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Review | Vinland Saga – 1ª Temporada

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Na virada do primeiro para o segundo milênio, os dinamarqueses guerreavam contra os ingleses pelas terras da Grã-Bretanha, durante a expansão viking. Baseado nos relatos históricos e nas personalidades que figuraram toda a guerra política e colonização, o mangaká Makoto Yukimura tirou sua licença poética para escrever Vinland Saga, uma grande aventura sobre os guerreiros nórdicos, misturando todo o misticismo envolvido com a cultura viking. Agora em 2019, o estúdio Wit (de Shingeki no Kyojin) ficou encarregado pela animação.

O anime começa com Thors, comandante dos lendários Jomsvikings, tendo uma visão num campo florido com sua esposa Helga segurando sua filha Ylva, mudando de repente para uma batalha naval. Thors lidera os guerreiros de elite em nome de Dinamarca, junto ao bárbaro Thorkell, o Alto. A batalha destaca imediatamente o estilo de ação da animação, como movimentos de luta sobre-humanos e a ultra violência, onde Thors salta de um navio a outro de uma distância enorme e Thorkell derruba um mastro com seu machado ao mesmo tempo em que estraçalha diversos adversários. Ao final da batalha, Thors, após afundar no mar, aparece numa praia, desertando do exército.

15 anos depois, a história se desloca para a Islândia, com Thors, Helga, Ylva e agora também Thorfinn, o pequeno protagonista e segundo filho de Thors. Na aldeia, o comerciante explorador Leif Ericson fala sobre seus contos, fantasiando os seus trajetos em busca de mercadorias para as crianças da vila como grandes aventuras, alimentando a imaginação de Thorfinn, que planeja um dia ser um guerreiro que irá navegar por todo o mar em busca de Vinland, o novo mundo de clima quente, que Leif diz ter descoberto e batizado, onde a grama cobre toda a terra e os frutos crescem nas árvores em abundância. As outras crianças, por conta da cultura nórdica e do que é passado pelos pais, o contestam e dizem que nada pode ultrapassar e que Leif não é um guerreiro e não há como ele ter todos esses méritos. O comerciante conta que o cocar que ele usa contando suas aventuras, feito de plumas coloridas, é um presente dado pelos nativos de Vinland, dado pelos povos originários da América do Norte, e que mesmo sem lutar, suas viagens o fazem um verdadeiro guerreiro.

A questão de ser ou não um guerreiro é o dilema sobre a violência de Vinland Saga. Thors abandona sua liderança e vida de guerras para ter uma vida pacata, sem sangue, sem pecados, vivendo como fazendeiro, isso faz Ylva o questionar o motivo deles não ter um escravo, caso comum durante as colonizações, que seria mão-de-obra para os trabalhos pesados na ilha gelada que habitam. Thors explica que a família dele não irá fazer isso, causando grande estranheza à filha, sem entender toda a compaixão do pai por algo que ela e toda comunidade acham comum. Em certo momento, Thors prova a honra do seu novo estilo de vida ao salvar um escravo e oferecer grande parte da sua criação de ovelhas, mesmo com o homem estando à beira da morte, mostrando que o seu ideal de vida é um mundo sem pecados, sem escravos e sem sofrimento, com fartura para que ninguém mais passe fome, imaginando Vinland como um lugar para conseguir esse sonho.

Dias depois, Thors é descoberto pelo seu antigo companheiro e novo líder dos Jomsvikings, Floki, e acaba sendo convocado para uma nova batalha. Thors convoca jovens da sua aldeia e parte com Leif, navegando para se juntar aos guerreiros de elite. Thorfinn acaba embarcando escondido para a viagem que mudaria todo o destino dele e do seu pai. O barco deles então é emboscado pelo excêntrico bando de Askeladd, um misterioso pirata que vive de saques e pagamentos por sua força de batalha. Tanto Thorfinn quanto Askeladd testemunham o valor de Thors, a verdadeira essência de um guerreiro, que num ato final, salva a vida dos seus encarregados ao sofrer a emboscada. Os sobreviventes embarcam de volta a Islândia, menos Thorfinn permanece com a tripulação inimiga e jura matar o pirata a qualquer custo, deixando tudo para trás.

O terço inicial da obra é uma introdução da trama na visão por Thorfinn, que cresce em meio a toda desgraça das guerras, sobrevivendo ao caos saqueando, devastando vilas, tornando-se um assassino cruel e frio, tudo que seu pai decidiu abandonar e repudiar. Thorfinn vive no meio dos carniceiros que vivem dessa realidade, pilhando e saqueando junto a Askeladd, busca sempre desafiá-lo para duelos após suas missões, como sua recompensa em troca da sua incrível habilidade e pela busca por vingança. A cada duelo, Askeladd demonstra o que aprendeu na sua vida e do que viu de humano no pai do protagonista, colaborando na motivação do personagem.

Mais de uma década após a emboscada de Askeladd, o pirata e seu bando resolvem prestar serviços ao Rei Sweyn da Dinamarca, nas disputas de terras entre os vikings e os ingleses. O centro político que move as peças da história inicia na metade da história, a partir do encontro do bando de Askeladd com Thorkell, agora do lado da Inglaterra. As apostas de cada personagem são exploradas quando começa a perseguição pelo príncipe Canute, filho do Rei Sweyn, um jovem tímido de característica delicada, que vira alvo de facções organizadas numa tentativa de derrubar o reinado da Dinamarca e conseguir poder.

A narrativa segue em reviravoltas que são estopim para uma nova batalha, seja naval ou em terra, mas que continua sendo montada de forma empolgante e que leve ao um novo ponto na trama. O efeito de causa e consequência é nítido nas tramas, seja na discussão moral sobre o que é ser bom e mau e sobre pecado e barbárie, do motivo de haver massacres sem justificativa e de como a religião reprime os anseios no modo de viver das pessoas. A causa e consequência faz também que as lutas não sejam vazias e nem ocupem tempo de tela por nada.

O traço limpo da caracterização gráfica combinando o 2D simulado em 3D, faz das batalhas de Vinland Saga algo dinâmico, sem poluição visual e sem cansaço, mesclando os conceitos de força e violência, resultando em lutas brutais no momento certo. O diretor Shuuhei Yubata repete o feito de Shingeki no Kyojin, agora na animação dos vikings, sabendo fazer a ação funcionar de acordo com desenrolar da toda trama, aqui a partir do trajetória do jogo político.

As crenças dos personagens definem as suas motivações. Thorfinn idealiza a sua vingança em primeiro lugar, mas sonha com que Vinland um dia seja sua parada. Thorkell imagina-se indo para Valhalla, o paraíso viking, seguindo as divindades nórdicas, como um guerreiro deve agir na sua concepção, de que as batalhas são fundamentais, afirmando sobre ser sempre o mais forte, e até zomba do temor a Deus que diferem pagãos e cristãos. Askeladd coordena todo seu trajeto com uma astúcia e frieza imensas, fazendo de tudo para cumprir seu objetivo, idealizando a figura do herói que salvou seus ancestrais.

Canute se destaca como a maior evolução de personagem, revertendo sua crença cristã, ensinada desde criança por seu protetor Ragnar e seu professor e padre Willibald, mostrando sua convicção de candidato a monarca e de como um governante deve se portar, deixando sua fragilidade. A sua metamorfose ocorre numa cena que explora todo o ensinamento do padre e sua concepção de amor, mesclando as sensações com o uso da fotografia e a ambientação das regiões frias britânicas.

Thorfinn, Canute e Askeladd compõem um complicado, mas interessante trio principal. O protagonista odeia o seu líder pirata e ao mesmo tempo o admira, lhe colocando como alguém sem rumo, mas que no fundo procura uma resposta para algo além da retaliação. Canute interage com Thorfinn como um indivíduo oposto, alguém sensível, porém totalmente frio e convicto do seu objetivo final e encontra em Askeladd, a figura para ter como conselheiro. Askeladd antagoniza de um modo peculiar, algo que o torna cativante e crível, defendendo seus preceitos e sua origem. Todos seus companheiros de anos se questionam sobre o que Askeladd quer representar. Ele faz de Canute seu senhor em busca de proteger tudo que mais ama e se afeiçoa com a figura de Thorfinn, mostrando a sua condolência por Thors e sua essência como guerreiro.

Os papéis de Thorfinn e Askeladd diferem da comum dualidade de bem e mal, fazendo com que o primeiro, que no decorrer da série e toda a sua construção de personagem pareça vazio, tem sua queda para uma projeção futura, e o segundo, após todo o mistério, finaliza a série num momento catártico. O último episodio, com o título sugestivo de “FIM DO PRÓLOGO”, fecha o arco introdutório de Vinland Saga em um trabalho de uma direção excelente. Tensão, sangue e sentimento juntos nos acontecimentos que encaminham Canute, Askeladd e Thorfinn para fins distintos, e move os personagens pelos seus anseios.

Vinland Saga está disponível na Amazon Prime, totalizado em 24 episódios. Ao fim do episódio final, passagens com personagens desconhecidos em lugares diferentes são colocadas, projetando provavelmente uma continuação e também um pequeno teaser foi liberado, terminando com um Thorfinn diferente, com os escritos na tela “esta é a história de um verdadeiro guerreiro”. Nada confirmado ainda, mas essa odisseia nórdica promete muita coisa futuramente.

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Texto de autoria de Wedson Correia.

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