Cinema

[Crítica] Epidemia de Cores

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Documentário que mira a ternura pautado no trabalho de terapia via pintura com os internos do Hospital Psiquiátrico São Pedro, Epidemia de Cores é narrado pelo próprio diretor, Mário Eugênio Saretta, que acumula a função de produtor, roteirista e de único cameraman do longa. Antes mesmo de falar com os pacientes e de mostrar os seus causos, a câmera registra um conjunto de tonalidades interessante, que permeiam por sua vez todo o interno do hospital.

As entrevistas são diretas e contam a história do lugar. O corpo de funcionários, voluntários e pacientes mostram uma realidade bem diferente do retratado no documentário recente Holocausto Brasileiro e o ficcional Nise- O Coração da Loucura, e de certa forma, este é uma continuação emocional dos filmes citados, por retratar um drama posterior ao recorte histórico de ambos filmes, mostrando um método não coercitivo de tratamento dos prejudicados mentalmente.

As pessoas que trabalham no hospital se sentem diferenciadas por acompanhar a evolução dos tais artistas, conseguindo tentos até então inimagináveis. Alguns dos pacientes sequer tinham capacidade de fala começam a trocar gracejos e elogios com estes, fruto desse trabalho de recuperação psiquiátrico, pervertendo a ideia bárbara de eletrochoque e outros métodos arcaicos que já foram a praxe no tratamento psíquico.

Saretta tem uma coragem monstruosa em dar voz as pessoas que participaram diretamente da terapia. É curioso até que isso seja um dos pontos positivos, uma vez que a captação de som do longa é outro trabalho de absoluto esmero. Cada cair de água e abrir de porta funciona como elemento narrativo, desconstruindo por completa a ideia de que o lar da insanidade – ou da busca por sanidade - é sujo, insalubre e acinzentado. Em algumas oportunidades, a trilha sonora de Vinícius Côrrea acaba pesando um pouco, antecipando sentimentos que não eram tão necessários, mas nada que denigra o trabalho final e artístico de Epidemia de Cores, que resulta em uma obra bonita, inclusiva e que adiciona muitas nuances a discussão sobre o viés psiquiátrico.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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