Review | Gotham – 4ª Temporada

Três anos se passaram e o plano da Fox em adaptar uma “história do Batman” obteve algum êxito, já que Gotham é um sucesso de audiência. Após os acontecimentos bastante agressivos da terceira temporada de Gotham, a série retorna relembrando os fatos da temporada anterior. Apesar de gastar muito tempo nessa reconstituição, a questão da toxina/vírus é deixada de lado e a situação que mais comove a cidade é a liberação de Oswald Cobblepot (Robin Lord Taylor) como prefeito, com uma licença para alguns criminosos criarem problemas. Isso é tão esdrúxulo que o personagem de James Gordon (Ben Mckenzie) ignora as ordens da polícia e prende as pessoas assim mesmo.

Independente da péssima caracterização de outros personagens, o quarto ano começa bem, mostrando Jonathan Crane (David W. Thompson) atormentado, e agindo como o Espantalho. Seu visual de vilão é bem construído, assim como as alucinações de fobias dos que  sofrem com seu gás. Mas não demora, obviamente, a se dar atenção para mais personagens ressuscitados, artigo tão comum nos outros anos que nem causa mais estranhamento por parte do público.

Finalmente se dá alguma importância a Lucius Fox, ele ajuda Bruce, como foi em Batman Begins, com um traje diferenciado, embora esta versão de Chris Chalk não tenha um motivo tão bem construído quanto nos roteiros de David S. Goyer e Christopher Nolan, mas de todos os muitos problemas de Gotham, esse nem de longe é o pior. Além disso, há duas mudanças estranhas, com Hera sofrendo outra mutação, para ser feita por Peyton List. Ao menos, visualmente a transformação é legal, ela age como a versão do desenho Batman: a Série Animada, e domina os homens através  do aroma de suas plantas, mas os atos que pratica soam estranhos, graças a péssima construção do roteiro.

A outra mudança envolve Bruce, que passa a ser um vigilante. O Ra’s Al Ghul desta série é feito pelo doutor Bashir de Deep Space Nine, o ator Alexander Siddig, e seu desempenho é bom. A forma como o Poço de Lázaro é apresentado condiz bastante com os quadrinhos, visualmente o artefato é bastante belo mas a demonstração do primeiro uso feito pelo vilão é um bocado estranha e gratuita, assim como os desdobramentos de sua chegada a Gotham, seja na aproximação de Bruce, no seu affair com Barbara Kean (Erin Richards) e também na subtrama que o coloca como líder da Corte das Corujas e responsável pelo vírus que assolou a cidade no terceiro ano. Apesar do seriado ter 22 episódios no ano, o roteiro não explora bem nenhum desses elementos.

As cenas de ação envolvendo Mazous são risíveis, ele tentando impedir Selina de roubar – sem saber que é sua amiga/par que está ali – beira o patético, mas é nesse ponto que ator pode exercer um papel legal e parecido com suas contrapartes no audiovisual, em especial quando ele gasta em um leilão. Mas não demora a série retomar suas sub-tramas estranhas, com Gordon se reaproximando de Carmine Falcone (John Doman) para controlar Gotham, se interessando ainda por Sofia (Crystal Reed), que também vai para Gotham para ter um monte desventuras desnecessárias dramaticamente e que tem pouco ou nenhum peso no final do ano.

Robin Lord Taylor consegue extrapolar ainda mais o overacting e de modo cada vez mais insuportável. Antes ele era irritante, mas quando se enfurece com  o Charada a sua falta de inteligência salta aos olhos, fazendo-o parecer um adolescente. Diante disso, até a questão da licença para cometer crimes ser tão amplamente comentada por todos e ser uma regra legal e cedida de maneira oficial aos bandidos não é nem tão chocante, pois nada é real – aliás, ainda como político ele abre mão disso, traindo seus eleitores. Os exageros fazem lembrar em vários momentos a visão de Joel Schumacher sobre o Batman, em especial pelo tom esdrúxulo e gritante dos eventos que seguem nesse quarto ano.

Uma nova policial começa a ajudar James, a oficial Harper (Kelcy Griffin), já que Harvey Bullock (Donal Logue) fica de fora de boa parte do drama, mas o freak show continua imperando, com a (péssima) introdução de Solomon Grundy, na verdade uma versão ridícula sua, parecida com um bebê gigante do ressuscitado Butch (Drew Powell). Todo arco dele com o Charada e a questão do Narrows é pessimamente mal pensada e construída e não faz sentido, ainda mais no que toca Leslie Thompson, que parece estar ali unicamente por conta de um contrato longo com Morena Baccarin.

Jim volta a ter pulso firme contra a corrupção e mesmo que sua promoção a chefe de polícia só tenha ocorrido  por conta de subornos e armações de criminosos, ele resolve se insurgir contra o Pinguim, ainda que  esse confronto ocorra por conta da morte de um mafioso. O discurso inflamado dele com seus policiais transforma todos os agentes da lei que antes se sujavam em paladinos incorruptíveis,  uma solução sem sentido e maniqueísta para uma série que parece ter roteiristas mais insanos que seus personagens.

Gotham peca principalmente no modo de retratar as mulheres, sobretudo as que tem envolvimento amoroso com Gordon. O que Lee faz com Sofia não tem sentido, mesmo com a mudança radical que sua personagem tem, mas na hora de tornar complexa essa mudança, nada é feito. Além disso, parece existir uma tara dos roteiristas em transformar Barbara no auge do banditismo da cidade. Ela toma o poder da Liga das Sombras de maneira mais gratuita e faz insurgir um grupo de mulheres, as Irmãs das Sombras, mas mesmo isso é insuficiente na tentativa de equilibrar a balança, pois o seriado não consegue mostra-las em posição de poder de forma sem que seja de  maneira hiper-sexualizada.

Outro evento pouco desenvolvido nesta temporada é que o Pinguim sai da prisão e não se repercute o fato dele ter sido prefeito. Não há sucessão ou discussão mais abrangente sobre a política da cidade, ao invés disso se mostra só trivialidades e assassinatos cometidos pelo psicopata. A tentativa de adaptar Terra de Ninguém também soa gratuita, uma imitação barata de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Há até uma tentativa de remake da cena da delegacia em TDK. A cena do fim deste arco é ruim, cheia de exageros e não tem peso algum, vazios de significado, como é a Gotham pensada por Bruno Heller e seus roteiristas.

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