Cinema

Crítica | Era Uma Vez em Tóquio

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105706Era Uma Vez em Tóquio (Tōkyō Monogatari, Japão, 1953, Dir: Yasujirô Ozu) é considerada a obra-prima de Yasujirô Ozu, o seu filme mais famoso, muito provavelmente por conter mais atores, mais diálogos e uma mise-en-scène mais dinâmica comparada aos outros filmes do diretor.

Um casal idoso viaja à Tóquio para visitar seus filhos e é ignorado por todos, exceto pela antiga nora que era casada com o filho deles que morreu. A posterior morte da matriarca volta a unir todos em uma última despedida.

O roteiro do próprio diretor junto de Kôgo Noda, que trabalhou com Ozu na maioria dos seus filmes mais famosos, tem a estrutura simples e acerta ao focar no casal de idosos protagonistas e menos na sua relação com os filhos. Assim, vemos aos poucos a desconstrução da unidade familiar à medida que a relação com os filhos vai ficando mais distante.

O grande tema do filme é a perda, tanto das relações familiares e das tradições, quanto de Tomi, a matriarca, que acaba morrendo no final da história. A perda também pode ser estendida às amizades da época da guerra que Shukichi até conseguiu rever alguns dos amigos na sua passagem por Tóquio, mas ficou pelo tempo.

A atuação é uma das marcas de Era Uma Vez em Tóquio, ainda mais para quem não assistiu outros filmes do Ozu. É importante ressaltar que a direção de atores de seus filmes não deixa os atores imprimirem muitas emoções e mudanças de personalidade ao longo dos filmes. Ozu foi um dos que primeiro buscou o realismo no cinema, bem antes do movimento neorrealista italiano, portanto ele buscava reações mais naturais e menos catárticas.

Chishû Ryû e Setsuko Hara voltam a trabalhar com o diretor, repetindo a ótima parceria depois do belo Primavera Atrasada, de 1949. Ryû interpreta o pai e consegue imprimir a alegria e a felicidade de rever os filhos no meio da angústia pela falta de tempo deles. Hara passa todo o mal que sente por desejar outros homens mesmo o seu marido já ter morrido. Chieko Higashiyama é a matriarca que, igual a Shukichi, passa alegria no meio da tristeza pela falta de tempo dos filhos.

Mesmo podendo ser considerado um filme diferente na sua carreira, as principais características do diretor estão lá: a decupagem em Plano Geral da maioria dos planos, a direção de atores valorizando os tempos mortos na ação completa dos personagens (por ex, um senhor  bebendo o chá, a mulher varrendo o chão), os atores falam lentamente, paisagens como planos de  passagem, transição crua entre sequências e, claro, escolher uma história familiar que seja universal.

A fotografia de Yûharu Atsuta, que costumava trabalhar com o diretor. O jogo entre preto e branco que podia ser uma das marcas do filme, que preferiu buscar o naturalismo da cena. A edição de Yoshiyasu Hamamura é cadenciada, mas tem ritmo lento, já que ele trabalhou com Ozu outras vezes. Os cortes dão independência a cada plano dentro do filme, cada unidade é plena dentro do seu corte.

Era Uma Vez Em Tóquio é tido como um dos grandes filmes da história pela sua importância dentro do cinema neorrealista, mas também pode servir como chamariz para os outros filmes do diretor, que tem filmes tão bons e tocantes quanto.

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Texto de autoria de Pablo Grilo.

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