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Review | Tá no Ar: A TV na TV

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Reunindo um elenco repleto de atores e humoristas globais, com alguns recém contratados de outras emissoras, como Marcelo Adnet, Tá no Ar: A Tv na Tv buscava satirizar o conteúdo bom e ruim tanto da Globo quanto dos outros canais abertos e do cabo. O semanal era assinado pelo próprio Adnet, Marcius Melhem (que estava no elenco fixo e na redação) e Mauricio Farias.

O pilot começa com uma brincadeira com informes em formato de cartelas azuis, com um  narrador desconhecido (feito por Alexandre Tavares, do programa de rádio Pop Bola), e funciona como se o espectador zapeasse freneticamente com o controle remoto na mão entre as centenas de opções da Tv a cabo, quase sempre parando em esquetes de programas repetitivos, fazendo perguntar o motivo de se ter tantas opções de canais sendo que o conteúdo é praticamente o mesmo.

Os esquetes são mostrados ou na íntegra ou em trechos, como parte do exercício de zapear. Alguns bons momentos  incluem o de um ativista, supostamente de esquerda, feito por Adnet que serve como mea culpa da “Vênus Platinada”, uma vez que ele, de maneira jocosa é claro, faz críticas a programação da Rede Globo, repetindo e repercutindo o muito que se fala dela nas redes sociais e rodas de conversa informal.

Outros momentos bons incluem A Galinha Preta Pintadinha, eu é uma esquete que corre as cinco temporadas do programa, além de paródias de séries como House, CSI, Sex and The City, e mesmo programas brasileiros, como Criança Esperança e claro, os jornais de repórter de Polícia, conduzido aqui por Jorge Bevilacqua, personagem de Welder Rodrigues no Jardim Urgente, que trata as crianças todas como delinquentes. O personagem fez tanto sucesso que ascendeu do programa, apareceu nos especiais de fim de ano, não só por conta da crítica ao punitivismo que ocorre nesse tipo de programa, exagerando claro ao ponto de se pensar em prender crianças, mas também pelo carisma de seu interprete.

O elenco feminino é composto por Luana Martau, Renata Gaspar, Veronica DeBom, Georgina Goes, Carol Portes e a participação delas é hilária. Há claro personagens muito repetitivos, principalmente quando se discute a objetificação da mulher nos programas mais populares, mas há espaço também para ironias ao estilo de vida alternativo dos EMO ou dos Hipsters, além de  um sem número de musicais, quase sempre bem orquestradas.

Evidentemente que não são todas as piadas  escritas que fazem sucesso, o uso das redes sociais (sobretudo Youtube e Globoplay) para divulgar os melhores momentos e tiradas do programa ajudavam a endeusar Adnet e os outros redatores e compositores. As sátiras com grandes atores que abandonavam a Globo para tentar ganhar prêmios de atuação em filmes nacionais de orçamento baixo  é ácida e bem condizente com a realidade. As conexões com programação real, como com o BBB era bem presente também,  mas não tão intenso quanto ocorre com Fora de Hora, sua “continuação espiritual”.

Com o tempo, além do elenco que já tinha também Marcio Vito, Danton Mello, Mauricio Rizzo, começam a aparecer outros globais, entre eles Regina Duarte, Lulu Santos, Bruno Gagliasso. Ainda dentro das esquetes, certamente Balada Vip ajudou a exemplificar como o Brasil mudou, seja pela ascensão de João Doria como prefeito e governador de São Paulo, ou como essa elite cafona e bizarra se levantou como a que mais vocifera e exige para si protagonismo das ações políticas brasileiras. No inicio, Tony Karlakian de Adnet e Rick Matarazzo de Melhem eram mais inocentes, e vão ficando mais vorazes com o tempo, e até o formato deste trecho de Ta no Ar mudou, se tornando um Game Show e até Reality Show (Quem Quer Ser Um Bilionário e Os Karlakians), e essa renovação contraria a máxima de super repetição que normalmente programas assim passam, como houve com o Casseta  e Planeta anos antes.

O programa durou seis temporadas, variou de abertura, tendo Televisão cantada pelos Titãs e depois por Lulu Santos, e boa parte do seu brilhantismo morava na quebra da quarta parede, nas auto citações e nas piadas com o próprio elenco. Mesmo momentos de piadas básica, como a do índio brasileiro afetado Ubirajara Dominique vão crescendo, e se tornando cada vez mais escandalosamente hilárias. O Arquivo Musical brinca com os Hipster e Emos, onde Luana Martau brilha mais uma vez, fazendo uma jovem de sotaque paulistano e irritante, sempre estupefata com a falsa origem de movimentos musicais brasileiros. Em alguns pontos a ironia é tão fina que dá para confundir realidade com ficção, obviamente tendo essa dubiedade quebrada com os números musicais posteriores comparando movimentos nacionais com manifestações internacionais e antigas, mas na maioria das vezes é tudo tão cretino que se torna impossível não achar graça.

Dos jornais satirizados a Tv Inversa foi a que fez mais sucesso, brincando com os informes  aos contraventores e quem se valia da marginalidade. No quinto ano, há o acréscimo de Eduardo Sterblitch, recém saído do Pânico na Band e da atriz Luisa Arraes. O roteiro passa a ser mais maduro, brinca-se com um canto ecumênico, das Galinhas Pintadinhas de religiões diferentes, e mesmo que pudesse parecer algo panfletário, o que se vê é uma boa parodia, que lida bem com as diferenças de crença no Brasil. Há também uma evolução nos musicais, cada vez maiores e com mais investimento financeiro.

No episodio final se brinca com trechos dos quadros clássicos, com uma versão de Vai Passar de Chico Buarque,  falando sobre fim de ciclos, além de mostrar os integrantes do programa se candidatando a novos trabalhos, tal qual se via nos horários eleitorais.

Não houve muito como fazer piada com a política local, já que o programa terminou no começo de 2019, ou seja, no inicio do governo de Jair Bolsonaro como presidente, coube ao especial A Gente Riu Assim, exibido no final do ano, com o programa já terminado uma reflexão sobre o quadro social e das artes do Brasil, e nesse, há uma dura e incisiva crítica, com Luana Martau e Paulo Vieira, que estariam no vindouro Fora de Hora, aliás, que conta com boa parte dos produtores deste programa analisado. Tá No Ar – A Tv na Tv terminou bem, entre mais altos que baixos e sem cair em repetição  de conceito ou de formato, numa boa versão de outros humorísticos da próprio Globo, resultando em algo ainda mais ousado por ser este um dos que mais criticavam a grade e postura da própria emissora, até para desviar o argumento comumente associado a Globo, de que costumam tolir seus novos contratados.

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Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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