Cinema

[Crítica] Cemitério do Esplendor

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Cemitério do Esplendor 1

Baseando sua trama em um hospital improvisado no espaço de uma antiga escola, onde se acolhem soldados em recuperação, Cemitério do Esplendor prova-se um filme bem mais pragmático do que costuma ser o cinema do tailandês Apichatpong Weerasethakul. O conto trata de uma instalação hospitalar que cuida de soldados vítimas de uma estranha doença que transforma o seu sono em anômalo, e explora a vida de personagens bastante diferentes entre si.

A primeira pessoa focada é a enfermeira voluntária Jenjira (Jenjira Pongpas), manca de uma perna graças a uma doença que a deforma. Sua chegada a tal clínica improvisada faz maximizar a sensação de estranheza geral e seus préstimos são exigidos ao ter de cuidar de Itt (Banlop Monoi), um soldado jovem que não recebe visitas, e que, segundo a intuição da funcionária, acaba por não ter família.

O núcleo de personagens inclui também a jovem Keng (Jarinpattra Rueangram), que diz ter poderes mediúnicos, fator que torna dúbio o conjunto de cenas externas aos quartos onde residem os leitos, e até algumas internas, dada a vivacidade, ou não, das pessoas que percorrem o hospital. Com o decorrer da trama, essa dicotomia é explicada em partes pela proximidade no terreno de um cemitério.

A quase total ausência de trilha sonora gera uma série de sensações atrozes, com o som ambiente fazendo a trama soar mais naturalista. Em poucos filmes a aplicação destes aspectos serve tanto às curvas dramáticas e soa tão harmonioso. A realidade dentro do roteiro de Weerasethakul é um assunto igualmente ambíguo e discutível, retirando qualquer supervalorização do pragmatismo efetivo do plano natural em que o homem vive, tratando o metafísico como algo tão existente que, em alguns pontos, transita do abstrato para o concreto.

A mistura de atores não-profissionais faz a história soar ainda mais fluída. O afeto entre os seres que aos poucos se estreita emula a vagarosidade da vida cotidiana e a dificuldade em se desenrolarem novas relações. O texto ainda abre espaço para discutir a sexualidade da mulher, fator que ajuda a demonstrar um bom pedaço da identidade social do país, ainda mais gritante para a parcela do público pouco afeita ao lugar comum em que habita a Tailândia.

Para o cinéfilo que não está acostumado com a filmografia do diretor, talvez os dramas de Cemitério do Esplendor não são palatáveis, em especial pelo tipo de terapia envolvendo as luzes coloridas, que contêm muito mais mensagem em níveis subliminares do que nas camadas superficiais. A dissertação a respeito da vida e da morte flerta com a poesia, apesar de ser muito menos exótico e estranho do que o restante da filmografia, resultando em uma obra mais ligada à afetividade e humanidade.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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