Cinema

Crítica | De Longe Te Observo

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Cada um no seu inferno. O mais velho, Armando (Alfredo Castro), esperando um consolo, um amor na fase dos cabelos brancos, na fase permanente do desejo que não envelhece, com seu oposto, Elder (Luis Silva), menino delinquente de rua pertencente ao mundo de Os Esquecidos, de Luis Buñuel, no aguardo de salvação sem ao menor saber disso. Duas gerações e realidades à mercê do que é atemporal e indiferente à lugar, classe social, orientação sexual. Ambos de braços erguidos na busca por um anjo numa metrópole inglória latino-americana, onde a massa se confunde, com tantas histórias para se viver e se contar; resta-nos saber se De Longe te Observo, de Lorenzo Vigas Castes, seria uma delas. De fato, numa primeira reflexão, é uma releitura simplificada e mais humilde, com tomada contemporânea nos acontecimentos de Lolita, do fenômeno polêmico de andar no acostamento da estrada das paixões onde todos queremos correr a mil por hora; de um querer distinto e não-massificado.

Daí o prazer secreto do observar, de ser um peeping tom mudo e fantasmagórico que uma câmera, mais que um livro, consegue às vezes fazer plena justiça tanto ao olho que vê quanto ao objeto dotado de atenção divina ou danosa; tanto faz. É essa ambiguidade (e abertura de interpretação) que este pequeno filme nos oferece, em partes, numa bandeja de bronze onde cada cena importa, afinal, eis aqui um livro de fotografias que se movem não para criar um filme, mas um álbum de retrato 3D, daqueles cujas figurinhas tem alto relevo e criam empatia mais que as outras por causa da camada extra. A imagem então só atravessa os segundos na narração não para investigar o próprio tempo (na tela) que constitui, tampouco pra destacar a vibração da história, mas para dar conta de expressar uma realidade quase que documental nessa forma naturalista e já popular que o cinema latino-americano, europeu ou iraniano criam seus dramas sem medo de uma relação íntima com o realismo pesado e parcial que as novelas brasileiras tanto almejam abraçar sem êxito, numa mise em-scène mundana a dialogar entre seus espaços urbanos e suburbanos abertos, ou fechados, deixando claro que seus sobreviventes não acham divórcio de seus ambientes familiares.

Nisso, então, dá-se as contradições de um filme explicita e subjetivamente baseado nelas: Se a relação entre Armando e Elder pode ocorrer em qualquer lugar e de fato sempre existiu em qualquer época da humanidade, ela também aos dois Ícaros é impossível devido ao tempo e espaço que se debate para se manter, suportada apenas pela resistência do verdadeiro culpado, ou seja: O desejo. Daí a urgência desse desejo e da carência se manifestarem então no silêncio que o filme encapsula: No isolamento do rochedo litorâneo, no sexo de cortinas fechadas, na violência da sala, no prostíbulo surreal de A Bela da Tarde, nas quatro paredes misteriosas de O Anjo Exterminador. É esse mistério inexplicável das relações inexplicáveis, exceto pelas guias do senso-comum que De Longe te Observo não explica, mas de fato nos mostra como se pra isso apenas preenchesse numa economia narrativa gritante e afinal benéfica à história um curto período da vida de dois homens, duas bomba-relógio prestes a explodirem, até que explodem e nada mais. Mas livramo-nos de Buñuel e vamos à Stanley Kubrick: Tudo pode ser filmado se antes for imaginado. Exprimido em palavras, falado, contudo, com certeza seria outra história.

 

Douglas Olive

Cinéfilo formado em publicidade e iniciante com "Os Aristogatas", que assistia 5 vezes por dia na infância, e que agora começa a querer fazer seus próprios filmes. Devo estar indo longe demais.
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