Review | Super Campeões J

O início dessa versão de Super Campeões, chamava-se Captain Tsubasa J, e começa com Oliver e seus amigos ganhando a vaga para a Copa do Mundo, ao menos é assim que a dublagem da Gota Mágica dizia, inclusive com o narrador evocando sempre a torcida brasileira em jogos que se passavam entre os juniores e juvenis do Japão. Essa dublagem por mais errada que fosse, era charmosa, e além do já falado, também modificava a história para parecer que eram jogos das eliminatórias para a Copa do Mundo de 1998 na França, quando eram competições de categorias de base.

Essa versão veio para no Brasil na época da Manchete, e entrou no lugar de Cavaleiros do Zodíaco, e isso gerou malefícios e benefícios para o desenho, que teve uma popularidade um pouco maior do que poderia ter graças ao futebol, mas também gerou uma certa rejeição por conta de ter substituído um fenômeno popular, como era CDZ, além é claro dele passar numa época em que a Manchete estava em vias de falir, junto a reprises de Black Kamen Rider, Pantanal, e do único anime que fazia sucesso e ainda tinha coisas inéditas, Yu Yu Hakusho.

A produção do anime foi cofinanciada pela Federação Japonesa de Futebol, e de fato, o esporte se popularizou muito, após a adaptação do mangá para animação. A J League começou em 1992, e essa versão foi ao ar em outubro de 1994. A escola onde Oliver – no original, seu nome é Tsubasa Ozora – vai estudar tem várias equipes de esportes, onde o futebol é o menos desenvolvido. O time do Nankatsu não tem técnico, então quem comanda o treino de estréia de Tsubasa é… ninguém.

Uma das questões mais polêmicas no anime e no mangá de Yōichi Takahashi é quem seria o jogador que inspirou a criação de Roberto Maravilha. Talvez o mesmo faça menção a Zico, que veio ao Japão para popularizar o esporte nos anos noventa – o anime é de 1994 – ao menos era isso que se especulava no Brasil, apesar de que há quem o compara a Sócrates, uma vez que o mangá é de 1981, e o personagem também tem problemas com bebida, mas há de se lembrar que foi em 1981 que o Flamengo de Zico ganhou o Mundial Interclubes no país do sol nascente. No final das contas, Roberto se livra do alcoolismo para treinar os garotos.

Nesta versão, Carlos Mizaki é mais incomodado com o ofício de pintor de seu pai, que o faz se mudar o tempo todo de local, em Road to 2002 ele aceita isso de maneira mais tranquila. O formato dos episódios é bem simples, a cada parte do anime Oliver encontra um jogador japonês de bom futebol e estilo diferenciado. O primeiro deles é o goleiro Benji, que não demora a se aliar ao protagonista, o próximo é Kojiro Hyuga, um centro-avante que tem um perfil muito parecido com o de Ikki de Fênix – e curiosamente, é dublado por Hermes Baroli, o mesmo de Seiya de Pégaso –, conhecido por ter um futebol de força ao invés de arte como Oliver.

Em certa altura, Benji e Oliver já são amigos e jogam no mesmo time, o goleiro se machuca acidentalmente ao chutar o tiro de meta, adiantando um pouco a bola. A linha de ataque adversária tenta pegar a bola para se aproveitar da contusão dele e marcar um gol, ou seja, na ideia de futebol infantil tencionada por Takahashi, não há fair play mesmo nas categorias inferiores.

Carlos também jogou no Meyva, time de Kojiro, e eles tem um substituto para o sujeito que faz dupla com Oliver, e chama-se Takeshi. A disputa entre os times e seus maiores jogadores reflete também a posição dos técnicos, pois Roberto é um ex-atleta brasileiro, de enorme técnica, enquanto o treinador do Meyva se recusou a ser profissional, provavelmente porque na sua época não havia uma competição oficial no seu país, e prima pela força e as vezes  até o anti-jogo, já que sua defesa aplica golpes de karatê em Oliver, além de Kojiro chutar a bola no queixo do goleiro adversário, para traumatizá-lo.

O narrador feito por Elly Moreno é sensacional, falando gírias e termos  como ô louco, além de fazer muitas referências datadas ao extremo. Para muitos, isso é um defeito, mas a realidade é que há um charme que casa com toda a irrealidade e fantasia que Super Campeões prega. Se essa é uma fábula sobre o esporte, natural que não se leve tão a sério seu drama.

Há uma questão grave, que nessa versão é mais explicada que nas outras encarnações de Captain Tsubasa, que é o problema do coração de John Misugi, chamado de o Príncipe do Campo. Ele sempre joga só quinze minutos por partida, e esconde seus problemas dos outros jogadores do time, o que não deixa de ser suspeito. A fama de Oliver faz Misugi querer jogar contra ele, pondo em risco sua saúde e sua vida. Que o garoto queira fazer isso, tudo bem, uma vez que ele é uma criança e talvez não tenha noção do perigo que isso pode ocasionar, mas para os adultos é um absurdo que deixem ele seguir jogando.

A final entre Meyva e Nankatsu começa emocionante, pois todos os pais dos garotos vão no jogo, fato que no remake Road to 2002 simplesmente não acontecia sequer com o pai de Oliver. Além disso, alguns dos absurdos que tornaram Super Campeões um anime charmoso, como o fato dos dois camisas 10 se marcarem, mesmo estando ambos em lados opostos do campo, sendo os dois atacantes. É nesse momento que se mostra um flashback, de Wakashimazu, o goleiro que lutava karatê e que foi encontrado pelo Meyva treinando sua arte marcial. O poder de convencimento de Kojiro é sensacional, ele diz que o futebol é uma arte marcial, basicamente porque… ele acha que é, mas claramente, não é, a não ser é claro nessa realidade do anime e mangá de Captain Tsubasa.

Apesar das muitas confusões e das cenas risíveis, a final é muito emocionante, com direito a uma prorrogação infinita, anulação de gol após frango (e no último minuto de partida), e claro uma despedida entre Roberto e Oliver, com o mentor não tendo coragem de levar o rapaz para o Brasil separando-o da sua mãe.

Shingo Aoi (ou Xingo) é introduzido como novo protagonista, depois de passados uns trinta episódios. Essa parte fica bem confusa, pois Xingo é muito fã de Oliver, e na Itália, encontra um time de jogadores da base italiana, e lá, se fala que o Japão foi um dos melhores times do campeonato de base. Esses jogos simplesmente não aparecem, só se cita, e além disso, a dublagem tentava fazer crer que o Japão estaria se preparando para a Copa de 98 na França, quando o anime começou a ser exibido em meio as eliminatórias para a Copa dos EUA, em 94, a qual o Japão sequer se classificou no mundial que o Brasil foi tetra. Aliás, esse mundial tem uma relação curiosa com Super Campeões, pois muitos creditam a não ida do país asiático ao mundial pela culpa da baixa popularidade do programa na terra do sol nascente, tendo o fim desta encarnação de Captain Tsubasa J encerrada antes do tempo previsto, também sem traduzir o mangá por completo.

Ainda sobre a Copa de 1994, o mangaká Yōichi Takahashi esteve no estádio para a final da Copa entre Brasil e Itália, tendo inclusive uma micro-participação de Roberto Baggio quando Xingo chega a Itália, no aeroporto. Takahashi era aficionado pelo futebol brasileiro, em especial pelo São Paulo, muito graças ao bicampeonato mundial do time de Telê Santana, e também pela trajetória de Musashi Mizushima, um jogador japonês que passou pelas categorias de base do clube nos anos oitenta, mas só jogou profissionalmente pelo São Bento, Portuguesa-SP e Santos. Esses fatores certamente fizeram o autor decidir por colocar seu protagonista para jogar no time do Morumbi, que aqui, é chamado de São Paulo mesmo, e não de Brancos como em outras versões.

Nos jogos pela seleção do Japão, há algumas brigas, que fazem afastar Kojiro, Carlos e outros cinco jogadores. Com o time desfalcado, basicamente com Oliver, Benji, Ishizaki, Mizuki e Matsuayma, poucos jogadores para fecharem onze. Xingo vem da Itália, se atrasa por conta do voo e do trânsito, e entra pouco antes do primeiro tempo começar, realizando seu sonho de jogar com Tsubasa, e ainda recebendo uma assistência do jogador, para o gol contra a Tailândia.

O imbróglio que fez o afastamento dos jogadores é muito gratuito, não há qualquer justificativa plausível para essa lição de moral que eles recebem. Isso é estranho, assim como a dificuldade que os protagonistas têm em jogar contra a Tailândia, que supostamente também é uma potência futebolística.

Narrado por Xingo, o último capítulo dá um salto no tempo e mostra a preparação para 2002, a Copa do Japão, reunindo muitos flashbacks, e quase nada de inédito. A produção acaba por volta do quadragésimo episódio, bem mais curta que o anime original, com mais de cento e vinte episódios, e acredita-se que o fim do programa foi precoce por conta da desclassificação do Japão a Copa de 1994, que poderia ser a sua primeira, não à toa há a troca de protagonistas e um salto no tempo, o que foi uma pena, pois a fantasia futebolística ia muito bem até aqui, apesar de todos os pesares, e claramente é mais positiva que a versão posterior. Ainda assim, Super Campeões tem momentos memoráveis e muito engraçado para que entende de futebol, já que não há lógica que o explique, e não há verossimilhança que mate a mágica presente no desenho.

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