Review | The Wire

wireAtenção, este review contém spoilers de toda a série. Siga por sua conta e risco.

Segundo o livro Homens Difíceis, de Brett Martin, The Wire entrou para o seleto grupo das cinco séries dramáticas que mudaram a televisão americana atual e a fizeram entrar em uma nova era de ouro. Ao lado de The Sopranos e Six Feet Under da HBO, e Breaking Bad e Mad Men da AMC, a série criada por David Simon, sem nenhum exagero, conseguiu atingir o nível de excelência de roteiro através dos seus 60 episódios divididos em 5 temporadas. Entretanto, com uma peculiaridade que se tornou uma das identidades da série e a diferenciam de todas as citadas: o realismo.

Sinopse: todas as possíveis ramificações do tráfico de drogas na cidade de Baltimore são mostradas tanto sob o ângulo dos vários traficantes e seus subordinados, quanto da polícia, principalmente da equipe especial de inteligência responsável pelos grampos.

Pela densidade do roteiro de uma hora que contém muitas informações, seguindo o padrão HBO de qualidade, The Wire pode ser considerada uma das melhores séries policiais de todos os tempos. As cinco temporadas se dividem entre os vários casos que vão surgindo e suas investigações decorrentes, conforme o tráfico de drogas vai se adequando as novas realidades, gerando uma interação curiosa entre os dois lados.

A primeira temporada consolida uma parte do elenco fixo da série, focando principalmente no detetive de homicídios Jimmy McNulty, e os policiais que farão parte da primeira equipe formada com o intuito de perseguir os traficantes sob a forma de grampos telefônicos, a Major Crimes Unit, chefiados pelo superior Cedric Daniels e liderados pelo principal investigador da equipe, Lester Freamon. Como os traficantes usam pagers para se comunicar, eles acabam percebendo o padrão utilizado pelos bandidos. É aqui também que se inicia também a investigação pelo dinheiro gerado pelo tráfico, para mostrar o quanto o comércio ilegal das drogas está intrínseco na sociedade, fato recorrente durante toda a série.

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A Major Crimes Unit

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Stringer Bell e Avon Barksdale

É aqui que vemos também toda a politicagem nos bastidores dos mais diversos escalões de poder da polícia, que dificultam ou ajudam a formação da equipe, com os coronéis, tenentes e outros chefes tentando subir na hierarquia a qualquer custo. Em toda a temporada da série algum chefe de polícia se destaca, nesta primeira é o caso do comandante Burrell e do Major Raws.

A outra parte do elenco fixo se centra no outro lado, a rua, e, claro, as drogas. O traficante Avon Barksdale, junto com seu braço direito Stringer Bell e seu sobrinho atrapalhado D’Angelo com seus vários subordinados, se tornam o alvo da investigação policial. Todas as séries costumam ter um personagem que se torna especial de alguma forma, seja pelo carisma do ator ou pelo roteiro que lhe permite essa possibilidade. Em Deadwood é Al Swarengen e em The Wire é o caso de Omar Little, o bandido que rouba outros bandidos. Ele aparece de vez em quando durante a série, e proporciona os pontos altos dos episódios.

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Michael K. Williams como Omar Little

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D’Angelo Barksdale com os seus soldados

Na segunda temporada há um novo caso para ser investigado. O porto de Baltimore é dominado por imigrantes poloneses, chefiados pelo líder sindical Frank Sobotka. Eles encobrem seus esquemas ilegais operando dentro da lei, se diferenciando do tráfico nas ruas a céu aberto. Nesta temporada o superior da polícia que se destaca é o Major Valchek, também descendente de poloneses e adversário de Sobotka. É ele quem age nos bastidores para o retorno da equipe de investigação com o objetivo de ir atrás de seu desafeto. Não demora muito para que a Major Crimes Unit, agora uma unidade fixa dentro da polícia, descubra o padrão utilizado pelo sindicato dos estivadores.

Como a investigação mudou de rumo, há um novo olhar sobre o tráfico, agora internacional. O sistema operado no porto permite a entrada de matéria prima para a fabricação da droga fornecida pelo Grego para o traficante Proposition Joe, adversário de Barksdale. Continuamos a ver o que aconteceu a Avon e seu sobrinho D’Angelo na prisão, e Stringer Bell operando seu esquema do lado de fora. Stringer, sem conseguir manter a área conquistada com tanto custo por ele e Avon com um produto de baixa qualidade, mas com uma força ainda grande, começa a maquinar uma espécie de parceria com Prop Joe.

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Frank Sobotka e seu sobrinho Nick

Na terceira temporada acontece um fato extraordinário. A princípio instigado em abaixar as estatísticas de assassinato no Distrito do Oeste, o Major Colvin opta por tentar combater o tráfico de uma maneira diferente. Colvin faz com “Hamsterdam”, o que se torna um ensaio sócio-econômico-político-cultural sobre o que aconteceria se o tráfico de drogas fosse legalizado em uma grande cidade dos Estados Unidos. É, de longe, uma das maiores contribuições da série para o debate a cerca do tema.

Em paralelo, há uma espécie de retorno à primeira temporada, pois a unidade de escuta de grampo volta as atenções para os traficantes na rua. Eles agora vão atrás de Stringer Bell e Prop Joe, mas a princípio não conseguem nada. Se os pagers antes eram a base para o grampo, o foco muda para os celulares pré-pagos descartáveis. Também vemos a formação de uma Cooperativa. Liderados por Stringer e Joe, os traficantes percebem que se não há corpos nas ruas, diminui o risco do negócio com menos investigações policiais. Marlo Stanfield e sua gangue também surgem nesta temporada; ele declina participar na Cooperativa em função da sua própria força e poder, e o seu estranhamento com Avon gera uma das melhores guerras de tráfico da série.

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Marlo Stanfield e sua gangue

Ainda na terceira temporada, David Simon nos apresenta mais um foco de debate na guerra ao tráfico: os políticos. Se antes as maquinações se atinha aos bastidores nas esferas do poder policial, agora com a nomeação de Burrell como comissário, chegamos diretamente ao prefeito Clarence Royce e o ambicioso líder da câmara dos vereadores Thomas Cercetti.

Na penúltima temporada quase não há escuta. Por ser ano eleitoral, todas as grandes investigações cessam em função da disputa pela prefeitura, principalmente as que iam atrás do dinheiro sujo. Agora, Baltimore vai decidir entre o atual prefeito, o negro Royce ou o branco Cercetti. As discussões que surgem em torno da questão racial, além do uso político da polícia são mais uma visão sobre os problemas do tráfico de drogas que David Simon nos fornece. No final, a vitória de Cercetti mostra que um novo horizonte se abre para a polícia, pois o novo prefeito quer mostrar serviço.

The Wire consegue nos fornecer ainda outro foco sobre a questão: o momento anterior da ida dos traficantes para as ruas, a sua infância. Durante toda a temporada acompanhamos, ao lado do ex-Major Colvin, um estudo sociológico sobre um grupo de pré-adolescentes que um dia vão se tornar traficantes. Além de discutir a falta de perspectivas sobre o seu futuro e a veneração que as ruas geram pelo poder do tráfico, também vemos a politicagem dentro da própria escola com as notas dos alunos, provando que qualquer sistema público que vive em função de estatísticas para eleger ou reeleger políticos é cruel.

Se o objetivo da Cooperativa era evitar mortes entre os traficantes para não atrair investigação policial, Marlo Stanfield resolve isto nesta quarta temporada de uma forma curiosa: deixando os cadáveres em casas vazias e abandonadas pela cidade. É aqui que o escritor policial Dennis Lehane começa a participar do roteiro da série.

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Na última temporada não há mais escuta, porque o novo prefeito eleito optou por cortar muito da verba da polícia em função da educação. Como estava muito próximo de conseguir pegar Stanfield, Lester e McNulty decidem arriscar a volta da escuta realizando algo extraordinário como no arco de Hamsterdam da terceira temporada. É aqui que novamente há uma quebra do realismo da série, ainda que tentando manter o máximo de plausibilidade para o espectador.

Esta quinta temporada opta por mostrar agora um dos últimos ângulos que faltava: a mídia. Agora a redação do Baltimore Sun entra em destaque para fornecer novos debates sobre o tráfico que só enriquecem a discussão, além de dar mais sustentação ao evento curioso que ocorre nesta última parte. Este evento, inclusive, acaba dando um final digno para a série, e vemos como terminou a história de cada personagem.

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O Major ‘Bunny’ Colvin, interpretado por Robert Wisdom, responsável por Hamsterdam

Uma característica é a presença maciça de atores negros na série. Baltimore, como é dito algumas vezes durante os episódios, é uma cidade americana com 75% da população afro-descendente. Além de conferir mais realismo, felizmente não há a utilização pelo autor de premissas com enfoque racial. O que existe é simplesmente uma adequação ao real: em uma cidade onde a maioria da população pertence a uma etnia, esta mesma etnia domina todas as formas de representação social. Existem detetives, chefes de polícia, traficantes, advogados, repórteres, políticos e professores negros e brancos. É diferente de uma certa novela brasileira ambientada na cidade de São Paulo em que boa parte da população é negra, mas no hospital só há médicos brancos por “decisão artística”, porém, quando um casal gay decide adotar um menino cuja a mãe morreu por causa de crack, ela é negra.

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A redação do Baltimore Sun, retratada na quinta temporada

Diferente de Breaking Bad, que apresentou vários episódios muito bem dirigidos e fotografados, com câmeras POV e ótimas decupagens, o principal em The Wire é o roteiro, e tudo acaba ficando em segundo plano, desde a edição e a fotografia, até o som e a direção. A direção, inclusive, é padronizada, com planos médios, americanos e closes comuns, que não acrescentam muito na dramaticidade da série. O enquadramento pode causar estranheza nas televisões de tela plana de hoje em dia, já que a série usou o tempo todo o 4 x 3 padrão das TVs de tubo da época. Entretanto, o roteiro não é igual a The Sopranos, que inovou ao criar situações cotidianas das mais variadas possíveis para os mafiosos, ou Deadwood que permitiu a reconstrução de personagens históricos no velho oeste, o diferencial em The Wire é primar pelo realismo. E o realismo na série é tanto que algumas vezes chega a quebrar o clímax construído nos episódios anteriores, se distanciando assim de uma dramaturgia tradicional como Breaking Bad ou Dexter. David Simon, inclusive, era conhecido como “non-fiction man” na HBO por reclamar que algumas situações se distanciavam da realidade por causa da dramaturgia.

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Outra marca da série são as epígrafes no início de cada episódio

O que também ajuda a manter o realismo na série é a falta de música. Só a abertura e os créditos finais são musicados. Outro momento em que aparece música são nos clipes no final dos episódios que fecham cada temporada, dando um resumo visual do que aconteceu. Sobre a falta de música na série tem uma discussão interessante aqui.

Todas as entradas da série, que mudavam a cada temporada

A atuação em The Wire é outro ponto forte da série. Como não é dramaturgia tradicional, os atores estão mais soltos com pouca ou nenhuma marcação de cena, e já que a ideia de David Simon é primar pelo realismo, o improviso se torna praticamente uma regra para criar a mise-en-scene nas locações. Michael K. Williams cria o melhor personagem da série, Omar Little; Idris Elba encarna de forma fantástica o estrategista Stringer Bell; Dominic West é o detetive caótico descendente de irlandeses Jimmy McNulty; Wendell Pierce atua magistralmente como o detetive ‘Bunk‘ Moreland, seu melhor amigo; Clarke Peters interpreta a mente por trás da Major Crimes Unit Lester Freamon; Wood Harris personifica o traficante Avon Barksdale; Sonja Sohn se torna a detetive ‘Kima’ Greggs; Andre Royo é o viciado Bubbles, outro ótimo personagem; Lance Reddick vive o tenente Cedric Daniels; Deirdre Lovejoy é a assistente da promotoria Rhonda Pearlman; Jim True-Frost interpreta o detetive e professor maluco Roland ‘Prez’ Pryzbylewski; Hassan Johnson se torna um dos tenentes de Avon, Wee-Bee; Lawrence Gilliard Jr é o sobrinho maluco D’Angelo Barksdale; J.D. Williams como Bodie, um dos seus soldados; Chris Bauer dá vida ao líder sindical Frank Sobotka; James Ransone é Chester ‘Ziggy’ Sobotka, seu filho porra-louca; Pablo Schreiber vive Nick Sobotka, seu sobrinho e também um dos estivadores; o limitado Jamie Hector é o traficante sedento por poder Marlo Stanfield; Gbenga Akinnagbe vira Chris Partlow, seu braço direito; Felicia Person é Snoop, o outro braço direito de Marlo; Robert Chew interpretou o traficante Proposition ‘Prop’ Joe; Anwan Glover como o tenente do tráfico ‘Slim’ Charles; Glynn Turman é o prefeito Clarence Royce; Aiden Gillen, o mindinho de Game of Thrones, magistralmente interpreta o vereador Thomas Cercetti; Frankie Faison dá show quando encarna o comissário Ervin Burell; John Doman vive o chefe de polícia Bill Rawls; Al Brown é o Major Valchek; Tristan Wilds é Michael Lee, a criança que mais se destaca da quarta temporada; Jarmaine Crawford se torna Duquan, um dos seus melhores amigos; Maestro Harell vive Randy Wagstaff; Julito McCullum é Namond Brice, filho de Wee-Bee e outra criança que também se destaca; Robert Wisdom dá vida ao controverso Major ‘Bunny’ Colvin; Domenick Lombardozzi encarna Herc; Seth Gilliam é o detetive Carver, seu parceiro na polícia; Reg Cathey como Norman, o assistente de Cercetti; Clark Johnson, que dirigiu alguns episódios da série, é o editor do Baltimore Sun, Gus Haynes; Thomas McCarthy encarna o repórter ambicioso e atrapalhado Scott Templeton; David Costabile, o Gale Boetticher de Breaking Bad, é Thomas Blebanow, editor chefe do Baltimore Sun. Ainda vale uma menção a Isiah Whitlock, que compôs o Senador Clay ‘Sheeeet’ Davis; o rapper Method Man que deu vida ao traficante Cheese, sobrinho de Proposition Joe; além de Michael Kostroff, que se tornou Maurice Levy, o advogado preferido dos traficantes.

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Uma das melhores definições para os personagens da série

The Wire merece ser vista, não só porque se encontra no distinto grupo das séries que revolucionaram a televisão americana moderna, mas também para quem quiser ver uma boa história contada de forma magistral. Para aqueles consumidores que sempre criticam clichês e a estrutura narrativa, o realismo da série é outro incentivo. Quem quiser também pode se aventurar pela wiki da série.

Texto de autoria de Pablo Grilo.