formato (o que parece improvável, a julgar por suas declarações com relação à experiência), vai precisar estudar melhor a linguagem televisiva contemporânea e (por que não?) tratá-la com um pouquinho mais de deferência.

Texto de autoria de Maria Caú.

  • léquinho

    Allen só ta fazendo bomba, puta que pariu