Cinema

[Crítica] Desaparecidos

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desaparecidosEm 2011, o estilo de filmagem found footage já era bastante popular e largamente usado, principalmente na franquia Atividade Paranormal. Seguindo a mesma premissa de A Bruxa de Blair, o primeiro longa ficcional de David Schurman se inicia, reunindo a montagem de seis câmeras, de sobreviventes de um acidente em Ilhabela, litoral paulista. Seguindo essa pecha, Desaparecidos apresenta um grupo de indivíduos descompromissados com qualquer preocupação, tendo em seus corpos bonitos e joviais o único fator de diferença entre eles e qualquer outra pessoa.

As gravações apresentam o dia a dia fútil dos personagens, a caminho de uma festa VIP, em um lugar distante, precisando tomar a estrada para chegar a este ponto final. A juventude classe média é uma boa representação da alienação alertada por Arnaldo Jabor em A Opinião Pública, ainda que essa versão seja muito mais junkie e yuppie do que o panorama traçado no documentário.

Com sérios problemas de continuísmo, supostamente justificados pelo intervalo entre uma câmera e outra, os aventureiros encontram um habitante do lugarejo, que gosta de assustar turista contando lendas locais envolvendo desaparecimento de pessoas e abusos sexuais. Mesmo com tais avisos clichês, eles se deixam levar pela curiosidade e vontade de transar, indo até a tal festa, que evidentemente termina de modo trágico.

O argumento de Schurman e Rafael Blecher não contém muita lógica, uma vez que as transições são atrapalhadas e não há qualquer motivo plausível para a totalidade do elenco seguir filmando seus passos e ações. Em determinado momento, até há uma tentativa de justificar, mas nada muito que justifique os outros momentos passados.

A qualidade do vídeo é sofrível e a tentativa de emular câmeras de baixa resolução funcionaria em 1999 mas não na segunda década do século XXI. Os personagens são tão genéricos, pasteurizados e imbecis que se torna impossível se afeiçoar a eles. Os gritos irritantes também não colaboram, assim como a total dificuldade em estabelecer qualquer desespero por parte das meninas e meninos. O tal monstro que vitima os personagens não causa nem furor e nem curiosidade, já que não há qualquer elemento de identificação tanto na criatura quanto nos capturados.

Os instantes finais conseguem constranger mais do que o restante dos quase oitenta minutos de duração do longa, contendo não só um pedido de socorro para as tais câmeras, como se alguém visse aquilo ao vivo, como no expressar terrível do desespero, coroado com uma cena final de captura idêntica a vista em REC e em seu remake americano Quarentena. Desaparecidos possui um caráter descartável e não à toa é refutado por seu diretor, que não o conta como o seu primeiro trabalho ficcional.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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