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Review | Jeffrey Epstein: Poder e Perversão

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Primeiro trabalho de Lisa Bryant na direção, após produzir nos últimos anos outras séries envolvendo crimes contra as mulheres, Jefrrey Epstein: Poder e Perversão se baseia no livro Filthy Rich: The Shocking True Story of Jeffrey Epstein escrito em 2017 em parceira por dois autores de narrativas policiais: James Patterson e John Connolly. Um livro investigativo que pesquisou a fundo a infame trajetória do financista destacado em círculos sociais de alta elite e responsável por uma série de abusos contra mulheres.

Desde o lançamento de Making a Murder em 2015, a Netflix desenvolve documentários originais em dois formatos: em longa metragem e seriados. Os últimos são explorados em demasia, com excesso de ganchos e simulações de cenas reais que refletem outros canais documentais, como o Discovery, em seu estilo narrativo. Pela quantidade as vezes exagerada de episódios para um único tema, a qualidade narrativa se reduz drasticamente ainda que os temas abordados sejam sempre interessantes. Dessa forma, a informação apresentada conta mais do que uma narrativa com maior qualidade autoral.

Sob esse aspecto, a série sobre Epstein é eficiente. Apresentada em quatro episódios, a narrativa está centralizada em dois eixos: apresenta sua figura para os desconhecidos e apresentar depoimentos de sobreviventes do assédio sofrido. Aprendendo com o alongamento de séries documentais, da qual Making a Murder é o maior exemplo, os quatro episódios abarcam os fatos em continuidade bem como analisam momentos específicos.

A carreira criminal do personagem central teve início em meados do século XXI, mas apenas a partir de investigações realizadas em Nova York no período inicial do movimento Me Too a  vida de mistérios vivida de maneira exorbitante veio à tona. Como um abusador, Epstein utilizava de seu dinheiro e influência como parte de seu disfarce. Durante sua vida utilizou o dinheiro como consagração para suas perversões. Conforme adquiria poder financeiro, conquistava maior influência e, como o documentário aponta, apresentava seu estilo de vida para outros grandes poderosos.

O documentário foi produzido com um enfoque informativo, embora se abstenha de polêmicas maiores. Pouco se menciona sobre o conteúdo dos processos contra Epstein e sobre as influências que possuía, ainda que as fotos retiradas de diversos eventos sociais demonstre ligações com políticos e famosos em geral. Na verdade, a narrativa escolhe alvos específicos de seu círculo de amigos como o príncipe Andrew, visto na ilha particular de Jefrrey por uma testemunha ocular e presente em uma fotografia ao lado de uma menor, uma das vítimas de abuso de Epstein. Outras figuras como Donald Trump e Bill Clinton são apenas mencionadas para demonstrar sua influência.

Além de um abusador sistêmico, o biografado era um homem calculista, ciente de que seu estilo de vida compartilhado com outros parceiros da elite era uma ação ilegal diante da lei. Durante as investigações, a polícia descobriu um sistema de vigilância em sua casa que gravava toda visita recebida. A informação é relevante para compreender que Epstein possuía influência ativa sobre poderosos extraindo vantagens desse fato. Talvez pelos casos serem recentes, a produção do documentário tenha esbarrado em investigações ativas. Ou essa mesma influência serviu para evitar se aprofundar sobre outros poderosos que utilizaram sua influência para expor o caso sem exporem a si mesmo.

Por ser calcado como um documentário informativo, falta maior apresentação de outros profissionais capazes de relatar sobre o caso. Como uma narrativa criminal documental padrão, o enfoque é apenas em Epstein e suas vítimas, sem nenhuma abordagem na criminologia ou no perfil psicológico de um abusador. Visões que enriqueceriam o documentário. Sob esse aspecto, a narrativa das vítimas se assemelha com a composição de Deixando Neverland, documentário feito pela HBO sobre os abusos de Michael Jackson. A consagração do poder e a fama produz uma ilusão brilhante que atrai pessoas vulneráveis. Em ambos os documentários, percebe-se como abusadores trabalham psicologicamente sua vítimas, encantando-as para, em certo nível, justificarem sobre o abuso quando denunciado.

O caso de Epstein serve de maneira dual para a sociedade. Inicialmente demonstra que os poderosos ainda estão diante da lei, ainda que fique explícito como a lei não é funcional para todos. As estruturas de poder vivem um embate entre aqueles que acreditam em sua transparência em contraposição aqueles que usam a lei para se safar do crime. Ao mesmo tempo, o documentário ilumina o peso do abuso com as vítimas se transformando a partir deles. Ao reconhecer o abuso e procurar justiça, nasce parcialmente a superação pessoal diante do trauma.

A série não causa nenhum arroubo narrativo e embora não apresente nenhuma informação nova do caso é relevante como parâmetro de que a funcionalidade da justiça ainda se mantém mesmo com as estruturas de poder que tendem a distorcê-la.

Thiago Augusto Corrêa

Apreciador de cinema, literatura, quadrinhos e música. Formado em Letras, escritor e metido a sabichão.
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