Review | Mindhunter – 1ª Temporada

Depois de Se7en – Os Sete Crimes Capitais, fica difícil mais de vinte anos após o clássico filme com Brad Pitt e Morgan Freeman pensar em alguém mais voltado ao universo da psicopatia e das manipulações humanas que David Fincher – até mesmo A Rede Social ganha com isso, evidenciando e sofisticando através do olhar do cineasta o jogo de tramoias que nasce e explode entre dois amigos e uma invenção universitária, chamada Facebook. Para Fincher, tudo não passa de um jogo de cartas ocultas e que merecem ser buscadas, e desvendadas.

A série americana da Netflix, Mindhunter, de Joe Penhall e Fincher, de uma maneira muito mais refinada e inteligente que pseudo intelectuais do cinema americano como Christopher Nolan e Darren Aronofsky, revira e garimpa com conforto e familiaridade de perito terrenos sombrios de grande relevância social (a política, como foi em House of Cards, ou a sociopatia, no caso) desprovidos de um luar, de explicações completamente racionais, até o momento. Nisso, suas obras ganham uma justificativa plena de existirem, em meio a uma seara aborrecida de outras dispensáveis, feitas sob demanda numa escala industrial de produção.

Após um estudo de 2016 afirmar que um em cada cinco diretores de empresas apesentam características claras de sociopatas, esse tornou a ser um assunto que nunca saiu de pauta nas produções culturais – mesmo que de uma forma subjetiva, e até por vezes caricatural em filmes, séries, livros e videogames. Portanto, entre tantos filmes e séries que se favorecem do medo do público na exposição visual de crimes terríveis contra o ser humano, como no caso de boas séries recentes, tal a sanguinolenta Hannibal, ou True Detective (saudades da primeira temporada), Mindhunter brinca com a suspeita desses grandes delitos, e principalmente, aonde se esconde a loucura mortal de homens totalmente comuns, de personalidade carismática e sedutora, e seus feitos que (quase) nunca são revelados – não de uma forma sensacionalista.

Novamente, como de praxe nas obras do criador de Zodíaco e Millenium: Os Homens que  (duas obras cujos contornos práticos e ideológicos são amplamente reconhecidos na nova série do cineasta), Fincher se acomoda plenamente na força dos diálogos, e no poder rítmico também da edição, sempre um primor. São esses depoimentos de um bando de serial killers que nos levam a investigar, junto aos agentes do FBI em 1977, a psicologia daqueles que são imprevisíveis. A série da Netflix, diferente de Dexter por exemplo, encarna essa imprevisibilidade de uma forma elegantíssima e instigante, brincando deliberada com nossos medos do desconhecido que mora nos homens à luz do dia, e sobre os holofotes de um interrogatório numa prisão.

Todos os dramas coadjuvantes a história dos criminosos, e as suas relações com os agentes Holden (Jonathan Groff), e Bill (Holt McCallany), bebem na fonte principal da série, um outro pronto válido de destaque. Aqui, nada é gratuito, e a psicologia profunda dos personagens para Fincher nunca foi tão importante. Nossos olhos são conduzidos com força as ações, e aos instintos de fantoches que servem a uma trama subjetivamente pesada, mas objetivamente fria, cínica, calculista e com aquela pinta sempre bem-vinda de noir dos anos 60 (alguém ai se lembra de O Samurai, clássico francês de 1967?). Outra referência de um passado glorioso vem na forma dos melhores filmes de Alfred Hitchcock, em especial dois com vários pontos a ver com a série: O Homem Errado, e claro, Psicose. Aparentemente, o diretor os revê toda noite antes de dormir – e eu não posso nem quero imaginar os sonhos provocados por esse tipo de experiência.

O diretor do eterno e cultuado Clube da Luta chegou num ponto da carreira que brincar com as expectativas e as noções subliminares do público é uma constante a ser defendida, e obviamente aprimorada a cada filme, ou episódio. Faz parte de seus princípios, já. Por isso mesmo, Mindhunter torna-se imperdível como uma das séries mais recomendadas de 2017 que, longe de ser um atestado dramatizado de psicopatia por parte de seu realizador, nos lembra do porquê ele precisa ser considerado um dos grandes nomes em atividade no audiovisual norte-americano, e as razões críticas pela qual somos tão facilmente seduzidos pelo escuro, por essas figuras perturbadoras, manipuladoras e que fazem parte de uma cultura popular universal. Mas não nos enganemos: Tais motivos nunca são explicados sequer sugeridos, mas entendidos com perfeição pelo o que realmente importa, nosso subconsciente, alerta e incansável como sempre.

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