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Crítica | Amor, Drogas e Nova York

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Amor, Drogas e Nova york - poster

Sintetizadores dominam as saídas de áudio enquanto dois jovens sujos se beijam no chão da rua. A garota segura o cigarro. Traga, beija. Surge então um choro que chama atenção para um momento futuro, mas ele não importa. Pelo menos não agora. Não há motivo para pensar adiante. A vida é efêmera, sem esperança. Aproveite enquanto dura. Assim é o cotidiano dos personagens de Amor, Drogas e Nova York. E é importante entender que é só sobre isso que o filme quer tratar.

Ben Safdie e Joshua Safdie (Go Get Some Rosemary) dirigem o filme com roteiro de Joshua Safdie e Ronald Bronstein e baseado no livro autobiográfico de Arielle Holmes, que também é a atriz principal. Escrito a pedido dos irmãos Safdie, depois de a encontrarem na rua e sentirem interesse em sua história, o filme acompanha Haley (Holmes) em seu cotidiano; como lida com sua realidade e os parceiros de sua vida, em especial Ilya, por quem tem um vício no mesmo nível da heroína.

Arielle transpõe sem glamour ou romantização sua vida. É crua. Tão visceral quanto a dos outros personagens, que são também, alguns, colegas de sua vida nas ruas. Sua personagem não apresenta amor próprio, independência. Guia-se pelos outros, trocando de acompanhante para acompanhante em uma desesperada busca por algo que a mantenha ativa. E, assim como outros, não apresenta um arco narrativo de desenvolvimento tradicional, nem deveria. Segue sem pretensão e sem brilho além do produto de seu vício. A obra, por sua vez, não se preocupa em explicar como foram parar ali, quem são os culpados, como melhorar. Não é algo inovador, mas nem por isso se deve deixar de perceber como a presença de alguém que realmente viveu o retratado torna mais coerente e coeso o que ocorre em tela.

A fotografia, portanto, segue um estilo documental de handy-cam e movimentos bruscos. Às vezes afastada e observadora, às vezes muito próxima dos personagens. Próxima o suficiente para que, em tons puxando para cinza, deixe escapar o vazio de cada um dos que observa. Em poucos momentos há realmente cor em tela, mas são eles os mais danosos. Assim como a presença da trilha sonora reminiscente dos anos 80, que foi tratada por Paul Grimstad e Ariel Pink. Ela enche os espaços por entre as massas de realidade. Assim como nos energiza de forma a continuar até a próxima ilha de banalidade.

Apesar de tentar, de certa forma, criar um final satisfatório para os médios 90 minutos de filme, não há fim. Assim como não houve começo. Há somente frações de vidas. Não há lição didática para aprender; epifanias de personagens, ou público. O círculo da vida dos marginalizados é o mesmo sob o sol de Nova York ou de qualquer outro lugar do mundo. É assim. Só Deus sabe o resto.

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Texto de autoria de Leonardo Amaral.

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