[Review] Star Wars – Clone Wars

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A ordem dos capítulos de Star Wars – Clone Wars é um bastante confusa, com arcos misturados entre as temporadas, de modo que para entender a cronologia do programa, é preciso observar uma lista específica, vista aqui. A análise segue portanto esta ordem e o primeiro desses episódios não é o piloto, e sim Cat and Mouse, da segunda temporada, episódio que mostra Anakin Skywalker indo em socorro de Bail Organa, com uma nave de ataque que tem um dispositivo de camuflagem semelhante ao visto nas naves klingons e romulanas na série clássica de Jornada nas Estrelas.

Os capítulos de Clone Wars de David Filoni começam sempre pela mesma narração curiosa apresentada também no longa lançado no cinema em 2008. O programa explora o avanço dos separatistas da República, comandados por Asajj Ventress (introduzida na série não mais canônica Star Wars – Guerras Clônicas) e Conde Dooku. O design dos personagens está ligeiramente modificado, principalmente o de Yoda e as novas naves e armas mostradas lembram nesse início de série uma versão júnior do confronto da Estrela da Morte em Uma Nova Esperança.

Outros detalhes interessantes são mostrados, como o processo de feitoria de mais clones, orquestrado pelos kaminoanos, assim como o uso de naves semelhantes a Y-Wing, as mesmas que ajudaram a Aliança Rebelde nos filmes clássicos O Império Contra Ataca e O Retorno de Jedi. A quantidade enorme de episódios faz explorar algumas tramas com personagens fracos e sem carisma, como Jar Jar Binks, mas também dá destinos importantes para o detalhamento da situação da guerra, como o paradeiro de Gunray, o vice rei da Confederação de Comércio, o mesmo que é desafeto de Amidala desde a Ameaça Fantasma.

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Apesar dos muitos erros da nova trilogia, a Lucasfilm tomou cuidado para que não ocorresse novas fases de ostracismo com a franquia pós Episódio III – A Vingança dos Sith, como houve com Star Wars após O Retorno de Jedi, período esse de esquecimento que durou quase vinte anos, quebrado após o lançamento da edição especial do filmes clássicos em 1997. O plot do longa é simples em essência, mas de consequências políticas graves, envolvendo o sequestro e tentativa de resgate do filho de Jabba the Hutt, por meio das forças jedi, que enviam Anakin e sua nova pupila, Ahsoka Tano.

Impressiona como a química de Tano e Skywalker funciona, muito mais exitosa do que qualquer versão de carne e osso envolvendo o escolhido Hayden Christensen. A perseguição de Asajj Ventress a Anakin se mostra constante ainda, provando que sua derrota na versão anterior de Clone Wars não passava de um despiste, mcguffin esse que é bastante comum dentro das histórias em quadrinhos mais famosas.

A batalha entre Dooku e Skywalker revela um sith idoso muito mais ágil, diferente da versão já combalida de Christopher Lee, incapaz de dar saltos homéricos graças a sua idade já avançada. A trama envolvendo dos Hutts é bastante infantil e repleta de coincidências desagradáveis, especialmente em relação a Ziro, tio efeminado de Jabba, que mira um discurso de inclusão mas soa apenas bobo e preconceituoso.

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Os primeiros arcos se dedicam a mostrar a relação de Obi Wan e Anakin, ratificando a rebeldia ainda fruto dos conflitos vistos em Episódio II – O Ataque dos Clones, com Skywalker ignorando as ordens de seu antigo mestre ao atacar com sua nave os opositores, ao invés de simplesmente entregar os suprimentos humanitários ao planeta onde o senador Organa está.

O programa mostra situações estrategicamente colocadas em voga, não só a rebeldia e independência de Skywalker, mas também uma extrema diferença de caráter entre os clones que fazem a tropa de combate da república, mostrando inclusive traidores da causa. O filme longa-metragem apesar não ter um texto muito inspirado, ao menos serve para introduzir a maioria dos conceitos.

Ahsoka, a padawan da espécie togruta (natural do planeta Shili), que é designada para ser aprendiz de Skywalker – mesmo que ele não queira – tem a jornada que talvez seja a mais rica de todo o seriado, já que começa com uma premissa simples e termina de modo adulto, trágico, discutindo a fidelidade entre os jedi.

Há um número exacerbado de episódios com participação de Jar Jar, sempre desinteressantes ao menos no que o tange. Os capítulos bons caem muito de qualidade na participação dos gungans. A exploração em comparação com os outros de sua raça denuncia um enorme problema, uma vez que Binks é muito estabanado e atrapalhado até para sua raça gungan, que é construída para parecer bem menos evoluída do que os outros nativos de Naboo e de outros sistemas solares. Encarregar um personagem como esse a um cargo importante como visto nos episódios 2 e 3 soa absurdo e politicamente falho.

Entre os antagonistas, Cad Bane se destaca, como um caçador de recompensas inventivo, manipulador e um belo desafiador da república, ao ponto de precisar da união entre três jedi para quebrar sua concentração de mente. Outro evento importante no começo da segunda temporada é a explicação do uso do holocron, artefato do universo expandido que foi tornado canônico neste segmento.

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Antes de acabar a primeira temporada, nota-se uma evolução no que tange a animação, que se torna menos mecânica, fazendo com que a história engrene ainda mais nos anos posteriores. Na trilogia The Mandalore Plot, Voyage of Temptation e Duchess of Mandalore há dois fatores importantes, primeiro ao mostrar os mandalorianos e referenciar o caçador de recompensas Boba Fett, e o outro são as mostras de Palpatine já como um líder totalitário, impondo a suposta vontade da República sobre a soberania de um povo que se diz neutro.

Death Trap, R2 Come Home, Lethal Trackdown são capítulos que servem a dois fins, sendo o menos importante dar alguma importância a R2-D2, como nas peripécias bobas que ele fazia em A Vingança dos Sith, e a outra e mais importante, visa dar uma boa noção de como está Boba Fett, unindo seu destino à caçadora de recompensas Aurra Singh, introduzida no episódio 1. Fett segue buscando vingança contra Mace Windu, mas uma face bem mais benevolente do caçador de recompensas é mostrada, muito além do vilão carismático e sangue frio da trilogia clássica.

Um dos arcos mais interessantes é o que diz respeito a corrupção em Mandalorian, que mostra uma terrível tramoia que envolve um envenenamento de crianças através da adulteração da merenda escolar. Ahsoka é encarregada de palestrar sobre a venda de informações e influências para as crianças que são pouco mais velhas que ela. Em seu discurso, há um conservadorismo que aos poucos é desconstruído, notando-se uma rejeição extrema a revoluções e rebeliões, associando-as a um mal necessário dentro da resposta do povo a um sistema viciado em obtenção de recursos ilícitos.

A questão do endividamento da República via financiamento da Guerra ajuda a mostrar a célula embrião da futura Rebelião. Os interessados em continuar o conflito claramente buscam permanecer lucrando, incluindo a kaminoana Burtoni, que era a principal interessada em continuar produzindo clones. Entre os resistentes estavam o rodiano Onno Farr, Bail Organa, Padmé e claro, a jovem Mon Mothma. O jogo de intrigas e conspirações soa mais adulta do que qualquer sessão de senado de Ataque dos Clones e demais filmes da trilogia prequel.

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Filoni consegue organizar os roteiros de maneira bem harmoniosa, variando entre ações dos protagonistas dos filmes, lugares de resistência no conflito e entre república e separatistas, trazendo os personagens criados para o segmento das guerras clônicas sem esquecer os clássicos. Nesse ínterim, um dos cenários mais ricos é Dathormir e o destino dos personagens que tem origem lá, como Darth Maul e Asajj Ventress. Além disso, as irmãs das trevas possuem um background muito rico, envolvendo bruxaria, ressurreição de mortos e uma sociedade pautada em um governo feminino e neutro em relação aos ditames políticos vigentes, claro, com uma simpatia conveniente pelo lado sombrio da força, uma vez que é declaradamente contra os jedi, que na opinião destas, fomentam os anseios dos poderosos à época.

Ainda nesse arco há um desdobramento curioso, não só com o retorno da Maul, mas também com uma mostra de insatisfação de Dooku com Sidious por ser obrigado a deixar de lado sua aprendiz, Ventress. Esse é um exemplo do quão descartável são os alunos para os seus mestres sith, além de uma atitude quase profética em relação a rejeição que o próprio conde sofreria em detrimento do novo pupilo do futuro imperador, sendo esse morto pelo próprio Vader nos primeiros momentos do Episódio III.

O arco iniciado em Overlods e findado em Altar of Mortis discute os condutores da força, através de três seres pseudo místicos, revelando um representante para o lado negro, para o lado luminoso e um que traz o equilíbrio, através de uma família que mora sozinha em um planeta sem nome no sistema Chrelythiumn. Além desses dois episódios servirem para mostrar o futuro dos heróis, aventando a transformação de Skywalker em Vader. Os dois capítulos são misteriosos, inclusive na possibilidade deles terem ocorrido como em um sonho compartilhado entre os três guerreiros, mas ainda é uma boa interpretação do místico em relação ao poder da Força, refutando a ideia da ciência dos midichlorians etc.

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Assajj Ventress é abandonada duas vezes, o que faz dela um personagem com caráter de pária o tempo inteiro. A primeira rejeição via Dookan mostra não só um subestimar do futuro imperador a pupila do Darth Tyranus como também uma precaução para um possível insurgência, além de obviamente deflagrar que o Conde tinha sim uma ligação emocional com sua aluna. Os rumos que a moça toma depois da segunda recusa, agora pelas suas conterrâneas mostra o quão arredia é sua alma, ao ponto de pensar em se tornar uma caçadora de recompensas, em um episódio que homenageia os bounty hunters que apareceram no Império Contra Ataca.

No quinto ano se resgata o arco de Darth Maul, mostrando-o criando o Sol Negro, uma nova aliança que tenta ser uma alternativa ilegal para o submundo galáctico, que faz frente não só a república como também aos separatistas, estabelecendo até uma conexão com alguns mandalorianos, raça esta que sempre foi neutra no entrave político vigente. O sexto ano não dá um fim para a história, tendo uma continuação na revista Darth Maul – Filho de Dathomir.

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Para a maioria dos fãs de Clone Wars, a riqueza do programa mora em Ahsoka Tahno e de fato a personagem ganha ares de maturidade passando de uma sidekick forçada e insuportável. A conspiração em torno de si faz perguntar se a autoridade dada aos jedi era ou não excessiva, visto que um engano dos mais pueris sacrificou a jovem padawan.

Quando a moça é enquadrada pela lei injustamente e levada a prisão faz lembrar o cárcere de outra heroína, sendo essa uma versão mais nova da Princesa Leia ao ser levada para a detenção na Estrela da Morte. O desfecho dela ainda na quinta temporada foi emocionante, talvez o melhor final de arco, pesado para espectadores e para o personagem de Anakim, que sente-se impotente diante dos seus. Mas o futuro ainda reservaria mais para Tano, ainda em animações de Dave Filoni.

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A sexta temporada tem três arcos pequenos, o primeiro um pouco interessante, sobre um vírus ocorrido nos clones que os faz agir de maneira estranha e que ajuda a explicar de maneira didática como os soldados obedeceram sem questionar a ordem 66 que deu cabo de muitos jedi. A segunda se foca no personagem Clóvis, o mesmo que pareceu ter um romance com Amidala no passado e cujo background é totalmente descartável e desimportante. O terceiro mostra uma procura pelos rastros de Syfo Dyas (ou Zaifo Vias), o jedi que foi citado no Episódio II como o responsável pelas encomendas dos clones de Jango Fett. Tal plot não era tão necessário, uma vez que já havia ficado claro o que houve com o personagem e o quadro piora quando é exibido mais um combate genérico entre Obi Wan, Anakin e Conde Dooku.

Ao menos é nessa última parte onde Yoda percebe o mistério do além vida para os jedi, encontrando-se finalmente com Qui Gon Jinn (por sua vez, dublado por Liam Neeson), que se manifesta para ele e para outros jedi. Somente o mestre ancião acredita na veracidade do contato – fato que o faz ser visto como senil por alguns jedi – e passa a seguir as instruções do antigo e rebelde mestre, indo para Dagobah, planeta repleto de lodo onde moraria nos idos de Império Contra Ataca, e onde teria contato com as cinco sacerdotisas que lhe instruiriam nos caminhos mais místicos do pós morte.

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Após algumas viagens ilusórias, mostrando um encontro utópico entre um bom Dooku, Anakin, Kenobi e demais jedi, Yoda rompe com o aparente estado de paz e segue estudando os detalhes da Força, junto as bruxas, ao ponto de ir ao planeta natal dos sith, Moraband, onde tem contato até com um fantasma de Darh Bane, o sujeito que criou a regra de dois dos sith.

Aos poucos outras alegorias ilusórias ocorrem em Moraband além das feitas pelas bruxas, com Darth Sidious mostrando Sifo Dyas como prisioneiro, além de fazer referências óbvias ao futuro, tanto na era do Império quanto em Episódio III, mostrando inclusive uma versão diferente do futuro de Anakin Skywalker e o quão ele seria importante. Entre novos enganos e disputas ideológicas, flagra-se uma luta bem mais interessante entre Yoda e Sidious, mais profunda e repleta de nuances, ao contrário da pirotecnia de cunho gratuita vista no fim da trilogia prequel.

Dave Filoni compreendeu muito bem o legado de George Lucas, talvez até melhor que o próprio criador, e apesar de deixar alguns arcos em abertos como com Maul e Ventress, ainda há uma exploração bem interessante dos detalhes do universo de Star Wars, muito além do conflito de Clone Wars em si, expandindo o conceito também pela futura serie Star Wars – Rebels e fomentando a discussão sobre os detalhes interessantes propostos por Lucas mas que foram muito mal trabalhados nos últimos três filmes que o mesmo dirigiu.

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