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Crítica | Confia em Mim

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confia em mim

Confia em Mim (Idem, Brasil, 2014, Dir: Michel Tikhomiroff) é um dos raros casos de filmes nacionais de gênero que funcionam, seja pelo talento de Fernanda Machado, o carisma do (agora famoso) Mateus Solano, e principalmente pelo roteiro de Fabio Danesi, que forneceu a Michel Tikhomiroff um bom material para a direção do filme.

A assistente de cozinha Mari sonha em abrir o seu próprio restaurante, e, ao se envolver com o misterioso Caio e aceitar a sua ajuda para abrir o seu próprio negócio, acaba sendo vítima de um golpe. Resignada em contar a família o que aconteceu, ela vai na polícia, mas talvez seja tarde demais.

O roteiro não se assume como original e logo de cara opta por seguir os clichês do gênero romance/suspense, o que demostra a sua honestidade na falta de pretensão da história que está sendo contada. A estrutura sólida se cria desde o início com a protagonização absoluta de Mari desde a sua frustração como assistente de cozinha, o envolvimento com Caio, o golpe, a investigação da polícia e o desfecho.

As participações pontuais dos coadjuvantes são importantes não só para a construção tridimensional da protagonista, mas também a do antagonista. O que poderia ter sido um desfecho coerente se tornou um bom final pela atenção com que Fabio Danesi teve com o roteiro. Os fatos finais da história acabam se revelando surpreendentes quando a história antes havia puxando o espectador para um aparente beco sem saída.

A direção de Michel Tikhomiroff, filho de João Paulo Tikhomiroff que digiriu o frustrante Besouro (Idem, Brasil, 2009), não compromete o bom roteiro e consegue deixar os atores a vontade, mas ainda presos a alguma atuação teatral ao longo da história. As escolhas de decupagem e movimento de câmera são padronizadas e acabam não criando o melhor clima que o roteiro pedia, tornando-as satisfatórias, deixando o filme em um nível mediano que não merecia, se a direção fosse outra.

As atuações são medianas, mas, mesmo contida, Fernanda Machado consegue protagonizar de forma satisfatória e revelar os dramas que ao ter a confiança quebrada e seus sonhos despedaçados. A atriz também consegue transpor para as telas o ímpeto e a determinação quando Mari resolve ir na polícia e participar da investigação. Mateus Solano, por sua vez, nas vezes em que aparece domina a cena de uma forma que incorpora um personagem sem vícios.

A fotografia de Rodrigo Monte é televisiva e algumas vezes não teve o tom naturalista que algumas cenas pediam, como no Jockei por ex, mas nas cenas da casa de campo com a mãe e irmã da protagonista elas elevaram o tom das cenas. No geral, o que poderia ter sido uma ótima fotografia acaba não comprometendo a obra.

A edição de Gustavo Giani consegue dar ritmo quando o filme necessita, mas o clímax podia ter sido melhor construído se o material em mãos fosse mais bem trabalhado. Ele segue o roteiro e a direção criando o que se espera de um bom editor, não passando muito disso.

Confia Em Mim merece ser visto principalmente por seguir uma linha diferente dos cinema brasileiro dos últimos tempos: optar por um gênero que destoasse das comédias da Globo Filmes, dos filmes de favela, ou dos dramas de classe média. Desde Dois Coelhos (Idem, Brasil, 2012, Dir: Afonso Poyart) não se via um filme diferente no grande circuito brasileiro.

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Texto de autoria de Pablo Grilo.

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