Review | True Detective – 1ª Temporada

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A escritora policial Dona Leon em seu primeiro romance, Morte No Teatro La Fenice, definiu semelhanças entre a função de um detetive investigador e a de um médico legista. Ambos partiriam de um mesmo elemento em comum – o crime – mas se movimentariam contrariamente. O médico legista, ao examinar o corpo, dá continuidade à ação natural. O exame à procura de indícios criminológicos é feito com base no cadáver, quando há um, ou em outras evidências forenses passíveis de análise. Em contrapartida, o detetive é aquele que parte do crime para resgatar momentos anteriores, reconstituindo a história com o máximo de indícios que a cena fornece e, a partir da construção do passado, busca a verdade.

O gênero policial é um estilo narrativo que ainda resiste às hibridizações ou fusões com outros. Ainda que, no decorrer na história, muitos autores produziram narrativas diferenciadas, o princípio fundamental permanece imutável. Há um crime ou outro elemento transgressor e uma investigação que busca elucidá-lo. Atividade que se inicia na reconstrução de fatos, no retorno a momentos anteriores, como ponderou Leon.

Há uma semana, a série True Detective encerrou sua primeira curta temporada. Manter o registro temporal é interessante para observarmos que sete dias foram suficientes para que uma quantidade considerável de informações, teorias e curiosidades sobre a série surgisse na rede a respeito de sua trama. São elementos que reforçam o bom enredo, teorizando-se sobre sua mitologia.

Desde sua criação, qualquer seriado da marca HBO é formatado de maneira diferenciada, justificando o conteúdo inédito que se paga para adquirir o canal. Normalmente, suas séries são apresentadas com uma quantidade menor de episódios, filmados e finalizados meses antes da estréia. Uma confiança genuína no trabalho competente da equipe e dos produtores. Afinal, como afirma o slogan, não é televisão, é HBO.

Além do “estofo” do canal, capaz de sempre atender à expectativa do público, dois nomes conhecidos no cenário cinematográfico são os produtores executivos da série. Atores que estão na indústria há longo tempo, conquistaram papéis importantes e buscam na televisão mais um motivo para fundamentar sua carreira numa época em que o cinema parece sofrer uma evasão de qualidade.

Ainda hoje, a personagem do detetive é uma das representações românticas mais tradicionalistas. Um dos poucos heróis que resistiram ao tempo e não perderam o viço moral ou o senso de justiça – ainda que o noir e o hard boiled tenham distorcido esta linha com vigor. Escolher o gênero policial como estilo narrativo é um trunfo que tem riqueza dramática e agrada aos espectadores.

Os detetives são personagens que vivem como resistência de um mundo caduco. Valendo-se do aprendizado da corporação e de uma sabedoria intrínseca para desvendar crimes, procuram restabelecer a balança entre o bem e o mal, devotados de uma causa invisível. O senso de justiça ou moral referido anteriormente faz parte de sua conduta, como se ser um agente da lei fosse maior do que uma profissão.  Mas uma vocação amaldiçoada, próxima de um vício difícil de ser largado. Uma obrigação inerente por desejar a justiça, ainda mais quando se reconhece em si habilidades para tal.

São personagens que deixam a vida de lado em detrimento da profissão, vivem à margem de si mesmas e da família, porém respeitando o que consideram justo ou moral. Dentro de um universo desestruturado, a figura policial permanece como resistência romântica. A última guarda antes da falência da lei. Figuras dedicadas a uma causa maior.

Como bastiões desta causa, surgem as duas personagens centrais da trama. As duplas de detetives são um dos recursos mais tradicionais da narrativa policial pela capacidade de dar ao público dois personagens, diferentes entre si, que fazem parte de um único conjunto necessário. Sem dúvida, Sherlock Holmes e John H. Watson formam a dupla mais icônica que se completa em inteligência e emoção, respectivamente. Tal recurso nunca foi abandonado e ainda está presente em obras contemporâneas, como a de Denis Lehane, e os detetives Patrick Kenzie e Angie Gennaro; ou de Jeffery Deaver, com o paralítico Lincoln Rhyme e Amelia Donaghy.

Na série, Martin “Marty” Hart (Woody Harrelson) representa o policial tradicional que acredita em sua vocação e no senso de fazer o bem, tendo a religião como base moral. Crente na prosperidade da família, o detetive é o arquétipo comum que degusta rosquinhas quando chega ao trabalho, o que transforma a personagem de Rust Cohle (Matthew McConaughey) em um exemplo ainda mais estranho.

Mesmo que se evite tal afirmação, a espinha dorsal da série está em McConaughey. Cabe a ele desenvolver uma personagem acentuada que cause estranheza, simpatia e erudição ao mesmo tempo. Rust entra na lista de policiais enigmáticos da ficção, um homem mergulhado no niilismo e agarrado a uma percepção racional da vida. Um severo agente da lei que reconhece a vilania do mundo e ainda disposto a lutar contra o mal. Rust é a citada representação romântica policialesca. Equilibra sua profissão entre uma intuição natural e a sensação de carregar um fardo nas costas. É devido a sua obsessão pela história dos assassinatos que chegamos ao desfecho da trama.

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Os papéis fornecidos a Harrelson e McConaughey são duplamente ingratos. Sem um personagem representando com veracidade um policial comum como Marty, Rust perderia sua credibilidade. Parte da aceitação do público em compreender Rust vem do julgamento de Marty que, mesmo contra a corporação, confia na índole do excêntrico detetive texano. Ingrediente que fundamenta a antítese paradoxal e fundamental da trama.

Como policial comum, o polo dramático de Marty situa-se na disfunção entre as crenças que profere e os atos que comete, díspares entre si. Já Rust, um tipo que assusta e conquista, demonstra em uma personalidade extremada seu desgosto com a escuridão do mundo. A parceria produz o inevitável laço em equilíbrio: o tradicional em comum em contraponto com o obsessivo intuitivo. Uma combinação que não é inédita, mas sempre se destaca quando bem fundamentada.

A trama de True Detective é apresentada em três momentos temporais diferentes seguindo uma mesma linha narrativa. O período, notado pelo espectador no decorrer dos oito episódios, inicia-se em 2012 com depoimentos dos dois detetives – brigados – sobre uma investigação aberta a partir da descoberta de uma morte encenada (com provável intenção ritualística) de uma prostituta em uma plantação na Luisiana, em 1995. Em seguida, a série avança temporalmente para 2002, revelando o motivo que desencadeou a briga dos policiais e dando prosseguimento, dez anos depois, ao fim de parte da investigação.

Ao produzir em tempos distintos dois polos narrativos, criam-se dois focos de luz em uma escuridão narrativa iluminada – e consumida pelo público – pouco a pouco, no decorrer de cada episódio. Um recurso que aumenta o interesse do público, ávido por saber por que as personagens parecem tão diferentes das décadas passadas, e fornece ao roteirista e criador da série, Nic Pizzollato, maior manejo para manipular a história e apresentar somente o que deseja, promovendo os ganchos tradicionais vistos em diversas narrativas.

Além dos polos narrativos iluminando épocas específicas, ao fazer uso da memória como recurso, a trama sofre modificações do natural desgaste da lembrança. Afinal, a memória não é registrada da mesma maneira linear que se mede o tempo, mas construída por acontecimentos específicos, guardados em partes diferentes do cérebro – muitas vezes inconscientemente – e que podem trazer à tona lembranças que não necessariamente estavam ligadas. Dessa maneira, a história ganha maior obscuridade e elipse, intensificando o suspense, mesmo que o público acredite que tais personagens estão dizendo a verdade sobre o que investigaram.

A escolha de uma morte brutal para abrir a série é outro recurso que conquista o público. Ainda que, para ser eficiente, chocar e ser significativa para o argumento, deve ser feita com cuidado. Afinal, desde a retomada das séries americanas, muitas histórias se debruçaram na solução de crimes. A morte como início chama a atenção inicial, mas só se mantém com boa condução narrativa. No entanto, ela é feita de maneira exemplar, focando-se em um elemento que desperta curiosidade: o medo no ser humano. O contrato realista estabelecido permite ao público supor, desde o princípio, que a história terá uma explicação plausível e que até mesmo os elementos mais incômodos sejam explicados.

Sob tais aspectos mencionados, True Detective não se encaixaria como uma série brilhante se pressupormos que a palavra carrega uma inventividade inédita de alguma maneira. O público assíduo do gênero reconhecerá diversos recursos utilizados em cena. Porém, podemos afirmar que a série é exemplar, já que trabalha habilmente os recursos e clichês do gênero, dosando-os com cuidado para produzir uma história eficiente.

Pizzolato trabalha com três pontos de tensão para fundamentar sua narrativa. Três elementos que passam pelo público, intensificando o teor temático: o primeiro está nos crimes brutais, assustadores por sua natureza agressiva; o segundo elemento vem da violência contra a criança e a mulher, fato que não só se reflete no mundo real, como também faz o público imaginar a perversa continuidade criminosa do assassino do referido crime brutal; por fim, os objetos e signos denotam uma seita. Uma tríade plausível que faz com que o horror cresça no público.

A escolha da sulista Luisiana como palco dos crimes fornece o ambiente certo para desenvolver plenamente a tríade . A região é conhecida pelos elementos culturais diferenciados, o que deixa plausível um possível grupo ritualista. Devido a uma economia dedicada à agricultura, há muito espaço natural, deslocando a população e dando-nos a impressão de um local ainda não completamente civilizado em que a natureza engole os avanços humanos. Uma atmosfera obscura que potencializa o crime e dificulta a investigação.

Ao iniciar a trama na década de 90, em uma época sem muitos elementos forenses, vemos uma dupla de detetives que produz o caso com o próprio suor. Uma investigação à moda antiga em que policiais sentavam-se em salas gigantescas de arquivo à procura de evidências, e iam de casa em casa tentando identificar suspeitos e encontrar os fios que teciam o caso. Ao discorrer sua história por quase vinte anos, observamos como as pistas se perdem com o tempo e encontrá-las se torna um exercício de paciência, como um quebra-cabeça que nunca será inteiramente finalizado. As situações vão se recriando aos poucos e definindo os motivos que trouxeram a queda das personagens, muitos anos depois.

Com tais elementos apresentados até então, é perceptível que uma trama policial não siga as mesmas regras de um drama tradicional. Se muitas séries finalizam sua temporada fechando muitas pontas, às vezes munidos de um final feliz, narrativas policiais encerram-se na medida do possível. Isso é reflexo da funcionalidade das investigações que nem sempre encontram provas suficientes para acusar todos os envolvidos. Além disso, o decorrer natural do tempo que condensa lembranças deixa mortos pelo caminho e destrói arquivos e provas. Cabe ao público considerar se os elementos apresentados para a conclusão são falhos ou espaços em branco a serem preenchidos.

Os cartazes que divulgaram a série apresentam uma citação de que o homem é a mais cruel das criaturas. Durante a narrativa de oito episódios, o ambiente e sua trama sufocam pela agressividade real. Ecoa a natureza cruel e primitiva dos homens, maldição que toca qualquer homem em algum momento da vida. Como Marty destruindo a família por causa de prazeres carnais e Rust mencionando, de maneira lacunar, o acidente da filha, dando-nos a inferência de que, talvez, por conta de seu histórico de drogas e bebida, ele mesmo possa ter causado a destruição da família. Retratos de um gérmen cruel da humanidade, impossível de ser evitado, mas capaz de ser combatido.

Sobre o elemento sobrenatural ou ritualístico da série, Pizzollato novamente recorre à tradição policial para justificá-la. Criado pelo escritor Ambroise Bierce, Carcosa é uma antiga cidade destruída e misteriosa presente em um de seus contos de horror. A mesma cidade descrita por Robert W. Chambers, leitor de Bierce, no livro de contos O Rei Amarelo, em sintonia com a série. Nestas histórias, Carcosa é uma cidade amaldiçoada e, embora inferida muitas vezes como um espaço não pertencente à Terra, tornou-se sinônimo de um lugar desolado que carrega uma mística negativa, sendo citada em diversas outras obras ao lado do Rei Amarelo – a título de curiosidade, Carcosa também é nome de duas editoras voltadas para histórias de horror .

A Carcosa de True Detective se transforma em um templo de adoração. Um local em que residem os mortos sacrificados e seus despojos, sendo a figura central uma estátua feita de troncos de árvores, caveiras humanas e mantos amarelos. Apoiado na realidade, não há explicação sobrenatural, exceto a própria natureza humana.

Após o desfecho do crime, a personagem de Rust se abre pela primeira vez ao público e ao próprio amigo, Marty, desfecho definitivo que pondera explicitamente a funcionalidade da narrativa policial e do personagem detetive romântico. A luta eterna do bem contra o mal. A crença de que a luz, palavras de Rust, há muito ganha da escuridão.

Em seu audacioso projeto de contar uma nova história a cada temporada, Pizzolato produz uma espécie de antologia policial que vem das tradicionais fontes do gênero e se traduz em uma nova série com uma excelente primeira temporada. Ao finalizar o primeiro ano com a câmera registrando a vastidão do céu escuro em contraponto com as estrelas, o público estava conquistado e, sem dúvida, colocará a série como uma das melhores da temporada. Trabalho em dobro para o autor que, em seu segundo ano, terá de criar uma narrativa à altura da primeira e conceber personagens que nos façam esquecer, mesmo momentaneamente, a ótima dupla formada por Rust e Marty.