Review | Olhos Que Condenam

Vivemos num tempo, e num mundo eurocêntrico onde Jesus Cristo tem olhos azuis, e é loiro, em que histórias de pessoas negras vem sendo cada vez mais celebradas, em trabalhos de indiscutível magnitude. Enquanto isso, a direita assola o começo do Séc. XXI como um fenômeno natural e cíclico às nações democráticas, tão inevitável quanto o próprio Thanos se autoproclama ser, no início de Vingadores: Ultimato. No espectro real das coisas, nossos heróis são a justiça, que nem sempre é tão justa assim, e acatando a clichês do tipo “bandido bom, é bandido morto” (e se for preto, melhor ainda, para higienizar mesmo), as vezes acaba usando sua legitimidade e soberania contra as vítimas de um sistema implacável – principalmente àqueles do rodapé da pirâmide. Engraçado como os privilegiados não sabem (ou não ligam) da existência dessa pirâmide, mas felizmente, Olhos Que Condenam é muito mais sobre aqueles que sabem muito bem o seu lugar na sociedade, e sabem que, quando os holofotes se viram para eles, em geral é para recriminá-los não para com os crimes que não cometeram, mas a respeito de suas próprias existências. É muito difícil, muito cruel ser um insulto ao sistema apenas por estar respirando, mais um dia, e a minissérie da Netflix e de Ava DuVernay atinge o raríssimo triunfo de traduzir essa sensação até mesmo àqueles cuja rotina nunca foi interrompida pelas injustiça dos (super) homens.

Dividida em quatro episódios, a minissérie da Netflix figura no catálogo da plataforma de streaming mais famosa do mundo, atualmente, como uma das suas melhores produções, até o momento. Estamos no ano de 1989, em uma América profundamente racista, e sem políticas claras de inclusão socioeconômica as comunidades mais carentes, disso. Nessa época, seria lançado o clássico Faça a Coisa Certa, de Spike Lee, escrachando com inédita irreverência e genialidade narrativa a força e a vibração de uma negritude inabalável e resistente a habitar a cidade de Nova York, com suas ironias, contradições, alegrias e perigos, numa terra de conflitos sociais muito fortes, e num tempo muito antes de Barack Obama ser aceito pela maioria da sociedade americana como um presidente apto a ser líder do poder executivo da nação. Porém, quando cinco garotos de outrora foram julgados e culpados pelo abuso sexual de uma mulher branca, no Central Park, o sistema não duvidou: puni-os com as poucas evidências que colheu, valendo-se essencialmente pelo senso comum (ainda presente, tal um credo atemporal ao redor do globo) de que branco correndo é pra perder peso, e preto correndo é pra fugir da polícia.

Lembramos então da célebre frase de West Side Story: “Está tudo certo na América, se você for branco na América.”. Esse é um musical de 1961, mas parece ser tão atual quanto já era em 1989, e segue sendo em 2019 – acá, ou acolá. Se antes tudo era visto pelo filtro de cenários de estúdio, roupas coloridas, e encenação dançante, trinta anos depois o realismo das suas imagens cruas valorizam a dor, a danação e a perturbação de uma injustiça dividida na história de cinco jovens confusos, numa narrativa multiplot a dar cabo da sobrevivência de cada um deles. Baseada em fatos reais, a minissérie e seu espetacular roteiro adaptado vêm na rasteira de outro clássico contemporâneo, o longo e eloquente O.J.: Made in America, colocando na mesa sem pudores algum a desigualdade que existe dependendo da sua raça, sua classe social, e outros fatores que enfatizamos para nos dividir, nos enfraquecer e nos matar, sem apelar a um caráter ativista, nem mesmo a um distanciamento quanto a procedência real dos casos, ou ainda, ao vitimismo que os racistas argumentam quanto a reclamações de cunho preconceituoso. “Esse demônio quer ver meu filho morto.”, diz a mãe de um dos ‘Cinco do Central Park’, como passam a ser chamados pela polícia e pela mídia, apontando para o rosto inchado de Donald Trump, destilando ódio e mais conflito na tevê.

Logo após grandes investigações dramáticas sobre o lugar do ser negro nos EUA, com os aclamados Selma, filme no qual se apegou a luta de Martin L. King pelo direito ao voto do cidadão negro no país, e o forte documentário A 13a Emenda, em que se propôs a discutir a lógica contínua de encarceramento em massa da população afro americana, DuVernay agora vem com tudo, sem resguardar intenções, com o retrato mais poderoso e direto até agora, na sua filmografia, para com a dura realidade de quem tem o seu destino cruzado pela impunidade decorrente de se estar presente no lugar errado, e na hora errada. O discurso ultra crítico da cineasta sobre o sistema, e seus afetados, invoca a resistência sem grandes rancores de um Spike Lee, mas equilibra com total habilidade a sensibilidade magnética, poética e instigante de um Barry Jenkins, em Moonlight. Assim, Olhos Que Condenam carrega em si um charme estético e uma pujança estrutural absurdamente impressionantes, não encontrando concorrentes no final desta década, culminando então na devastadora experiência de vermos cinco vidas pouco a pouco esgotadas, na iminência de serem varridas do convívio social, de um possível futuro acadêmico, de uma família, e tudo o mais. Temos a certeza, desde a primeira cena, que a prisão e seus traumas são a próxima parada para eles, e quando a trama dá um salto e os vemos adultos, muitos anos depois, também notamos que certas cicatrizes não vão se fechar. O mundo não deixa.

Na contramão do que poderia ser um drama pesado, insosso ou inconsciente das agruras de uma situação de causa perdida, praticamente, DuVernay nos faz invadir a prisão, as mentalidades desse sistema penal, e os problemas oriundos de acusações inválidas graças, também, a uma arrebatadora atuação coletiva. Difícil mesmo é aceitar que, na seleção do Oscar 2020, os homens e os jovens meninos que interpretam seus papéis, em diferentes idades e processos penais, não serão laureados por suas entregas impressionantes e quase sacrificiais a penúria de situações transgressoras de encarceramento, pressão psicológica, e culpa por ser quem são – e não poderem mudar isso. O quarto episódio, uma obra-prima impiedosamente hipnótica, é dedicado inteiramente a vida na prisão de Korey Wise, aquele que mais sofreu dos ‘Cinco do Central Park’, na pele do ator Jharrel Jerome, este portando a fúria e a bravura na atuação de um James Dean em Juventude Transviada, ou de um Heath Ledger, em O Cavaleiro das Trevas. No calcanhar de Korey Wise e dos outros quatro lutadores, e suas famílias, a minissérie vaga entre a infância deles, quando são acusados, e a idade adulta que chega para lhes trazer novos e velhos motivos para continuar a lutar. No final, fica-nos a dúvida: um dia, um negro poderá parar de lutar por ser quem é, ou melhor: poderá um menino, adolescente ou homem negro lutar justamente a luta de um homem branco, numa sociedade dita civilizada, e em busca da plenitude de uma justiça igualitária? Fica-nos a dúvida, então, a inspiração pelo combate alheio, e a certeza de termos, aqui, uma experiência inesquecível.

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