Cinema

[Crítica] A Cidade Onde Envelheço

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Pessoal e intimista, A Cidade Onde Envelheço é um filme terno, que trata de questões universais e ao mesmo tempo bastante íntimas, levando em conta partes substanciais da rotina e passado de Marília Rocha, sua diretora. Antes de apresentar suas personagens principais, a câmera passeia por uma rua qualquer registrando os barulhos corriqueiros e cotidianos, ambientando o espectador onde a história acontecerá.

O trabalho de áudio faz uso de som direto, quase sendo necessário o uso de legendas para a total compreensão do ocorrido na trama. Tal artifício busca a naturalidade, e já ajuda a introduzir a personagem que mais aparece frente às câmeras, Teresa (Elizabete Francisca Santos), uma portuguesa, jovem e tresloucada que vai residir junto à sua conterrânea, Francisca (Francisca Manuel), que já vive em Minas Gerais há algum tempo. O modo como ambas falam em alguns momentos necessita de uma tradução, mas na maioria dos momentos é compreensível, mostrando um esmero especial do filme com tornar a abordagem em algo mais global.

O roteiro trata de questões pontuais da vida adulta, como a busca de identidade, o amadurecer longe dos pais e o começo de uma trajetória mais madura. O perfil das duas personagens lusitanas é completamente diferente, e se encaixa de maneira única, já que Francisca é bastante formal, enquanto Teresa já é aberta a novas experiências. Esses paradigmas comportamentais são invertidos em alguns pontos estratégicos da trama, demonstrando algo que pode parecer óbvio mas que normalmente é ignorado, o fato do ser humano se adaptar e se metamorfosear ao longo de sua vida no que diz respeito a escolhas e atitudes pessoais.

A questão da emigração de ambas é tratada em alguns momentos como uma alternativa a vida que antes tinham, e que apesar de não ser explicitada no longa, faz crer que essa rotina era digna de uma fuga para outra terra, uma que possuísse ao menos alguma coisa em comum, no caso, o idioma português, mesmo que a pronúncia e regras gramaticais não sejam exatamente as mesmas. O enfoque cômico que Marília emprega nas conversas segue essa mesma métrica de diferenças culturais, falando de maneira leve e bela sobre as tantas diferenças entre um país europeu que já esteve bem financeiramente, mas que está longe de ser uma potência social e econômica, em comparação com uma ex-colônia, que por sua vez país jovem e que parecia estar em ascensão na época em que se passava o filme.

A cumplicidade entre as mulheres é muito bem retratada, em especial do ponto de vista sentimental. Apesar de todas as diferenças de repertório entre a dupla é notável perceber os laços que as unem, indo além de promessas vazias e demonstrações bobas de amor e amizade. A Cidade Onde Envelheço tem um caráter  emocional forte, e mexe com o coração do espectador, especialmente àqueles que residem longe do lugar de onde são naturais.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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