Cinema

[Crítica] Estive em Lisboa e Lembrei de Você

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Reunindo autores de gerações distintas da literatura brasileira, o projeto Amores Expressos, realizado pela Companhia das Letras, foi um conceito editorial que mapeou, através de narrativas, relações amorosas em diversos países do mundo. Ao todo, 17 escritores viajaram ao estrangeiro como inspiração para compor tramas encomendadas para o projeto.

Baseado no romance homônimo de Luiz Ruffato, presente na série citada, Estive Em Lisboa e Lembrei de Você é uma coprodução Brasil / Portugal com direção e roteiro do lusitano José Barahona. A trama acompanha a história de Souza Sampaio, um mineiro de Cataguases que encontra o amor e fundamenta uma família para, em seguida, vê-la destruída devido à loucura da esposa. Após a desordem da vida, com a esposa internada e a guarda do filho perdida, decide recomeçar em Portugal com a esperança de retornar ao Brasil em uma melhor situação financeira em um futuro próximo.

Ainda hoje, a migração temporária para grandes centros urbanos é um fator recorrente. Parte da população transita a procura de melhores condições de vida. E neste caso, Lisboa, como outras cidades estrangeiras, também representa um ponto de fuga, um local tradicional, quase intangível, por não ser a realidade vivida pela personagem, configurando-se como um local ideal, sem nenhum aparente problema no cotidiano.

Somente após chegar a cidade e contemplar sua beleza, aos poucos, a personagem adquire a compreensão de que, independentemente do local em que se encontra, parte de seu desconforto está em si mesmo. Sob este aspecto, o longa desenvolve uma naturalidade bem delineada no mineiro interpretado por Paulo Azevedo. Um alguém simples, sem muita expectativa de vida além de um equilíbrio sustentável entre um bom emprego e uma família. A trama aborda-o sem nenhum arroubo além de cenas do cotidiano, demonstrando certa inocência diante de uma cidade desconhecida e certa abstração diante do sonho de crescer na vida. Neste meio indefinido, em que as diferenças de sua realidade para aquela de sua terra natal se tornam mais opressoras, Sérgio encontra abrigo em uma prostituta, anunciado sinal de amor fugaz e perdição.

Através da relação destas personagens, a narrativa explora o conflito existencial da vida. O desconhecimento daqueles que vivem como se estivessem em um embate invisível, a margem de si, a procura de um significado maior. Lisboa se torna apenas um reflexo dessa aridez. A fotografia levemente escura e lavada amplifica a sensação de uma selva urbana que não acolheu nem Sérgio nem a prostituta Sheila. O que destaca a obra é a composição das cenas, pautada em momentos cotidianos e entrelaçadas em uma edição que também narra os fatos pelas imagens, além de meras explicações em diálogos. Um registro que evita o didatismo óbvio e entrega ao público um mínimo subjetivo para interpretação. Sem nenhum julgamento explicito de sua personagem central, a história convida o público a compartilhar da história de um homem comum observando seus sonhos sendo destruídos.

Thiago Augusto Corrêa

Apreciador de cinema, literatura, quadrinhos e música. Formado em Letras, escritor e metido a sabichão.
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