Cinema

[Crítica] Austerlitz

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austelitz

Experimento de Sergei Loznitsa, Austerlitz tem uma proposta e premissa interessantes, mas com uma execução bastante calcada no preciosismo. O documentário de aproximadamente 90 minutos registra os memorias do holocausto abertos ao público, que recebem muitos visitantes todos os dias, a fim de não esquecer os horrores ali ocorridos e que tais atrocidades não se repitam.

O diretor de Minha Felicidade e Na Neblina acaba por denunciar um fato terrível, e a culpa por isso é compartilhada. A câmera do diretor se mantém estática em alguns pontos de um antigo campo de concentração que está sempre cheio de visitantes. Ao mesmo tempo em que uma minoria de pessoas horrorizadas com o ocorrido naquele lugar e que mal conseguem manter o equilíbrio emocional ali, há também uma maioria esmagadora de visitantes que tiram selfies perto dos objetos de tortura, tornando a dor alheia do passado judeu em um espetáculo turístico, banalizando por completo todo esse sofrimento.

Esse holocausto comercial estabelecido no longa tem um caráter de desrespeito total com a memória do local e dos que lá sofreram. Ao mesmo tempo em que os funcionários tentam mostrar aos visitantes que ali muitos tiveram suas vidas encerradas ou destruídas, há uma clara alienação e ignorância por parte de quem por lá passa. O próprio fato de cobrar ingresso para a entrada neste local soa hipócrita, diante dos discursos inflamados dos guias, que não estão lá necessariamente para alertar sobre os causos, e sim para ser o norte turístico dos pagantes.

A questão central é que Loznitsa registra toda essa atrocidade, mas não faz qualquer julgamento com sua câmera. Esse formato funcionaria perfeitamente em um filme curta ou média metragem, mas em um longa-documentário sua escolha não faz muito sentido dentro da proposta apresentada. Sua função de denúncia se esvai, sobrando um tom de banalização, ainda que em menor escala. Ainda assim, Austerlitz não é longo, mas é moroso e exige paciência de quem o vê, sendo bem desnecessário sua duração, apesar de seus 90 minutos de duração.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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