Review | Dragon Ball – Parte 1: O Arco de Goku

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Fruto da adaptação da obra-prima de Akira Toriyama, Dragon Ball começa inocente, exibindo uma terra distante, além do tempo, uma região afastada que não foi ainda explorada pelo homem ou pela civilização. Na parte oculta das montanhas, em meio a um vale, vive o pequeno Son Goku. Logo no início, o menininho se depara com um pequeno símio, uma referência óbvia a lenda que inspiraria o mangaká, cuja origem compreende até mesmo nome para o protagonista.

Os dias do rapaz ingênuo são preenchidos com os eventos mais básicos e comuns aos que vivem como sobreviventes, simplificado pela caça de animais enormes para seu alimento, além de passar grande parte de seu tempo desnudo. Logo a modernidade invade o seu habitat, com um carro que faz Goku achar que seria um monstro. Quem pilotava o automóvel era Bulma, a primeira garota que ele conhece.

O mundo dos dois personagens se entrelaçam de maneira amistosa, e o jovem leva a menina para almoçar consigo, onde Bulma encontra uma das esferas do dragão, que simboliza o espírito de seu avô, Son Gohan, já falecido. Aos poucos, a mulher conta o poder que os artefatos mágicos tem ao juntar as outras sete, liberando seu potencial de realização de desejo, segundo o “deus dragão”, mais tarde chamado de Shenlong. Apesar de toda a engenhosidade da precoce moça, Bulma não é a única que vai a busca das esferas, ainda no piloto, Rei Pilaf é introduzido, mostrado também na ânsia por mais poder.

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Bulma lança mão das cápsulas que guardam algumas de suas tecnologias, como armazenamento de veículos e até de moradia. A menina tem de ensinar as coisas mais básicas a Goku, como o conceito de tecnologia, eletricidade e higiene pessoal. A extrema amizade que brota entre os dois se exibe também no protagonismo compartilhado entre o casal. Os primeiros momentos servem entre outros fatores para mostra a extrema pureza de coração de Goku, que não tem qualquer maldade sexual em seu comportamento. O forte rapaz logo encontra uma velha tartaruga, que diz estar perdida. Ao ajudar a criatura, o rapaz consegue o favor do dono do animal, o Mestre Kame, em uma aparição bem curta, que dá a ela a Nuvem Voadora, um artefato que só funciona com os puros de coração, e que o faria ter o poder de se locomover por ar. Depois de uma das cenas de teor erótico cortadas – protagonizada por Bulma – o sexagenário homem entrega uma esfera que achou no fundo do mar há muito tempo.

A próxima parada é em uma vila, aterrorizada por um monstro metamorfo chamado Oolong, que rapta meninas bonitas da vila. Em troca de uma das esferas, Bulma promete que Goku venceria o tal monstro, após o menino apalpar algumas mulheres, a fim de descobrir a diferença entre os sexos. Travestido, o garotinho choca o inimigo, ao não segurar a vontade de urinar, fazendo isso de pé, como um rapazinho. Oolong tem seu segredo revelado pelo narrador, sendo na verdade um simpático porquinho – outra figura da lenda que inspirou Dragon Ball – que basicamente tem de sustentar as meninas que rapta. Após resolvido o imbróglio, o tarado suíno reúne ao grupo de aventureiros.

No deserto, o misterioso ladrão Yamcha atravessa o caminho dos guerreiros, também em busca das esferas do dragão. A adição dele serve de pretexto para a discussão da sexualidade dos desenhos, onde normalmente predominam aventuras solos de meninos, onde a presença feminina é uma afronta. O medo de Yamcha ligado ao belo sexo além de referenciar a um comportamento homo afetivo, também faz chacota com a óbvia condição de tantos outros produtos japoneses – e até ocidentais – feitos para o público masculino.

Curioso é notar que a maioria dos personagens importantes para o seriado ocorrem já nessa saga inicial, assim como os paradigmas já ficam claros, além da sensação de que o mundo é pequeno demais, já que quase todos os personagens periféricos são ligados em algum nível. A fetichização de Bulma, vestida como uma coelhinha da Playboy, as taras sexuais de Oolong, representando o início da sexualização via puberdade, o medo de relacionar-se com mulheres, por meio de Yamcha, além é claro dos personagens Rei Cutelo e Chichi, sua filha, que habitam o pé da montanha de fogo. Cutelo era parceiro do avô de Goku, e discípulo do dono da tartaruga, Mestre Kame. As relações com Son Gohan eram tão íntimas que o monarca promete ao menino a mão de sua filha, mesmo sem qualquer conversa anterior. Chichi é a única personagem que consegue subir na nuvem, além do próprio dono.

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Sem artefatos mágicos, o único que poderia apagar o eterno fogo seria o Mestre, com seu corpo esquálido e a promessa de um beijo de Bulma. Um arrombo de músculos faz Kame tornar-se poderosíssimo, ao ponto de em uma rajada acabar com o incêndio. A notabilidade da ironia de Toriyama é em montar um mentor diferentíssimo de outros idealizados anciãos, como Dohko (mestre Ancião dos Cinco Picos) e Yoda (de Star Wars). A sabedoria é a mesma, no entanto a imoralidade e decadência de espírito fazem do personagem um alvo carismático, que por sua vez, convida Goku pra ser seu aluno após a busca das sete esferas.

Com o artefato em mãos, Bulma vai em busca da última esfera, se valendo dos poderes de Oolong, para pagar a aposta com Kame, que se faz de mulher para entreter o poderoso guerreiro, em mais uma simbologia gay do texto de Akira.

Na última metade da micro-saga de Pilaf, há alguns elementos curiosos, como o vilão Chefe Coelho, que assim como Majin Boo, também transforma seus rivais em comida – em seu caso, cenouras. Os capangas Shu e Mai conseguem enfim cumprir a missão que o incompetente Yamcha fracassa, roubando as esferas de Goku e Bulma acirrando enfim a rivalidade entre os grupos distintos de aventureiros. É a insegurança e amor de Goku por seu avô que não permitiu que Pilaf tivesse acesso ao poder das dragon balls. Logo, o dito “marciano” age como o conquistador que acha ser, enviando um beijo a Bulma, na tentativa de fazer a menina apaixonar-se e se tornar sua rainha.

Pilaf não consegue fazer seu pedido, impedido pelo suíno transmorfo, que pede uma calcinha da Bulma. O evento é seguido da primeira transformação de Goku, que ao olhar a lua cheia, age como um licantropo, transformando em um animal gigante, simiesco, mais tarde alcunhado de Ozaru. Mesmo sem as esferas – com a pecha da carência de doze meses para realizar um novo pedido ao dragão –  os membros do grupo conseguem de certa forma atingir seus objetivos, Yamcha vence seu medo de mulheres e Bulma encontra enfim um namorado. Pual e Oolong acompanham o casal, que se despede do menininho, que já não tem mais seu rabo, mas tem o respeito dos seus, que preferem não revelar que seria ele o responsável pela morte do vovôzinho.

O próximo passo, seria a ida a Ilha de Kame. A história se bifurca, mostrando o quarteto sofrendo em plena floresta, após seu avião cair, enquanto Goku vai encontrar o mestre, e agir como um cafetão para o sábio homem, trazendo sempre uma mulher diferente. Em comum entre ambos, há a presença de um pequenino homem careca, que primeiro aterroriza a floresta e depois chega de bote a ilha, para pedir para ser treinado pelo idoso, ganhando seu passaporte de entrada na “academia” entregando-lhe sua coleção de revistas pornográficas.

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Logo os discípulos trazem Launch, uma mulher de dupla personalidade, que em momentos tranquilos, tem cabelos azuis e é extremamente dócil, mas que ao espirrar, vira hostil e tem cabelos loiros, violento o suficiente par atirar em todos. Lunch é uma péssima cozinheira, mas serve como bibelô, preenchendo alguma das fantasias do mestre, que em troca, faz um estranho treinamento com os garotos, tão cheia de eventos aparentemente esdrúxulos quanto visto com Senhor Miyagi em Karatê Kid.

A partir do décimo nono episódio, começa de fato o arco do 21º Torneio de Artes Marciais – ou Tenkaichi Budokai – que reuniria os maiores lutadores do mundo, que se enfrentariam em sistema de eliminatórias até o embate final, que reuniria os oito melhores. Goku, Kuririn e o Poderoso Yamcha – com um novo corte de cabelo – põe todo o seu potencial para fora. Entre as batalhas, destaca-se a superação de Kuririn, que derruba um de seus antigos colegas bullys da sua antiga escola Bruce Lee, mas Goku destaca ao antigo mongezinho budista, que não deve usar todo o seu potencial de luta. Os três passam as fases finais, observados ao longe por Kame, que mantém uma aura de mistério ao seu redor.

Todo o entusiasmo em volta do torneio é na verdade um engodo, uma armação do Mestrre para ensinar mais uma lição aos seus alunos, daí o ingresso no certame fingindo ser outra figura – Jackie Chun – que em sua primeira luta, vence Yamcha. Após uma série de lutas, Chun/Kame ainda tem tempo de ajudar Nam, o guerreiro que foi atrás do prêmio para comprar água ao seu povo que vive na seca. O ancião ajuda o homem, com uma cápsula onde ele poderia armazenas água e levar aos seus, em troca é claro de fingir ser o mestre, e provar aos seus discípulos que há pessoas cada vez mais fortes, pelo mundo e suas extensões.

Na luta final, Chun usa o estilo do grande mestre bêbado, popularizado por Jackie Chan no filme O Mestre Invencível (Jui Kuen), fugindo do estilo mais sério de luta comum aos filmes de Bruce Lee, referenciado com carinho por Toriyama em seu produto mais popular. No entanto, Goku se mostra mais habilidoso do que seu mestre achava, provando ter uma enorme resistência, fazendo Kame ter de agir com a mesma técnica que o fez derrotar Son Gohan.

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A intensa dor – unido a recuperação de seu rabo símio – faz com que o menino olhe para a lua cheia, que acabou de aparecer no céu, para então se transformar no monstro temido por Bulma, Yamcha e os outros. Jackie usa uma tática desesperada, e com um Kamehameha repleto de energia do lutador, derrubando o menino, que aparentemente estaria morto, claro, seria isso um engano, já que o velho homem destruiu a lua.

Ainda assim a luta não terminou, se estendendo por um bom período de tempo ainda, provando que Goku é uma lutador mui hábil, de fato, com potencial para tornar-se ainda melhor, especialmente depois dos dois anos junto ao Mestre. O espírito presente em Dragon Ball é completamente diverso do que seria nas suas continuações, e deveria, segundo o desejo de seu criador, terminar por este momento, com uma história curta, repleta de humor e de personagens carismáticos, que referenciam a religião budista e fazem paralelos com diversas minorias, normalmente perseguidas na tradição japonesa, ainda que seu caráter seja muito mais ligado a fazer troça do que provocar contestação ou discussão.

Leia: Parte 2: A Organização Red Ribbon | Parte 3: O Rei Demônio Piccolo Daimaoh.