Review | Raio Negro – 2ª Temporada

Após Raio Negro 1 – Temporada, Jefferson Pierce (Cress Williams), diretor da escola Garfield  High já não se sente mais mal por ser o vigilante que dá nome a série,  por conta de uma porção de eventos, envolvendo a sua comunidade, que aos poucos, é destruindo pela droga luz verde e pelos criminosos que financiam a circulação livre dela as ruas. Raio Negro 2 ª Temporada começa com a polícia indo atrás de Pierce e sua família, sua esposa Lynn (Christine Adams) com quem ele reatou ha pouco,  e suas filhas Anissa (Nafessa Williams) e Jennifer (China Anne McClein) que também passaram a agir como justiceiras fantasiadas e a maior preocupação das autoridades não parece ser a de limpar as ruas, e sim de tentar entender quem é o mascarado e porque ele voltou, mesmo com uma situação de violência tão flagrante quanto essa.

O álibi da família para se afastar das suspeitas que recame sobre si é fraco, e o roteiro convenientemente ignora isso quando convém, e esse é um decréscimo perto da outra temporada, no entanto, as lutas melhoram bastante. Já no começo há bastante ação, em uma luta entre vilãs, pondo frente a frente Kara Fowdy (Skye P. Marshall) e Syonide (Charlbi Dean Kriek), cujo final é bem sangrento, ainda mais se tratando de uma série de herói.

Da parte social a série explora  bem a mentalidade Negro no Comando que Jefferson emprega, e se discute a função dele como professor da escola, terminando com o afastamento do mesmo. Enquanto isso, o amigo dos Pierce Bill Henderson (Damon Gupton) descobre a identidade da família e a empreitada maligna de Tobias Whale (Marvin Krondon Jones III) prossegue viva. A temática bíblica dessa segunda temporada, cujo sub titulo é O Livro das Consequências  cabe bem ao complexo de Jesus Cristo que Jefferson sofre, com o sujeito achando que deve ser mártir e que deve carregar sob sua pele os pecados de sua cidade, pondo o risco não só sua vida, como a de suas filhas, tornando a metáfora da carne carregando o peso alheio em algo mais que só simbolismo.

A entrada dos super heróis em cena, seja quando estão realmente em ação ou quando se dirigem rumo aos seus trajes é acompanhada de uma trilha sonora edificante, em sequências tão posadas que parecem até videoclipes. Falando assim esse pode parecer um aspecto negativo,  mas dentro da abordagem que o criador Salim Akil e pela desenvolvedora Mara Brock Akil propõe tudo funciona e faz sentido, contando aí inclusive a atmosfera blaxploitation.

 Os planos dos vilão beiram a megalomania, seja o de Tobias, que quer transformar Freeland em uma pequena Somalia, ou o de Lala (ou Latovious, feito por William Catlett) que após perecer começa a querer fazer justiça com as próprias mãos em uma ilusão de estar falando com as pessoas que ele matou. Nesse micro universo os problemas são tão grandes e auto suficientes que não ha espaço para o escapismo multi colorido e cheio de tramas folhetinescas de Arrow e Flash, e nesse ponto é um grande acerto não acontecer um crossover com estes programas, aliás, quanto Tormenta/ Anissa começa a querer ganhar aplausos, seu pai a repreende, perguntando se ela levaria a sério o ofício ou se faria um instagram. Mesmo que seja escapista, não há como não levar a história a sério.

Toda a questão dos problemas com a droga Luz Verde ganham maior importância, já que as vítimas dela tem um prazo de vida curto.  A maturidade desse texto faz lembrar as revistas clássicas de Denny O’Neill e Neal Adams com a revista Grandes Clássicos DC: Lanterna Verde e Arqueiro Verde Vol 1 e é incrível como a série menos popular da CW beba dessa fonte, e não Arrow. Na trama do colégio, há também seriedade, e não uma cópia barata de Malhação como os programas mais infantilizados do canal, Pierce passa por maus bocados, ao deixar a direção da escola é ovacionado, mas não cai na tentação de reassumir o posto quando seu substituto perde popularidade.

Apesar de ser menos focado que o anterior – há bem mais sub tramas pouco interligadas – este segundo ano acerta em algo, na mudança de postura de Kahlil (Jordan Calloway) não ocorre de maneira apressada, ela vai sendo construída bem aos poucos e por mais que não faça absolutamente sentido nenhum no começo, ela cresce com o tempo e vai aos poucos se tornando importante para algo maior que só o seu namoro com Jennifer.

Há questões que são levantadas e rapidamente descartadas, como o duplo vigilantismo de Anissa, ou  a comoção a respeito do destino de Khalil, que em um primeiro momento parece que abalaria as estruturas de Freeland, mas o rebuliço é rapidamente resolvido emocionalmente falando. A retomada do arco de Lala ao menos é bem feito, faz sentido dentro da ideia de discutir o modus operandi meio mafioso das milícias e criminalidade negra, ainda que os atos do homem sejam discutíveis eticamente. As soluções do programa podem ser apressadas, mas não são inválidas.

Mesmo adultas, as meninas são obrigadas a fazer um juramento, de que seguiriam as regras do pai incluindo ai não matar ninguém e não roubar os gangsteres em uma tática Robin Hood. O senso da família transcende a questão deles serem super poderosos, incrivelmente, e faz sentido. O que entra em contradição nisso é a vigia que Percy Odell  o personagem de Bill Duke faz. O final aparentemente é otimista, mostra os mocinhos vencendo boa parte de suas lutas, mas ainda mantém uma série de pontas soltas, envolvendo não só os vilões, mas alguns personagens periféricos. Apesar de não ser do mesmo nível da primeira temporada, Raio Negro segue inteligente, dinâmica e espontânea em cada uma das suas pautas, e melhorou demais no quesito ação, disso não se pode reclamar, cada vez mais ela se desamarra do estilo CW de super heróis, e ao lado de Doom Patrol certamente é a melhor adaptação televisiva de quadrinhos no ar.

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