Cinema

[Crítica] Amores Urbanos

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Analisar o movimento contemporâneo é sempre uma tarefa difícil. Falta o distanciamento necessário para um estudo mais complexo, assim como falta informações posteriores e definitivas sobre como será essa ou aquela mudança em curso na sociedade. É necessário trabalhar com o que se tem nas mãos, mesmo reconhecendo que a análise pode ser parcial. Afinal, verificar as mudanças em acontecimento requer alta observação do tempo presente. O que se tem como métrica são os movimentos anteriores e a atual situação, são a partir dessas bases que se analisam novas perspectivas. Porém, como analisar uma geração que ainda é afetada pelo presente?

Dirigido e roteirizado por Vera Egito, Amores Urbanos apresenta um trio de amigos que, diante de uma realidade áspera, mantém a união como força e apoio para a vida. São adultos na faixa dos 30 anos que, em reflexo com a sociedade atual, ainda não tem uma concepção profunda da maturidade e do envelhecimento, vivendo como adolescentes tardios sem um senso definitivo de responsabilidade.

Sem estabelecer parâmetros sociológicos sobre essa ou aquela vertente para a crítica, o contemporâneo, em geral, é sempre observado com maior aridez do que momentos anteriores, visto com maior integridade em comparação ao hoje. Sendo assim, as relações, bem como a sociedade, tem sido cada vez mais analisadas de maneira fragmentária como se as instituições estivessem mais deterioradas e, por consequência, os valores e a concepção de cada um. Essa fragmentação é o que destaca a trama.

Em cena, os personagens convivem em um mesmo local, cada um vivendo a sua maneira, mas aliviando as dores pela amizade, diálogos, porres, brigas que são incapazes de diminuir suas próprias misérias. Como se vivessem sem autoconsciência, magnetizando a dor, sem a concepção de que, ao aceitar a maturidade, é possível compreender de maneira mais ampla os problemas da vida.

A frase que se destaca no pôster do longa-metragem se pergunta até quando dura a juventude? Conduzindo o público a analisar tais personagens sobre o limite entre a juventude e o homem adulto. Distante de afirmar que o adulto é um ser completamente maduro e ciente de seus atos, é um fato que a juventude possui urgências diferentes, bem como ações a curto prazo são vistas como positivas, além de que tais atitudes são geralmente realizadas de maneira passional e bruta.

Conforme o público conhece – e analisa – o grupo de três amigos e adentra suas histórias, a trama fornece maior densidade dramática ao compreendermos os limites de cada deles. Nenhum conflito apresentado em cena é tão definitivo como lamenta os personagens, mas falta-lhes a compreensão de que o diálogo e o amadurecimento são vias fundamentais para entender a si próprio. Uma trama que demonstra como hoje se chega aos trinta anos de maneira bem diferente, por exemplo, da geração anterior, sem nenhum senso próprio, nenhum autoconhecimento e pouca expectativa de vida, a mercê de uma existência como se a adolescência e suas paixões fossem revividas para sempre.

Amores Urbanos não é uma obra brilhante sobre o tema, mas acerta a tônica ao apresentar uma geração desfocada por concepção, algo sem brilho e que, aparentemente, não se importa em continuar dessa mesma maneira estagnada.

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Thiago Augusto Corrêa

Apreciador de cinema, literatura, quadrinhos e música. Formado em Letras, escritor e metido a sabichão.
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