Review | Dragon Ball Z – A Saga Majin Boo

A paz reina após sete anos passados da ameaça envolvendo o vilão Cell e do Torneio do Outro Mundo, a quarta saga grande de Dragon Ball Z começa na cidade  de Satan City, em homenagem ao homem que – para todos os efeitos – matou Cell. Gohan corta o céu com a nuvem voadora de seu pai, provavelmente para não rastrearem seu ki nesses tempos de bonança, enquanto se dirige à escola secundária Estrela Laranja.

O primeiro capítulo do garoto na escola não é exatamente um filler, mas os eventos são tão banais que parecem ser apenas preenchimento de tempo e espaço. O rapaz impede um assalto, transformado em super sayajin, e logo percebe que precisa usar uma identidade secreta se quiser fazer isso de novo, uma vez que quase foi pego pela raivosa e bonita Videl, sua colega de sala e filha de Mr. Satan, o falso vencedor da batalha que salvou o mundo. É curioso notar que ele, o real sujeito que derrotou Cell teria com a filha do outro uma família estabelecida.

Gohan é ingênuo, não percebe como deve esconder algumas informações, como a distancia de sua casa para a cidade, que daria de carro umas cinco horas. Toda essa seqüência é divertida e completamente descompromissada, o único evento realmente comprometedor são as suspeitas de Videl sobre quem é Gohan. Para manter sua identidade secreta, Gohan pede para Bulma uma roupa especial, e passa então a usar a alcunha de Grande Saiyaman – Saiyaman é uma referencia clara a tokusatsus  como Kamen Rider, Jaspion e Jiraya. Antes de receber o relógio que guarda as vestes (em uma referência clara ao herói velocista da DC), ele se encontra com Trunks, repetindo o dueto que teria no especial Guerreiros do Futuro, em que combateriam o pós-apocalipse provocado pelos androides. Na fazenda onde mora, é mostrado o irmão caçula de Gohan, uma cópia exata de Goku criança, Son Goten, ou seja, na batalha de Cell, Chichi já estava grávida. A dubladora  dele era o mesmo de Gohan criança na dublagem brasileira, Fátima Nova

Os fillers mostram Gohan vivendo entre encontros pré-romance com Videl e sua preocupação em não se revelar como homem poderoso exatamente para não alarmar as pessoas comuns. A abertura e boa parte dos números musicais muda, assim como boa parte das idéias primordiais de Dragon Ball. Gohan está se importando demais com sua identidade, tanto que cede a chantagem de Videl, para participar do Tenkaichi Budokai. Vegeta decide também ir ao torneio, e Goku, magicamente, decide se comunicar depois de tanto tempo, basicamente para lutar, não para ver seu filho primogênito Gohan, nem para ver seu caçula ainda não conhecido ou sua viúva, que aliás, mudou bastante de postura. Chichi se preocupa em parecer bonita para seu falecido esposo, ela deixou de ser tão severa com Gohan sobre os estudos, e fala para ele treinar a fim de conseguir o premio em dinheiro, que é alto, já que a família de Goku está quase sem dinheiro.

Enquanto se ocupa de falar com todos os personagens, Gohan passa pelo set do filme sobre o Grande Saiyaman, e até participa das gravações. Aqui quase nada acontece de relevante, exceto algumas semelhanças que o diretor de cinema tem com o comandante Red, da saga Red Ribbon. Logo, aparecem os outros personagens, Kuririn deixa seu cabelo crescer e treina com sua esposa 18; Piccolo está no lar de Kami-sama, ao lado de Popo e Dende.

Goten consegue facilmente se tornar um SSJ, e pelo visto já conseguia antes, e não faltam teorias para essa transformação ter ocorrido tão cedo, entre elas, a condição de Goku ter engravidado sua esposa quando já tinha um nível alto de poder. Trunks também se transforma, e Vegeta ao engravidar Bulma ainda não era um SSJ. Há um tempo demasiado dedicado a mostrar uma rivalidade entre Videl e Chichi, mostrando ambas como pessoas explosivas e muito parecidas, basicamente para mostrar que pai e filho tem gostos similares.

Antes do torneio, o narrador reconhece os guerreiros Z, e é um dos poucos que intuiu que não foi Satan que venceu  Cell, alias o comentário a respeito da idolatria ao ícone muda com tempo, mostrando-se como crítica agora, mas admirável e útil quando no final se precisa de energia da genki-dama dos moradores da Terra. No torneio infantil, Trunks mostra uma certa presunção com seus adversários, apesar de obviamente ser bem mais forte que os meninos, e quando o filho de Vegeta vence o torneio e disputa com Satan o público acha mesmo que Satan perdeu de propósito.

No meio do torneio, apareceram quatro personagens misteriosos, Yun e Spopovitch, além de Kaioshin e Kibito, duas duplas muito diferentes, com objetivos completamente opostos. A partir daí se revela o real vilão da saga, que é o Mago Babidi, que busca tirar do casulo o demônio Majin Boo, junto ao rei das trevas Dabura. A partir daí começa uma série de lutas em uma nave. Aqui, a enrolação acontece por muitos episódios, e as lutas são enfadonhas, inclusive a que poderia ser acirrada, entre Dabura e Gohan. Tudo isso só serve para Vegeta ser enfeitiçado pelo mago.

Vegeta demonstra que não mudou, ou ao menos não mudou muito, visto que seu desejo por vencer seu rival é maior até que manter seu orgulho, já que só consegue ultrapassar os poderes de Goku com auxílio de terceiros, ao menos é o que pensa. Como foi na saga Cell, ele não calcula direito o perigo, e após alguns longos episódios, decide por tentar se redimir, assumindo que permitiu Babidi dominar sua mente para aumentar seu poder e tencionando também matar o Majin Boo recém desperto, mas ele não consegue se manter assim por muito tempo, e cede ao sacrifício, mesmo quando alertado por  Piccolo de que se realmente morresse, dificilmente iria para o paraíso onde Goku estava, ou seja, não poderia dar vazão a sua revanche e provavelmente reencarnaria.

Muito se discute em torno da criação de Majin Boo, e materiais oficiais como as Daisenchus afirmam que o demônio não foi criado por Bibidi, e sim dominado por ele já que era um mago habilidoso e bem poderoso. Essa explicação faz mais sentido, uma vez que os magos, tanto pai quanto filho não são tão poderosos, e não conseguiriam trazer à vida uma criatura forte o bastante para se tornar um adversário tão poderoso.

Duas frentes de treinamento são estabelecidas, uma envolvendo Goten e Trunks que tem de aprender a fusão metamoru, e outra com Shin e Gohan. Enquanto isso, Goku vai distrair o vilão, mostrando seus poderes como super Saiyajin. Há momentos bizarros, como quando Majin Boo vira um vilão educativo, que mostra às crianças como escovar os dentes e usar o “troninho”. Esse é o mesmo que comete um genocídio. É nesse tempo que o Boo gordo se afeiçoa por Mister Satan e enfim o bufão ganha alguma importância de fato no anime. Nesse momento, ele se divide em dois e a parte má consome a outra, ocasionando uma transformação.

Há alguns destaques curiosos nessa parte, como o advento da Espada Z, que lembra a mesma que Trunks utiliza quando vem do futuro, mas que na verdade serve apenas de receptáculo para Dai Kaiohshin, um ser de quinze gerações atrásGohan tem seu último suspiro como protagonista da saga Dragon Ball em geral, quando termina seu treinamento com Dai Kaiohshin e atinge seu nível Místico, que é a manifestação de seu poder oculto. O filho mais velho de Goku desce à Terra e luta contra Boo, ao ponto de vence-lo facilmente, mas também caindo na tentativa dele de ludibria-lo. A absorção de Gotenks foi uma das manobras mais burras possíveis, uma vez que os meninos não precisavam se fundir de novo. Depois que Goku retorna a vida, há uma explicação sobre os brincos Potara, e o guerreiro também dá mole, assim que a fusão do Gotenks acaba, permitindo que Gohan Mistico seja absorvido, em mais um subestimar da inteligência do vilão.

Nesse ponto, são ditas as regras sobre a fusão Potara e isso seria revisto mais a frente, em Dragon Ball Super, a princípio pelo que se diz uma vez colocados os brincos não haveria como separar os fundidos, e Vegeta e Goku só se separaram por estarem no organismo de Boo, que poderia ser encarado como um anti Supremo Senhor Kaioh. A aparição de Tenshinhan, além de divertida, abriria possibilidade de fusão de Goku com ele, se não estivesse obviamente inconsciente, mas faz perguntar se Goku poderia se tornar um SSJ, e isso também é de certa forma respondido em Super.

Nesse ponto também há muita enrolação, e pior que a demora de Vegetto em finalizar Boo, é a busca de Dabura, Bulma, Chichi e Videl pelo paraíso atrás de Gohan, que está vivo. Vegetto entra no corpo de Boo, conseguindo libertar os amigos e até mesmo a versão bondosa do vilão. Depois de voltar a ser o Kid Boo, Kibitoshin (a fusão potara de Kaiohshin e Kibito) lembra de quando o demônio apareceu pela primeira vez, e absorveu dois supremos Kaiohs, o do norte, que era super forte, e o Sagrado, que era um homem gordo e bondoso. Após isso, Boo se tornou mais dócil e mais manipulável por Bibidi, o que ainda não explica o fato dele ter trancafiado a sua criatura no recipiente que seu filho tentou abrir no início desta saga.

Depois de muitas reviravoltas, e mudanças de cenário de luta, os terráqueos decidem usar as esferas para ressuscitar as pessoas boas mortas pelo demônio. Após a  Terra ser destruída, os saiyajins atraem Boo para o planeta supremo, Goku assume que poderia ter matado o Boo gordo, mas queria que a Terra se protegesse sozinha. Isso é uma demonstração de egoísmo tremenda, pois ele encara como algo comum deixar a Terra em apuros só para provar seu ponto.

Vegeta tem um plano de criar uma grande Genki Dama para derrotar o vilão. Goku decide pedir auxílio, e muitos personagens das fases clássicas aparecem, como os índios Bora e Apu e seu pai, o androide número 8, e até Launch, que estava sumida há muito, desde que largou a casa do Kame para ir morar com Tenshinhan, que inclusive tem bastante aparições em DBZ, mas não com ela como par, o que é no mínimo estranho, ou a demonstração clara de que eles não estão mais juntos.

Nos últimos episódios pouca ação ocorre, o que se vê é a tentativa dos guerreiros em se readaptar a vida comum, e claro, seguir treinando. Há alguns fillers bastante chatos, envolvendo o demônio tentando conviver com a questão monetária evidente. Nesses momentos o grande Saiyaman ataca, agora em dupla, com Gohan e Videl. Depois dos insuportáveis fillers mostrando a rotina dos heróis, passam-se dez anos nos últimos três capítulos. Trunks, já adulto vai visitar Goten, e ao não acha-lo, procura Gohan, que já está casado com Videl, e tem uma filha pequena chamada Pan. 

Além do torneio de artes marciais que apresenta o pequeno Oob, também se notam algumas coisas interessantes, como o envelhecimento da maioria dos humanos, e a mudança de cabelo de Goten, que mais velho se parece bem menos com seu pai do que quando era garoto. Isso provavelmente ocorreu por conta da reclamação dos fãs, de que os penteados eram parecidos demais, e também ocorreu para não haver confusão entre os personagens. Satan também está diferente, está calvo, e tem um acordo com Boo, para que ele ganhe de todos, e chegue a final entregando a luta para Satan.

O que se diz é que Goku e Bulma não se encontram há pelo menos 5 anos, ou seja, os amigos e rivais saiyajins Vegeta e Kakaroto não se enfrentam a um bom tempo, além disso, Pan possui 4 anos nesse momento, fato que faz contradizer alguns pontos em Dragon Ball Super. Independente dessa questão, é um absurdo Goku abandonar sua família e amigos para treinar com Oob. O final de DBZ pontua a obsessão de Goku/Kakaroto com lutas e com aumento dos seus níveis de poder, mostrando que os ciclos da vida do personagem giram em torno disso. Essa sem dúvida é a mais enfadonha e esticada das sagas originais e Toriyama parecia já estar cansado de escrever sobre Goku, mas ainda tinha alguns bons momentos, e por mais que tenha mais de noventa episódios é bem menos chato que Dragon Ball GT e seus filmes recentes.

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