Review | Gotham (Episódio Piloto)

gotham-pilotoTreze anos depois do sucesso de Smallville, agora é a vez de outra cidade fictícia ser adaptada dos quadrinhos para a televisão. Mas dessa vez a aposta não é em um drama adolescente, e sim em uma abordagem mais séria: uma série policial com personagens conhecidos da DC Comics.

Produzida pela Fox e exibida no Brasil pela Warner, Gotham tem seu primeiro episódio exibido hoje (29/09) em terras tupiniquins. A diferença de apenas uma semana entre a exibição norte-americana e a nacional é um ponto positivo, pois quem não quer assistir a série por “outros meios” não precisa esperar tanto tempo entre um episódio e outro. Os leitores das HQs do Batman irão perceber a semelhança do episódio com a série em quadrinhos Gotham City Contra o Crime, aclamada pelo público e pela crítica.

A análise a seguir contém revelações sobre o enredo. Portanto, se você for “spoilerfóbico”, fique avisado!

A Gotham City dessa série difere um pouco da que nos foi apresentada na trilogia cinematográfica de Christopher Nolan em aspectos estéticos, como iluminação e arquitetura, entretanto, a cidade não deixa de ser um lugar violento e corrupto para se viver. Com ares de grande metrópole, o cenário se encaixa perfeitamente com o propósito da série. Fãs das revistas do Homem-Morcego perceberão bastante easter eggs durante o episódio, como um certo Ed Nygma, que não consegue fazer uma afirmação sem transformá-la em uma pergunta. Ou um comediante de stand up muito parecido com o que nos foi apresentado na graphic novel A Piada Mortal, de Alan Moore.

A cena inicial nos mostra uma adolescente interpretada por Camren Bicondova vagando pelos telhados da cidade enquanto comete pequenos furtos. A agilidade e furtividade da garota faz com que ela se locomova por entre escadas, telhados e paredes de forma graciosa, até chegar a um beco onde, usando o leite que acabou de roubar, alimenta um gato. Nesse mesmo beco, a garota – que nesse ponto, quem é leitor de quadrinhos já deve ter percebido se tratar de Selina Kyle, a Mulher-Gato – presencia uma cena terrível: um casal é assaltado e morto na frente de seu jovem filho.

Enquanto isso, somos apresentados ao Departamento de Polícia de Gotham City (DPGC), onde o detetive novato James Gordon (Ben Mckenzie, o Ryan da série The O.C.) resolve um conflito que poderia custar algumas vidas sem a sua intervenção. Seu parceiro, o veterano Harvey Bullock (Donal Logue) não aprecia sua interferência. Os dois são, então, chamados para um caso de homicídio, e chegam até o beco onde o casal foi morto e a criança está em estado de choque. Gordon conversa com o garoto e tenta confortá-lo, enquanto Bullock descobre que os pais assassinados do menino são Thomas e Marta Wayne, uma das famílias mais ricas da cidade.

Essa parte da trama reproduz muito fielmente o que os fãs estão acostumados a ver nos quadrinhos, inclusive explicando o que a família de ricaços estava fazendo num beco escuro após o cinema, tornando o fato mais verossímil do que em Batman Begins. A tragicidade do acontecimento e a frieza do crime impressiona até mesmo quem já conhece a história, e dá indícios do que podemos esperar durante a temporada.

O episódio se desenvolve em torno da investigação do caso. Jim Gordon promete ao jovem Bruce Wayne que encontrará o assassino de seus pais, e o caso vai se desenrolando enquanto nos apresenta algumas figuras conhecidas. A princípio isso pode parecer um recurso usado apenas para agradar fãs, mas cada personagem apresentado tem muito potencial para ser desenvolvido. Somos apresentados ao jovem Oswald Cobblepot (brilhantemente interpretado por Robin Lord Taylor), cujo jeito de andar e o nariz pontudo lhe garantiu o apelido de Pinguim, à garota Ivy Pepper, que vive em um lar destruído por um pai extremamente violento e demonstra carinho com as plantas, à Carmine Falcone, chefão da máfia e à Fish Mooney, chefe do crime interpretada por Jada Pinkett Smith e criada especialmente para a série.

Do lado dos “mocinhos”, temos alguns grandes conhecidos dos fãs de quadrinhos. Os policiais Crispus Allen e Renee Montoya, da Unidade de Crimes Especiais (U.C.E.) são importantes para a trama, pois são rivais de Harvey. Barbara Kean, noiva de Gordon também tem um papel importante e, aparentemente, teve um caso amoroso com Montoya no passado – nos quadrinhos, Renee Montoya foi uma das primeiras mulheres a se declarar gay nas histórias do Batman. Alfred Pennyworth, o mordomo dos Wayne, aparece aqui um pouco menos amoroso e mais rígido com seu patrão e protegido.

O episódio termina com Jim Gordon entendendo que, para sobreviver em Gotham City, terá que reverter o jogo de corrupção no qual a cidade se encontra. Mesmo Bullock é apresentado como alguém que prefere se deixar levar pelo crime do que lutar em uma guerra perdida. Desde já fica aparente que Jim Gordon é o protagonista e não Bruce Wayne, sendo essa mais uma diferença entre essa série e Smallville. Sua caracterização está excelente, e difere do apresentado em Batman Begins não apenas por ser mais jovem, mas também mais decidido. Mesmo sabendo que Bullock não o quer como parceiro, ou que o DPGC está envolvido com a máfia, Jim se mantém firme em lutar contra a corrupção de sua cidade.

Julgar uma série pelo episódio piloto pode ser um tiro no escuro. Mas se todo potencial apresentado nesse capítulo for explorado, Gotham tem chance de ser a melhor série já produzida sobre personagens da DC Comics.