Review | Luke Cage – 1ª Temporada

Situado no Harlem, Luke Cage, em sua primeira temporada representa um outro ângulo da parte urbana do universo audiovisual da Marvel Comics, ainda que tenha muitos paralelos com o que já foi visto nas séries do Demolidor e Jessica Jones. Desde o começo, Luke Cage (Mike Colter) é mostrado como um homem humilde, que ganha a vida lavando pratos e trabalhando como subalterno na barbearia de Henry ‘Pop’ Hunter (Frankie Faison). Ele se esconde atrás da aparente normalidade, mas guarda características do chamado exército de um homem só.

A rotina de Luke é a de um homem que tem serviço duplo, um como homem comum que tenta viver seus dias e outra como vigilante, que aos poucos começa a agir mais e mais graças as ações criminosas do bandido Cornell Stokes (Mahershala Ali), apelidado originalmente de Cottonmouth (ou Boca de Algodão, na tradução brasileira).

Cornell é influente na comunidade, mas essa face dele é claramente um despiste para suas ações criminosas, semelhante e muito com o que acontece na máfia ítalo-americana que se instalou em Nova York. Paralelo a isso, Luke também presta serviço a um lugar que serve de fachada para os negócios do vilão, e lá que ele conhece Misty Knight (Simone Missick), uma mulher que depois se revela como policial.

Cage recebe oferta para se tornar segurança do restaurante asiático que salvou mas ele recusa. Esse aliás é só mais um dos estereótipos evocados e desconstruídos pelo showrunner Cheo Hodari Coker e sua equipe de roteiristas. Luke claramente não quer ser mais o leão de chácara bombado. Em outros momentos ocorrem outras desconstruções de arquétipos, como quando Misty tenta se enturmar com os jovens jogando basquete, ou com acréscimo de Rosario Dawson na série onde seu personagem, a  Enfermeira Claire começa sendo assaltada assim que retorna ao Harlem, para logo depois ela mudar o paradigma de moça indefesa revidando ao bandido a violência sofrida. A todo momento a narrativa tenta afeiçoar público e personagens, normalmente de modo bastante lento.

A realidade é que apesar do bom começo, o seriado não mantém seu folego. A fórmula se desgasta rápido, e mesmo as coisas que antes funcionavam passam a perder força na metade final. Os dramas se tornam enfadonhos, e o bom vilão que Cornell se tornou é deixado de lado para a entrada de um antagonista não tão carismático quanto o anterior. Cottonmouth tem ligação no passado com Bob, ele tem realmente uma motivação para invadir o cotidiano de Luke, já o outro não, é apenas um personagem caricato, que parece ter sido retirado de um filme de ação genérico dos anos oitenta, o que é uma pena, pois tanto o ator Erik LaRay Harvey quanto seu personagem Kid Cascavel (no original era Willis ‘Diamondback’ Stryker) tinham potencial para desenvolver ainda mais seus dramas.

A parte do passado do vigilante é bem mostrada no início, na cadeia e onde sofre os experimentos que lhe deram as habilidades que possui. Lá, quando ainda era chamado de Carl Lucas ele tinha um visual como a das fases clássicas da sua revista, com cabelo black power e com uma tiara metálica em alguns momentos. O problema é que a tentativa de fazer ele se reabilitar, remontando o momento em que ele ganhou os poderes é bastante fraca e feita de uma maneira estranha. A série recorre a saídas fáceis para resolver os problemas da segunda metade da temporada.

A abordagem da trama é lenta demais, os ganchos nos finais dos episódios ou são fracos ou inexistem e a fórmula demora a engrenar, sem falar que o Luke Cage é um personagem um tanto caricato em sua origem, mas divertido ao extremo, e nessa versão já se mostra como alguém bastante soturno. A fuga da caricatura blackxploitation só acontece quando é conveniente, ao mesmo tempo em que ele não é o “super malandro” ele também é um homem mulherengo, estereotipo que para muitos soa viril, mas também traz conotações pejorativas. O fato de a Netflix Marvel não assumir em seus seriados que aquilo é um produto de super-herói pesa ainda mais nessa versão que Colter assume, por não saber escolher nem como uma exploração dramática,  muito menos como produto de adaptação fiel aos quadrinhos.

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