Cinema

[Crítica] Através da Sombra

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Quase oito anos depois de executar Os Desafinados, Walter Lima Júnior finalmente retorna a direção de filmes, focando no drama de Nunca (Domingos Montagner), um homem arredo e de espírito livre, que se vê obrigado a tornar-se chefe de família graças a morte de sua irmã, restando a ele a guarda de seus sobrinhos. Logo, ele contrata Laura (Virgínia Cavendish), uma professora que passa a cuidar das crianças, no lugar do homem traumatizado. O longa é baseado no clássico literário A Volta do Parafuso de Henry James.

Ao viajar para a fazenda interiorana onde trabalharia, Laura passa a ter dificuldades de aproximação de Elisa (Mel Maia), que só começa a se abrir de maneira bastante tardia para sua nova cuidadora. A precaução da menina é apenas o primeiro indício do conjunto de eventos estranhos que ocorreriam com Laura e consequentemente com a casa em que trabalharia. Antes da chegada do outro irmão, Antonio (Xande Valois), que está no internato, a professora já acha cômodos completamente abandonados da grande propriedade, sendo o completo inverso da arrumação impecável do restante da casa.

Alucinações e aparições fantasmagóricas acontecem, e a docente tende a desacreditar nisso por ter um pensamento cartesiano e materialista e por ser incrédula diante de manifestações sobrenaturais. O quadro piora quando Antonio já está na casa e passa a praticar o jogo do copo, tornando as manifestações estranhas em ocorrências mais frequentes. É curioso notar a diferença postural da protagonista quando se vê na situação limite de desafiar seu próprio conjunto de crenças, onde transparece nervosismo e intranquilidade, e a segurança com que conduz as aulas que ministra às crianças.

Aos poucos a psique de Laura se deteriora e os detalhes esquisitos passa a ficar mais evidentes, tanto das aparições quanto os outros comportamentos. Quando o filme é analisado em um momento posterior ao seu fim se nota um tratamento não natural do comportamento das crianças, que não dialogam como pessoas que tem a pouca idade que possuem, estabelecendo portanto, desde o início que o universo contemplado naquela fazenda poderia não ser o comum e tangível.

Os últimos momentos de Através da Sombra mostram uma personagem confusa em sua explanação, munida mais de incertezas e incongruências mentais do que da sobriedade que marcava seu caráter quando foi apresentada. A possibilidade de ter que habitar uma dimensão não conhecida mexe com o equilíbrio psicológico de praticamente todos os personagens, pondo em xeque até as tragédias mostradas em tela. Lima Jr. consegue criar um suspense interessante e inventivo, com elementos de um cinema de gênero pouco usual em produtos nacionais, com defeito evidentes mas ainda contando com uma narrativa bastante moderna e alinhada com o cinema atual.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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