Review | Dragon Ball – Parte 3: O Rei Demônio Piccolo Daimaoh

Após todo o ocorrido no arco Red Ribbon, a terceira parte de Dragon Ball finalmente começa, com aproximadamente 70 capítulos. Yamcha e Kuririn estão viajando com Bulma, Kame, Launch e a tartaruga, a fim de participar do torneio de artes marciais, em um avião, com o ancião se segurando para não fazer suas necessidades fisiológicas ali no assento. Já nesse início percebe-se o humor pastelão do programa, ainda muito presente. Goku vai nadando até o local das lutas, atravessando o oceano.

Essa parte é chamada Saga Tien Shinhan, por conta do adversário mais visto nesse período. Não demora para ele, Chaos e seu mestre Tsuru se apresentarem ao grupo de heróis, ainda sem o garoto com rabo de macaco. Quando Son Goku aparece, ele está com uma roupa parecida com a de um homem das cavernas. Também se nota seu crescimento.

Em uma discussão, Tenshin mostra que não tem piedade com seus adversários, ao contrário de Yamcha, que permite que o inimigo viva, e isso serve de parâmetro diferencial entre os dois, ao menos até esse momento. Entre os oito finalistas Kuririn, Jackie Chun (Kame disfarçado, obviamente), Yamcha, Goku, Tenshin e Chaos. Aparentemente, Chaos tem um desfalque psíquico, que o faz parecer alienado e de mentalidade lenta. Ele não tem muita noção estética – vive chamando Kuririn de careca e nanico, mesmo também sendo, o fato é que o personagem tem poderes telepáticos,  e consegue manipular os confrontos, para que Tenshin e Yamcha se enfrentem já na primeira luta, além de Chaos e Kuririn.

Chaos e Tenshin flutuam, técnica essa que os discípulos de Kame não dominam, e há algo bizarro na fisionomia do vilão, que simplesmente não fecha o terceiro olho ao dormir, ele aparentemente não possui pálpebras neste, e não se explica o motivo. Não demora para Kame perceber-se obsoleto, assumindo que a nova geração o superou e a partir dela, se mostram novas técnicas de luta, como o Taiyoken, que cega os oponentes, Shyoken que faz o lutador ter quatro braços, alem de Kikoho técnica suicida e mortal. As lutas passam a ser muito vagarosas, durando vários episódios. Entre um golpe e outro, Kame é desmascarado, mas não antes de tentar convencer Tenshin a mudar de lado, passando para o lado dos heróis. O maniqueísmo volta a atacar, mas é até comedido, considerando que o sonho do personagem é ser igual a Tao Paipai.

O último combate! Quem será o melhor lutador de artes marciais? tem um total de 24 minutos, contando abertura e encerramento, ele passa quase  inteiro só em introdução à final, começando de fato só aos 18/19 minutos de exibição, para pouco depois vir o encerramento. Curioso é que o juiz / narrador diz que as lutas de Tenshin e Goku normalmente tem brigas que duram em média pouco mais de 30 segundos, o que se torna irônico, dada a demora para as batalhas realmente ocorrerem.

Uma nova era de paz se estabeleceria após a luta que foi vencida por Tenshin (ainda que segundo o próprio, tenha sido por sorte). A dupla de antigos adversários se torna aliada dos heróis, graças a traição que fizeram a Tsuru — um revide, no caso, pois o mestre só pensava em vingar Tao Paipai e transformar seus seguidores em assassinos. Já aqui Launch se mostra apaixonada pelo guerreiro de três olhos. Mas o estado de paz é interrompido rapidamente, e aqui acontece a primeira tragédia com um dos personagens principais: Kuririn é misteriosamente assassinado por um monstro que busca as esferas do dragão e a lista dos lutadores do torneio.

O responsável é Piccolo Daimaoh, que segundo a lenda contada por Kame e Tenshin, é um demônio que assola a Terra há muito tempo, levando em conta que Toriyama e o povo japonês não encaram o diabo e demônios da mesma forma que a mitologia cristã encara, e como a maioria já sabe, em fases posteriores descobrimos que sua aparência não tinha relação com qualquer questão demoníaca, mas ao fato de ser um ser alienígena da raça Namekuseijin, tal qual Kami-Sama.

Kame conta alguns fatos do passado, quando ele e Tsuru lutaram juntos contra Daimaoh. Conta também de Mutaito, seu mestre que penou para prender Piccolo Daimaoh em um recipiente prisional, através da técnica Mafuba. Curiosamente essa é a última (e mais longa) saga de Dragon Ball clássico, e guarda muitas semelhanças com a mitologia a respeito de Majin Boo, também um vilão ancestral e enclausurado para não fazer mais mal aos seres comuns.

Nesse momento se percebe o quão mais grave o programa se tornou. A destruição mundial ainda não havia sido inaugurada, nem havia qualquer inimigo tão implacável e malvado – isso também se tornaria uma marca da saga mais à frente, em Dragon Ball Z. O humor todo é deixado de lado, e Dragon Ball se torna melancólico, tal qual sua nova abertura, ainda que obviamente seja otimista e o clima de aventura permaneça.

Para ainda manter algo engraçado, é acrescido um novo amigo a Goku, o corpulento espadachim Yajirobe, um garoto que parece ter fome eterna e que tem muitas semelhanças com Kuririn, no sentido de ser meio medroso. Nessa parte do anime, também há uma clara evolução de quadro nos personagens e isso é visto principalmente em Tenshin, que na busca que faz para tentar derrotar Piccolo, se arrepende diante de uma das suas vítimas do passado.

O traço do anime deixa de lado o caráter mais infantil tornando-se ligeiramente mais maduro, com os personagens sendo mais finos em sua compleição física, em especial Goku, que parece estar crescendo realmente e até emagrecendo. A primeira batalha que o personagem faz com Piccolo Daimaoh acontece logo depois que ele derrota Tamborim, assecla de Piccolo, e se mostra emocionante, pois mostra o herói passando por apuros reais. Ali já se vê a capacidade dele de recuperação — aparentemente a técnica do Zenkai já parecia existir na cabeça de Toriyama, antes mesmo de apresentar Vegeta.

No entanto, Piccolo continua praticando o mal, derrotando até o Mestre Kame, que perece ao tentar aprisioná-lo. A sequência é bastante emocionante, com Tenshin tendo de assistir a tudo atônito e quase inconsciente, graças a um remédio para dormir que lhe foi ministrado pelo velho. Chaos tenta impedir o vilão de fazer o pedido a Shenlong, sem êxito. Para terminar o infortúnio, ele assassina o dragão, fazendo com que as esferas sejam apenas pedras vazias.

Apesar de um pouco demorado em seu treinamento, Goku retorna como uma surpresa, para vilão e heróis, juntando-se a Tenshinhan no intuito de derrotar o diabo. Suas habilidades deixam o adversário confuso, que apesar de rejuvenescido pelo pedido das esferas, e consequentemente mais poderoso, o menino consegue ser páreo para ele. Goku se torna famoso, após a derrota de Daimaoh, mas para variar decide buscar novas aventuras. Apesar de aqui ele ser um pouco mais altruísta, a busca por esses novos desafios já se assemelha a uma nova faceta de Goki, muitas vezes procurando novas lutas, independente até mesmo do destino da Terra.

Dessa forma, Goku ruma a plataforma aérea onde enfrenta Popo, e tem muito trabalho para derrotá-lo nesse primeiro momento, mas logo aparece a pessoa que o rapaz procura. A condição de Kami-Sama, como contraparte de Piccolo é bastante singular e confusa, e logo é explicada. Kami se livra de sua maldade, e se torna Daimaoh, fugindo para o mundo, atormentando-o. Nesse momento, se percebe que Piccolo Jr. não seria filho de Daimaoh mas sim uma forma de sobreviver após ele desintegrar — uma vez que Jr. morrer, Kami também deixaria de existir. Depois que a figura divina restaura a vida de Shenlong, e os guerreiros mandam ressuscitar seus amigos, ocorrem mais seis episódios fillers, que mostram o treinamento com Popo, em prol do próximo torneio de artes marciais.

Tecnicamente, a fase comumente chamada de Saga Piccolo Jr. tem apenas quinze episódios, além dos fillers. O reencontro dos guerreiros é saudoso e engraçado, e todos se assustam com finalmente Goku surge crescido e adulto, contrariando uma das idéias originais de Toriyama, de que o protagonista continuaria criança para sempre. Mais tarde se explicaria que o método de crescimento de sua raça é diferente dos humanos comuns.

Não demora até o vilão aparecer. Essa versão é chamada de Ma Junior, nas primeira vezes em que aparecem.  A cena de fechamento também muda, com imagens dos lutadores mais velhos, com direito até a spoilers que mostram Goku e Chichi já casados. Um ciclo é fechado a partir desse instante, pois Kame não obriga mais seus discípulos a usar seus trajes alaranjados. No entanto, os três mandam fazer roupas iguais as que usavam quando mais jovens, honrando seu mestre.

Quando começam as fases eliminatórias, se vê Tao Paipai retornando como um cyborg, vencendo facilmente Chaos, e prometendo vingar-se de Tenshin e Goku. Lutam também Yajirobe, que usa máscara, uma mulher misteriosa (Chichi), e Ma Junior. As quartas de finais tem seus competidores mais óbvios ganhando, exceção do alivio cômico Gen, que venceu Yajirobe. Aqui, Bulma já está adulta, e revida os assédios de Kame, talvez em resposta as muitas críticas negativas que a história recebeu por representar um personagem cheio de taras, que se permitia inclusive dar em cima de menores de idade. As lutas não fogem do usual, e tem uma carga de emoção moderada, mas ainda dignas de nota, como a de Tenshin contra Goku, e Cheng (Kami-Sama disfarçado) contra Junior, terminando com um Mafuba que dá errado, aprisionando a alma de deus.

Piccolo e Goku se enfrentam, até o vilão revelar ser a reencarnação de Daimaoh, e além de mortal, a batalha tem a apresentação de novas técnicas, como quando o homem verde fica gigante, e para variar, se alonga demais até o desfecho da luta. De positivo, há a vontade de Kami-Sama em se entregar à morte, pedindo a Tenshinhan que o mate para acabar com Piccolo, logo depois do vilão verde acertar uma rajada que atravessa o peito de Goku, fato que torna bastante épica, relembrando que ali talvez o mundo estivesse prestes a acabar, com a derrota de seu maior protetor.

Se desenrola também o fato de que se Kami morresse, as esferas perderiam seu valor. Goku é convidado para ser o novo deus da Terra, claramente em uma referência à vontade que Toriyama tinha de não continuar a historia, mas obviamente que o programa continuou, assim como no mangá, mas aqui mudando de nome, ao contrário da revista, que continuou sendo chamada apenas Dragon Ball.

Os fillers que finalizam a serie mostram os detalhes dos preparativos do casamento entre Goku e Chichi. Chichi é extremamente barulhenta e fútil. Sua razão de existir é infantil, e nada na sua motivação é altruísta, mesmo quando ela se lamenta por Goku, é com medo de se tornar viúva. Nesse ínterim, o Rei Cutelo já tem a aparência que teria em Dragon Ball Z, sem a máscara/capacete que usava, agora de cara limpa, óculos e chifres. Nada de muito importante acontece aqui, há menção de mais um incêndio no castelo de Cutelo, um novo encontro com Pilaf e sua trupe, e claro, a preparação do casamento de Chichi e Goku.

Apesar desses episódios finais conter muitas acontecimentos desnecessárias e aborrecidos, diversos fatos fundamentais na série se deram nesse momento, como o fato de Kami ter selado o rabo de Goku para que não pudesse se transformar em macaco, pondo a lua de volta ao seu lugar de origem, além é claro de reunir algumas das lutas mais emocionantes de toda a jornada de Goku e seus amigos. Dragon Ball fecha muito mais parecido com sua fase vindoura, exceção é claro aos episódios de preenchimento e segue galgando novos degraus de violência e poder, até o seu fim, resultando em uma jornada carismática e extremamente divertida.

Leia: Parte 1: O Arco de Goku | Parte 2: A Organização Red Ribbon.

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