Review | The Pacific

“E no momento em que o navio dissipava-se no horizonte, a cabeça desaparecia debaixo da água. Tudo acabou. Só restava o mar.”
– Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo.

“Eles vão arregalar aqueles olhos quando nossos aviões pousarem na pista deles.”
– The Pacific.

Poucas vezes a xenofobia e o etnocentrismo foram mostrados em campo de batalha de forma tão explícita, sendo oriundas e alimentando um conflito histórico envolvendo Estados Unidos e Japão na primeira metade do séc XX. Esqueça o contraponto saudável e esclarecedor que Clint Eastwood propôs com Cartas de Iwo Jima, e A Conquista da Honra: a própria forma como tal conflito é defendido em The Pacific é imparcialmente realista, e americana, por excelência, quase não encontrando no drama inerente à ação, até porque essa não foi a intenção aqui, uma redenção ética para os atos desse país invadindo o outro (como ainda faz) para manter sua supremacia política. Esta ainda em construção na época, logo após o ataque japonês a Pearl Harbor e que feriu, para sempre, o frágil ego do Tio Sam, com o país entrando de vez na Segunda Guerra Mundial. Uma retaliação (e dominação global) imposta pelo ar, por terra, e neste caso, pelo mar que presenciou a militarização das ‘inocentes’ caravelas de Cabral, e cia.

Só que, enquanto o velho mestre Eastwood promoveu o debate por meio de dois filmes com posições políticas e nacionalistas naturalmente opostas, na produção televisiva de Tom Hanks, amplamente inspirado pelo amigo Steven Spielberg e seus épicos cinematográficos O Resgate do Soldado Ryan e Irmãos de Guerra (mesmo este último sendo produzido para a TV, seu formato e qualidade poderiam ser exibidas em quaisquer telas de Cinema), os dois lados da mesma guerra é objetivo e simplificado aqui, delimitado por quem está atrás de um fuzil e quem está na frente, numa narrativa unilateral dividida em dez episódios similares em ufanismo puro, cujo verdadeiro drama consiste em sentir pena pelos invasores mortos, boiando na maré do território inimigo ou feridos num ataque a um bunker.

Filmando de maneira clássica e com trilha-sonora solene (Hans Zimmer imitando John Williams rende bons momentos, e outros enfadonhos ao cubo), é como assistir Além da Linha Vermelha com a ação de um Soldado Ryan, mas sem a maestria de um Spielberg. Isso porque, mesmo com praticamente todos os recursos usados por Spielberg em Irmãos de Guerra sendo explorados em The Pacific (o lado documentário em toda abertura de episódio, enfatizando os comentários de veteranos reais de guerra, o uso de camera footage antiga, com cenas reais mostrando a invasão americana na “impenetrável” ilha encharcada de Guadalcanal, e nas praias de Peleliu, cenário onde a batalha foi a mais complicada e traiçoeira para os soldados americanos, e a mais questionável até hoje quanto a inteligência militar que moveu tal operação), Hanks não é Spielberg, por mais admiração e apadrinhamento que o ator possa ter tido do veterano cineasta.

Enquanto ele foca, tornando sua ação impecável numa espécie de bomba-relógio, Hanks expande e não concentra, tendo sua perspectiva tanto acionária quanto dramática mais pro estilo dinamite, ainda que sentimental na medida certa em diversos momentos chave, na história.O que guiava a Primeira Divisão de Fuzileiros Navais pelos arquipélagos asiáticos onde só encontravam miséria humana, nos quais a força invisível da guerra os levava a trilharem busca do inimigo, da vitória ou do óbito? Cada vez mais reconhecendo suas personagens como seres humanos enterrados num objetivo cada vez mais sufocante, eis uma minissérie alegórica aos sentidos mais primários de uma guerra, por mais ilógica que elas possam parecer ser para quem não as promove e fomenta o conflito sem precisar sujar as mãos; ao sentido dos lemas ‘fazer o que tem que ser feito’, e ‘custa o que custar’.

Hanks não procura a honra e o orgulho nisso, e sim as consequências para o homem que mata em nome de um país; o seu. Deixa claro que a paranoia não cobre atos ruins, mas também é inevitável numa situação dessas, e que mesmo o coração de um soldado sendo o seu rifle, são os sentimentos coletivos e por vezes individuais de um homem exausto e ferido que o guiam, a maior parte do tempo, seja por onde for.Chamando-os de ratos, da mesma forma como Hollywood via os japoneses deliberadamente na época, e como os nazistas intitularam os judeus em sua perseguição doentia, os fuzileiros americanos e seus comandantes começaram a contar suas vítimas ao longo da guerra e ficaram incrédulos com o que estava acontecendo, chegando nisso ao ponto alto da minissérie.

Sua narrativa ao longo dos episódios, em especial do (ótimo) sétimo em diante, e supervisionada pelos mesmos envolvidos em Irmãos de Guerra, mostra-se extremamente hábil em expor sinceramente as lacunas e as contradições de uma doutrinação militar agressiva, e que levava às vias da desumanização o indivíduo em prol da vitória, e do orgulho nacional. Mesmo com um ufanismo gotejante e que impregna a série do começo ao fim, sobra espaço em The Pacific para ser honesta quanto aos reconhecidos erros militares americanos, subestimando a inteligência japonesa em resistir aos ataques coordenados, a certa altura do conflito. Tom Hanks usa e abusa de uma simbologia contextual (capacetes, romances paralelos, granadas) para contar, em campo de batalha, o que sucedeu ao icônico ataque a Pearl Harbor. Faltou interesse em debates maiores e mais aprofundados, contudo, sobrou coração na reprodução dessa retaliação histórica.

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