Cinema

[Crítica] A Bruta Flor do Querer

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A Bruta Flor do Querer

Após os curiosos curtas O Capitão Chamava Carlos e A Triste História de Kid Punhetinha, que dá vazão a uma mensagem metalinguística dialogando diretamente com a feitoria de cinema, Andradina Azevedo e Dida Andrada realizam um novo longa-metragem. A Bruta Flor do Querer tem uma estética bastante naturalista, referenciando um estilo típico de cineastas que iniciam suas filmografias promissoras, o que não necessariamente retrata uma realidade de sucesso garantido ao longo deste desenrolar artístico.

Diego (Dida Andrade) é um fillmaker, que vive em crise por trabalhar com vídeos de casamento, depois de acreditar ter um enorme potencial enquanto ainda era aluno da faculdade de cinema. Seus dias são repletos de álcool, uso livre de entorpecentes e decepções amorosas com as poucas mulheres das quais deixa se aproximar. Sua personalidade é autodestrutiva e pessimista, como o perfil básico de grande parte da juventude vigente.

Os dias do protagonista se revezam entre seu trabalho enfadonho e pensamentos sobre as mulheres por quem tem amor platônico. Os 76 minutos de duração são divididos em capítulos, com cada um deles tratando de um período de seu tempo livre, normalmente dialogando de modo bastante popular.

A trilha sonora do filme reúne músicas brasileiras clássicas e tem um papel fundamental na trama, servindo de atalho emocional paras as inseguranças e agruras de Diego. Todo o seu cotidiano é atravessado por situações frustrantes, em que suas paixões não são correspondidas e sua valentia é posta à prova unicamente para fracassar diante de sua amada. O rapaz é completamente impotente, mesmo diante do desejo intenso e puro que ele tem por suas figuras de louvor.

A câmera registra uma São Paulo particular, uma cidade longe dos holofotes do mainstream, mas também distante do subúrbio. São pessoas comuns e sem muitos atrativos físicos ou financeiros, sujeitos que lutam até seus últimos esforços para atingir a auto-aprovação que necessitam, no sentido de conseguir haver dinheiro com o ofício que aprenderam e pelo qual são apaixonados. O drama é verdadeiro e de fácil empatia, mas o desenrolar excessivamente melancólico praticamente impede o espectador de se afeiçoar aos personagens de qualquer outra forma que não seja seguindo o caminho que os realizadores querem.

A transposição de realizadores como atores funciona pouco e, na maioria do tempo de tela, soa preciosista, inclusive a demonstração dos nus. Ao final, do longa, há um artificio metalinguístico que é bastante pessoal e pouco universal, função que talvez faça um sentido maior para quem tem alguma intimidade com os dois cineastas, já que a poesia tencionada acerta pouco, não atingindo essa parcela do público. Apesar do bom começo, A Bruta Flor do Querer soa amador e infantil em quase tudo o que se propõe, piorando demais pela falha em ser um objeto ensaísta.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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