Review | Raio Negro – 1ª Temporada

Parceria do canal CW, que produz o programa, e Netflix, que distribui internacionalmente, Raio Negro é um seriado focado em um herói negro na DC. Começando pelo primeiro que teve uma revista solo, lá nos idos dos anos setenta, e o saldo se mostra bastante positivo, mesmo que ainda tenha alguns vícios inerentes aos programas do canal, como Arrow e Flash.

A primeira temporada já começa anunciando que o vigilante que dá nome ao seriado está desaparecido há nove anos, e ele prossegue procurado pela polícia da cidade de Freeland. Enquanto isso, é mostrado Jefferson Pierce (Cress Williams) como diretor de uma escola predominantemente formada por alunos e docentes negros. A criação que ele ministra a sua filha caçula Anissa (Nafessa Williams) é bastante rígida. A questão do apreço dele pela ordem prossegue muito viva apesar dele ter aposentado o manto do herói e sua crença de que a violência só gera mais conflito é interrompido por uma ação da polícia, já no piloto, quando ele está levando Anissa e Jennifer (China Anne McClain), sua filha mais velha. Depois de ser encarado como suspeito pela polícia e sem nada a fazer, ele se sente revoltado e ali é a gênese do retorno do herói.

A série comandada por Salim Akil e Mara Brock Akil tem uma complexidade grande nas suas tramas, apesar de abordar isso de modo simples e leve. A persona de Pierce é trágica apesar dele ser encarado como o “Jesus Negro de Freeland”, ao mesmo tempo que ele é benquisto pela sociedade, sua família é dividida. O motivo de seu divórcio com a mãe de suas filhas, Lynn (Christine Adams) não é dito de primeira, mas fica implícito que é graças ao herói, ao mesmo tempo, por mais que o povo clame por justiça, ele ao utilizar o traje do herói que manipula a eletricidade se torna um pária, amado por alguns e ignorado por quem jurou amar pelo resto da vida. A dicotomia é trágica e explorada de forma bastante madura.

Enquanto diretor, Pierce se sente impotente, ao ver a invasão do grupo criminoso auto intitulado os 100. O alvo é uma de suas filhas e após a ação violenta em que os bandidos entram armados dentro do colégio, passando por cima de qualquer autoridade instituída, instalando o mesmo terror que ocorria já nas ruas. Após a ação, ele retoma sua roupa e resgata suas filhas em perigo, mas outras mulheres seguem prisioneiras desses criminosos.

Ainda na trama, o albino Tobias Whale  (Marvin Krondon Jones III) é um mafioso poderoso, acompanhado da linda Syonide (Charibi Dean Kriek), mas no passado, ele vivia a margem de seus irmãos, por não ter a pele com a mesma pigmentação dos seus. A partir daí se explica a sua sociopatia e psicopatia, ao mesmo tempo, Lala (William Catlett) lidera os 100, mas convive com os fantasmas das pessoas que assassina. A probabilidade dos personagens soarem caricatos aqui eram enormes, mas isso não ocorre, mesmo quando eles agem como seres maniqueístas não parecem infantis, ao contrario de Martin Proctor, vivido por Gregg Henry, que faz um homem corrupto que repete a todo momento o slogan da campanha de Donald Trump.

Como era de se esperar nenhuma boa ação sai impune e o retorno do herói coincide com (ou é) a causa do aumento da violência na cidade, e o modo como se lida com essa dicotomia é bastante adulto também. Mesmo se utilizando do clichê de apelar para o uso continuo que a juventude faz com uma nova droga – a chamada Luz Verde – não há saídas fáceis e tudo que envolve as figuras dos vilões, ao menos no começo, é muito bem feita.

A identidade visual da série é algo único, e os atores exercem muito bem seus papéis, por mais bobas que sejam alguma situações e as coincidências inerentes a uma série de heróis, ainda assim tudo faz sentido, o espectador compra facilmente o drama de cada uma das pessoas retratadas ao longo dos 13 capítulos.

O texto contém alguns elementos panfletários, mas a mensagem é bastante clara de que a sociedade só será livre de fato quando todos os negros não sejam mais ameaçados pela criminalidade assolada naquele lugar, e somente os próprios poderiam fazer isso, mais ninguém conseguiria, e mesmos as ações do Raio Negro deveriam visar a comunidade inteira, e não só os parentes do seu alter ego.

O seriado surpreende por conseguir trazer todas essas pautas importantes de maneira natural e fluida. Não soa forçado, tudo é levado de maneira bastante orgânica , excetuando as lutas que ainda tem muito de CW e alguns dos trajes dos heróis – ainda assim, são menos artificiais que os programas dos outros canais. Os personagens LGBT não são estereotipados, nem há necessidade de falar de um jeito infantil para o espectador, ao contrário, o texto é franco, e até às insinuações de sexo são menos quadradas que o visto nas séries da Marvel.

Mesmo a questão do mentor é bem construída. O Peter Gambi de James Remar é uma fonte de inspiração para Jeff e para o restante da família, ele protege o pupilo desde muito cedo como um filho, mas ele não é imune a falhas, na verdade é um sujeito vacilante e que paga por seus pecados. Não é o sujeito que leva o personagem negro pela mão e o ensina todo o código ético comum aos heróis clássicos, ele está lá somente para ser consultado e ajudar algumas vezes, não para ser a bússola moral de ninguém.

O episódio final da temporada resgata parte do passado de Jefferson e da ligação que seu falecido pai teve com Gambi, além de fechar os arcos com os vilões e gerar uma finalização bastante adocicada para a família. Raio Negro tem personalidade e identidade, e é bom para o programa que não tenha qualquer ligação com os outros programas do canal, já que claramente não é feito para a mesma faixa etária de público, e contaminar essa série que funciona seria penoso demais. A torcida é para que Salim e Mara Brook Akil tenham liberdade para falar exatamente do que quiserem ao longo das temporadas do programa.

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