[Review] Gilmore Girls: Um Ano Para Recordar

0
303

gilmore-girls-um-ano-para-recordar

Nos últimos anos, a televisão norte-americana vive o fenômeno da retomada de seriados já dados como encerrados, que ressurgem em geral em novas roupagens (episódios especiais, em menor número e divulgados previamente por meses a fio, contando com o apoio de uma grande base de fãs). Essa nova estratégia de produção apresenta resultados bastante distintos. Por um lado tem-se a oportunidade de resgatar clássicos cancelados prematuramente, como Twin Peaks, que tem nova temporada prevista para 2017 após um hiato de mais de 25 anos. Na outra ponta do espectro, observa-se a questionável sobrevida de seriados já mais que concluídos, que capitaliza em cima da paixão arraigada que eles despertam (caso de Arquivo X, cuja temporada de 2016 viveu exclusivamente de passado, sem apresentar nada de realmente novo e deixando dolorosamente evidente o quanto o conceito envelheceu nesse meio-tempo).

Netflix, que vem investindo já há algum tempo nesse tipo de iniciativa, tendo produzido uma nova temporada de Arrested Development em 2013, lançou recentemente uma mini-temporada da cultuada Gilmore Girls – não sem antes disponibilizar as sete originais completas em seu catálogo. O novo projeto, intitulado Gilmore Girls – Um Ano Para Recordar, é composto de quatro episódios de cerca de 90 minutos de duração, e retoma os personagens quase uma década à frente de onde os deixamos. A iniciativa parecia se pautar no desejo da criadora da série, Amy Sherman-Palladino, de dar uma conclusão mais a contento à sua criação, já que ela havia sido afastada como showrunner na última temporada do programa, considerada pela maioria dos fãs bastante fraca.

A originalidade da série, criada em 2000, consistia em mostrar uma dinâmica pouco usual entre uma mãe solteira (Lorelai, interpretada por Lauren Graham) e sua filha adolescente (Rory, Alexis Bledel), com apenas dezesseis anos de diferença entre elas, e trazia a novidade de ter um grande número de mulheres entre os personagens centrais, com os homens em geral gravitando  ao seu redor. Revendo o seriado, é fácil perceber, no entanto, que ele envelheceu mal – como poderia uma série considerada feminista na atualidade romantizar um pai ausente, ou apresentar como mocinhos os diversos namorados machistas de Rory? O ponto alto de Gilmore Girls nunca foi a sua narrativa, mas sim a estrutura dos seus diálogos, em especial aqueles entre mãe e filha, falas enormes e apressadas que relevam um universo compartilhado, pleno de referências culturais interessantes, desde grandes romances a programas de televisão de qualidade mais que duvidosa.

A versão de 2016 é bem-sucedida ao retomar essa qualidade na construção de diálogos desde a primeira sequência. A dinâmica entre mãe e filha se mantém como o ponto alto da série e os episódios funcionam bem no formato mais longo e sem pausas para comerciais. No entanto, o tratamento dado à retomada dos conflitos é muito inconsistente. Enquanto alguns personagens surgem em novas jornadas interessantes, como Rory (que vive as incertezas típicas da geração que tem 30 e poucos anos hoje em dia – com diversas piadas acertadas nesse sentido) e Emily, a avó, que precisa se reinventar depois de perder o marido, outros permanecem deixados de lado. Um exemplo é Lane, a melhor amiga de Rory, que na série original era o centro de um grande número de subtramas, e não tem espaço algum na nova versão. O mesmo acontece com Sookie, que aparece em apenas uma cena devido a Melissa McCarthy (protagonista do reboot de Caça-fantasmas) não ter conseguido conciliar as gravações com sua carreira mais que estabelecida nos blockbusters. Já a crise de Lorelai com a morte do pai e suas escolhas de vida, em especial seu relacionamento com Luke (Scott Patterson), se é construída de forma coerente, resolve-se de maneira bastante abrupta e pouco inventiva.

Algumas bem-vindas atualizações parecem ter sido incorporadas por conta das críticas que a série recebeu ao ser revista nos últimos anos, como o aparecimento de personagens gays (até então Stars Hollow era uma cidade sem qualquer representante da comunidade LGBT, fato que vira piada na nova temporada) e a representação do pai ausente, que na nova versão é problematizada mais a fundo.

No fim das contas, a nova temporada, recheada de participações especiais de personagens clássicos, que (outro acerto!) surgem em sua maioria de forma bastante orgânica, cumpre seu papel: dar aos fãs um final um pouco mais redondo para a história – supondo que não se capitalize em cima de uma nona temporada no futuro, o que, na era das retomadas infindáveis, é sempre possível.

Texto de autoria de Maria Caú.