Review | Dragon Ball Z – A Saga de Freeza

O trigésimo sexto episódio de Dragon Ball Z marca o início da Saga Freeza. A Terra acaba de ser salva por Gohan, Kuririn e Goku. Os amigos chegam para recepcionar os guerreiros que sobraram, e nesse momento se percebe que a preocupação na família Son passa apenas por Chichi, sendo Goku um pai bastante irresponsável com seu filho, ao ponto de causar em sua esposa espécie para que ela nem ligue para ele que acabou de ressuscitar. Os corpos dos guerreiros Z são levados para câmaras criogênicas, como no final de Dragon Ball, no surgimento de Piccolo Daimaoh.

O senhor Kaioh ajuda os guerreiros a acharem o local onde os sobreviventes dos namekuseijins estão, um planeta distante da Terra. Kami-sama foi mandado a Terra para ser salvo da destruição do seu planeta, em mais  uma clara referência de Akira Toriyama ao Superman e Kripton – mais tarde, em um retcon, Kakaroto também seria lançado dessa forma, mostrando o quanto Toriyama foi influenciado pelos comics americanos. A partir desse momento, os heróis preparam um grupo ao outro planeta, com Gohan se oferecendo para ir, já que quer ressuscitar Piccolo, sua real figura paterna.

Nos fillers, Bulma viaja pelo espaço com roupa íntima o tempo inteiro, em uma clara apelação para os onanistas não desligarem a TV, enquanto há uma encheção de linguiça ligada ao treinamento dos guerreiros. Reza a lenda que essa seria a última saga do mangá, mas os fãs insistiram muito para que Toriyama continuasse, daí surgiu a saga dos androides. O visual de Freeza vem dos pesadelos do criador de DBZ, que sonhava com uma criatura monstruosa. A primeira vez que o vilão aparece é na superfície de Namekusei, com seus soldados leais Dodoria e Zarbon, e ele chega junto com os terráqueos e Vegeta.

Vegeta aliás tem uma rivalidade com um dos soldados de Freeza, chamado Kiwi, um sujeito que fica provocando o saiyajin a troco de nada. Percebendo uma possível traição, o imperador deixa claro sua suspeição sobre o príncipe dos Saiyajins, que ainda tem seu poder aumentado graças ao Zenkai, uma técnica de sua raça que aumenta demais a força desses seres após quase morrerem.

Alguns detalhes revelam um problema de continuidade tremendo no seriado, aqui se entende que o sangue dos habitantes de Namekusei é roxo e essa cor mudou com o tempo, já se mostrando verde e até vermelho em outras sagas. Outra questão curiosa, que revela ignorância, mas aí não sendo dos criadores do programa e sim dos personagens, é a destruição dos comunicadores, que serviam também como radar para a procura das esferas mágicas do dragão, em que Freeza e seu soldado assistem passivos os fracos habitantes de Nameki fazendo isso impunes.

Mesmo mais evoluídos que os humanos, o exército de Freeza demonstra que conseguem ser ludibriados facilmente, isso talvez resulte de uma característica que o autor incuba sobre a sua própria raça, capaz de se reinventar apesar de não ter um poder ou potencial grande o suficiente para enfrentar qualquer guerreiro intergalático. Se falta força ou poder, sobra engenhosidade e perspicácia.

Em Namekusei, Gohan e Kuririn observam silenciosamente os combates e se sentem inúteis, e impotentes frente aos vilões. Quando Dodoria agride os namekuseis, entre eles Dende, personagem que teria uma grande importância no futuro da saga. Acontecem muitas lutas nesse ínterim, Freeza verbaliza a Zarbon que teme a chegada do lendário Super Sayajin, achando q ele poderia ser Vegeta. É irônico que a destruição do planeta Vegeta ocorre por causa disso, e se não tivesse ocorrido, certamente Raditz não iria tão cedo ao encontro de Goku, tampouco o despertaria para um novo universo de lutadores e campeões poderosos.

A saga que já era divertida e com um bom ritmo, ganha força com a chegada das Forças Especiais Ginyu. Aqui há referências aos tokusatsus de equipes coloridas, que passavam seus dias fazendo coreografias, falas decoradas em uníssono, lutando contra vilões que soltavam faíscas. Gurdo é facilmente derrotado por Vegeta, que interrompe o combate de maneira brusca, mas ele esbarra em Rikum, o mais diferenciado guerreiro do quinteto. A luta é tão cômica que ele rasga as roubas ficando com a  sua bunda a mostra.

Aqui se repara em algo estranho, uma mostra de benevolência de Vegeta, pois de certa forma, por mais que o mesmo negue, ele defende o filho de Kakaroto e seu melhor amigo. Ao chegar, Goku entrega ao príncipe saiyajin uma semente dos deuses já que ele está quase morto retribuindo o bom favor prestado aos seus, de certa forma solidificando uma nova aliança entre eles.

A saga Freeza não é dita como a melhor à toa, pois ela não se resume a lutas contra o vilão que dá nome a tal parte, mas também nas batalhas contra capangas, e adversários que vão tendo o poder aumentado pouco a pouco, em uma escalada que faz com que a jornada seja acompanhada por um interesse genuíno pelo espectador.

Vegeta narra a lenda do Super Sayajin, mostrando ali um macaco gigante aloirado dentro desse conto, de certa forma falando do Gold Oozaru, que viria a aparecer em Dragon Ball GT, embora aqui seja só uma fantasia. As pessoas acreditam que Goku é o Super Sayajin, nome que dão a lenda do Sayajin Lendário, mesmo que até esse momento não houvesse de fato a transformação.

Há momentos graficamente fortes, com Freeza arrancando o braço de Neil na maior frieza e facilidade do universo, ainda que seja bem suavizado, se comparado com o mangá. Quando Goku tem seu corpo trocado com Ginyu, ele ao invés de lamentar o fato de poder até morrer, pensa primeiro nos seus aliados em Nameki – mostrando uma preocupação madura com Kuririn e seu filho – para depois, lembrar das broncas que Chichi poderia lhe dar. Esse formato de mostrar coisas graves e engraçadas em sequência se tornou uma marca do programa, ainda mais freqüente nessa versão Z.

Quando finalmente vencem Ginyu, Goku vai para uma câmara de recuperação, enquanto Vegeta dá uniformes das tropas Freeza para Kuririn e Gohan, tornando a aliança entre eles visualmente plena. O dragão de Nameki, Porunga, morre graças ao grande ancião, que aparentemente, faleceu por causas naturais – isso na verdade é diferente e melhor explicado no mangá, onde Kaioh explica que a morte do Patriarca foi natural, mas foi acelerada pelo stress causado pela invasão de Freeza, por isso, ele poderia voltar, nem que fosse para viver só mais um pequeno tempo.

Freeza começa a enfrentar o grupo de herói  sofrendo então sua primeira transformação, em uma cena de metamorfose bizarra, onde seu corpo estica muito. Seu objetivo em evoluir e involuir é controlar melhor seu poder, e, de certa forma, esconder dos adversários seu potencial de luta. Essa parte do anime contém fillers, como as cenas envolvendo o Rei Vegeta e sua morte, mas nada que cause tanto enfado e tédio quanto, por exemplo, os momentos em que Bulma fica sozinha.

Ao menos é nesse momento que Gohan dá mostras do que poderia se tornar, um exímio guerreiro saiyajin, inclusive usando a indumentária correspondente aos guerreiros de sua raça, claro, sem mostrar o que poderia e viria a se tornar na saga seguinte.

A terceira forma de Freeza referencia a Alien: O Oitavo Passageiro. Freeza não tem dificuldade nem contra o ressuscitado e bem mais forte Piccolo em sua quarta e final forma, muito menos contra Vegeta, que passa a batalha inteira se chamando de super saiyajin de maneira mentirosa. Freeza era claramente o homem mais poderoso do universo, e ele causa medo e receio não só nos personagens, mas também em seu público, seja se mostrando poderoso ou impiedoso, a exemplo disso quando mata o pequeno Dende, a troco de absolutamente nada. Tudo o que viria depois seria uma cópia desse arquétipo, mais estilosa talvez (em Cell principalmente) mas a essência é a mesma, no entanto, os produtores não souberam parar.

Pouco antes de sua morte, Vegeta diz acreditar de fato que Goku é o super saiyajin. Por mais que sempre fosse um personagem sabotado por Toriyama, ele se mostra aqui como um ser complexo. Ele prefere que seu rival sobreponha o exterminador de sua raça. Ao enfrentar Goku, o vilão diz que ele foi o único a machucá-lo, fora seus pais. Isso contradiz a fala do antagonista em O Renascimento de Freeza, de que jamais treinou e por isso não tinha desenvolvido todo seu poder. Pior é que esse argumento até casava antes com algumas das ideias , já que o antagonista não tinha noção ou controle real sobre seus poderes.

Próximo dos vinte/quinze episódios finais, acontecem eventos bizarros ocorrem, visando preencher tempo. Essa quantidade exorbitante de fillers matam um pouco do impacto da luta final, que só melhora a partir da morte de Kuririn. Munido de fúria, Goku  tem enfim uma nova transformação bem diferente do macaco gigante que virava no começo de Dragon Ball, onde fica com cabelos loiros, olhos azuis e muito mais poder, tal qual a lenda do super saiyajin. Ao menos na dublagem brasileira, não fica claro se essa seria a transformação do Lendário Super Saiyajin, que teria esse tema retomado no filme que introduz Broly ou não e essa é uma dúvida que até hoje não é muito bem explicada por grande parte do fandom.

Goku afirma que somente se transformou por conta do seu coração bondoso. Há uma contradição disso arcos depois, já que até os vilões, se tiverem poder suficiente, se transformarão em super saiyajin. No entanto, a pureza retornaria ao conceito, segundo o autor, sendo isso melhor discutido em Dragon Ball Super, quando os personagens se deparam com suas contra-partes de outras realidades.

Dragon Ball Z é conhecido pela enrolação e falta de dinamismo em suas lutas, e é aqui que isso se agrava pela primeira vez. Segundo os relatos de Freeza, Namekusei explodirá em 5 minutos, mas a temporada ainda dura ali mais de dez episódios, com 20 minutos corridos cada. Na luta final o traço do desenho muda um pouco. O design de Goku fica maior, mais bruto, em alguns momentos, até a imagem fica feia. Talvez a ideia fosse mostrar o personagem como algo mais pitoresco, mais brutal no sentido de selvageria, como se Goku fosse um predador.

Goku decide ficar em Nameki  mesmo com o planeta em colapso, não por querer se sacrificar a fim de fazer seus amigos sobreviverem e sim por vaidade. Não há motivo para ele lutar com Freeza já que estavam todos salvos. Os dois (em outra óbvia referencia temporal furada) minutos que sobrariam estavam lá só para provar quem era o mais forte. O desfecho é lento demais, há muita coisa que não existe no mangá, como quando Raditz, Nappa e Vegeta são humilhados por Freeza, de maneira extremamente gratuita, basicamente só para mostrar que Vegeta sabia que foi Freeza quem destruiu o seu planeta. Não há impacto, sequer na humilhação de Vegeta, ao contrário, só se força uma auto-humilhação do nobre, que já agia como um imbecil, ao falar que se Kakaroto e Freeza morressem, ele seria o ser mais poderoso do universo.

Os momentos derradeiros são longos também por conta da luta derradeira, tão extensa que faz perder o interesse do espectador. Torna-se enfadonho. Os instantes finais de Freeza então, são patéticos, ele é retalhado por Goku, sobra só metade de seu torso, e o herói da um pouco de sua energia para que ele possa se mexer, então o vilão decide flutuar, só com a metade que lhe resta, para ser um cotoco voador. Seu final é patético.

Após a batalha final há poucos momentos realmente dignos de nota, como Muri assumindo o papel de patriarca namekuseijin, e Gohan tentando segurar o ímpeto de Vegeta, lutando contra ele na Terra enquanto o planeta nameki perece. Também há o convite generoso de Bulma aos alienígenas e a Vegeta para morarem em sua casa, ainda que ela avise de modo engraçado ao saiyajin que não é para ele se apaixonar por ela. Há muitas piadas em relação a eles estarem juntos e possivelmente esse era o embrião do casamento que ocorreria no futuro.

Apesar de ter um final onde pouco acontece – e onde as esferas do dragão são usadas para reestabelecer o status quo – essa é a parte mais divertida do anime e do mangá, onde acontecem mais tragédias, onde menos se usa o clichê dos pedidos ex machina, mas ela, tal qual a saga Saiyajin, peca pelo excesso de preenchimentos, o que é uma pena. As melhores lutas envolvem Freeza, e é nessa saga que ainda há um espírito parecido com o caráter de Dragon Ball Clássico, onde obviamente há um senso de urgência maior e uma escala de poder crescente, não à toa o vilão escolhido para retornar em uma fase vindoura foi o que dá nome ao arco. Claramente DBZ poderia ter terminado aqui, onde a fórmula ainda não estava esgotada, mas ele prosseguiu, e prosseguiu para mais desventuras e mais tragédias.

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