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Review | Todo Mundo Odeia o Chris

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Entre 2005 e 2009, foi veiculada nas emissoras The CW Television Network e United Paramount Network a série Todo Mundo Odeia o Chris, produzida por Ali Leroi e Chris Rock, baseada é claro na vivência infantil e adolescente  de Rock. O seriado teve quatro temporadas e começa em 1982, com uma narração estilizada feita pelo próprio ator e comediante, em um tom meio confessional, uma espécie de mockumentário misturado com comedia de situação, obviamente sem as claques de risadas. O pequeno Chris é feito por Tyler James Williams, que quase foi recusado pelo fato de Chris Rock achar que ele era bonitinho demais para ser odiado.

A infância de Rock e o período retratada na série seria de 1978 até 84, e não 82 até  1987, o intuito seria o de brincar com os clichês e referencias aos anos oitenta, que era a época preferida do autor, além de claro, haver a intenção de se distanciar de outro programa, Thats 70 Show. Já no piloto a metalinguagem e o assumir da quarta parede já são bem presentes, e isso permearia todos os 88 episódios e ajudariam a formar a identidade do seriado.

Todo Mundo Odeia o Chris foi transmitido no Brasil pela Record, e suas reprises marcaram muito o público brasileiro, ao ponto de boa parte dos fãs encherem as redes sociais de Tyler James Williams com frases típicas da dublagem, como “o carinha que mora ali” ou “cara, ela ta tão na sua”, frases ditas pelo marginal Jerome (feita pelo rapper Kevontay Jackson) e por seu melhor amigo Greg (Vincent Martella).Todos esses personagens são parcialmente baseados em gente de verdade, amigos e conhecidos que cercaram a vida de Rock, e boa parte da simpatia que os espectadores dedicam a serie.

Os cenários diferentes – mesmo quase todos os momentos se passando ou em Bed Stuy ou nos limitados lugares onde um rapaz de 12 anos pode ir -  servem bem a poder viajar para outros estilos de comedia, no Colégio Corleone por exemplo há alem de piadas com as famílias italianas de O Poderoso Chefão (outras escolas são chamadas Tattaglia e Barzini, famílias rivais na história de Mario Puzo) , há também a chance de brincar com as gangues e estereótipos, não só os raciais, como os das tribos dos filmes juvenis, como Grease, Porkys etc.

Há também um sem número de brincadeiras com clichês esportivos, como a falta de sorte do time de basquete New York Knics, que não ganham a NBA desde os anos 70, e também do Los Angeles Dodgers, o time de Baseball de Julius (Terry Crews) que na época, vivia perdendo para New York Mets, que por sua vez, tinha como fã o irmão mais novo, Drew (Tequan Richmond). O núcleo familiar aliás tinha características próprias, o pai era pão duro e fazia graça com isso o tempo inteiro (além de trabalhar muito, o tempo todo), a mãe Rochelle (Tishina Arnold) é exagerada, temperamental e hilária, Tonya (Imani Hakim) é mimada e de gênio insuportável mas ainda assim se preocupa demais com os seus, e Drew é sortudo e se dá bem com tudo.

Chris passa quase todo o seriado ralando muito mais que a maioria das pessoas - sejam brancas ou negras -  para ter coisas básicas, como ter um carro ou dinheiro. O sucesso financeiro só viria com ele adulto, quando se tornaria um comediante  famoso. Dentro do stand up comedy do próprio, ele vive brincando com o fato de que sua mansão tem como vizinho um dentista branco, e que ele é o único negro da vizinhança, aparentemente historias de garotos pobres e que precisam servir sempre a todos vende bem, assim como historias de superação, embora o seriado fuja completamente dessa pecha de auto ajuda ou de moralismos baratos.

Os números exagerados e metafóricos são uma boa aliteração do tom também exagerado de Rochelle, e isso abre possibilidade para discutir as dificuldades do narrador com as mulheres,  para Rock, entende-las era tão difícil que era melhor exagerar nos números teatrais, incluindo ai imaginações sobre atitudes até dos homens, todo o agir imaginativo era exagerado propositalmente, para chocar e fazer rir, imitando os exageros das falas femininas.

É engraçado como sempre que Chris e seus irmãos matam aula, seus pais acabam sabendo e boa parte das piadas infantis do programa se baseiam nisso, na vista grossa que pais em alguns momentos fazem sobre a rotina de seus filhos se equilibrando com outros momentos onde a super proteção fala mais alto. As relações familiares são retratadas, há carinho e cuidado, mas quase sempre não há afeto ou demonstrações muito explicitas dessas sensações, quase não há abraço, beijos, e sim muitas lições comportamentais. Mas mesmo vendo pai e filho juntos,, há ali uma demonstração de cuidado bem forte. Os pais de Chris tem a ilusão de que ele tem maiores dotes de educação e sabedoria, só por conta de estudar numa escola mais chique, onde era o único negro, ao menos nas três primeiras temporadas, tirando uma exceção ou outra.

É engraçado como o personagem lida com bullying, e esse é um tema recorrente na série, seja com o Caruso de Travis T. Flory, ou em outros tantos momentos, que lidam com o racismo, normalmente de maneira leve, mas sem ignorar a gravidade desse tipo de atitude. A forma como se imitam as comédias blackxploitation, com todo o elenco negro fazendo graça  se valendo do carisma típico dos guetos nova iorquinos ajuda tanto na forma de contar a historia de Rock como um autentico produto feito por e para negros, como facilita a inserção da metalinguagem. A imaginação do humorista e seus exageros casam bem como parte dos seus números humorísticos, tudo isso lidando bem com o pensamento normalmente lúdico de um garoto pré adolescente, que mesmo sendo responsável por muita coisa, ainda é jovem, e a forma tangível como esse conjunto de emoções é retratado é muito curioso.

Muito se fala da baixa audiência como justificativa para o fim da série, e de um possível aviso da emissora sobre o cancelamento da mesmo, que moveu Leroi, Rock e o restante  da produção a decidirem por dar uma despedida aos personagens. É nesse ínterim que o fanatismo de Chris Rock por produtos sobre a máfia impera, pois o 88º capitulo brinca com o final de Família Soprano, com a família toda reunida, esperando o teste final de Chris no supletivo, já que foi reprovado por atrasos antes, assim como foi a tensão de Tony no último capitulo da serie da HBO. Há muita discussão de porque se parou ali,entre elas, o fato de que foi em 1988 que o pai de Rock faleceu, e que seria pesado tornar o Julius de Crews em um morto, e consequentemente mudar todos os rumos familiares para um momento de sucesso do narrador e inspirador da historia.

Para além até da teoria de que um dos figurantes que estão na lanchonete do momento derradeira de Todo Mundo Odeia o Chris (fala-se que ele poderia ser um caça talentos), o programa tem seu fim quando os personagens estão muito bem alinhados, com coadjuvantes que funcionam e agregam a mitologia estabelecida no Broklyn e em Bed Stuy, e com roteiros que são incisivos nas questões de preconceitos raciais e econômicos, sem descuidar claro dos roteiros ácidos e repletos de graça e leveza, com representatividade em alta e sem preocupações meramente panfletárias. Esse equilíbrio, o programa conseguiu e isso é um evento difícil de atingir.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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